Com previsão de secas e incêndios intensos até 2027, as propostas dos candidatos para adaptação climática podem influenciar a resposta do próximo governo. Enquanto Lula prevê ampliar políticas de adaptação e prevenção de desastres, Flávio Bolsonaro não apresenta medidas diretamente voltadas ao enfrentamento das mudanças climáticas e, durante a campanha, afirmou não acreditar na influência humana no aquecimento global.

Já é certo que os efeitos de um muito forte vão durar pelo menos até fevereiro e há 61% de chance de continuarem até o final do primeiro semestre de 2027. Como o próximo mandato presidencial vai lidar com isso pode fazer total diferença para a prevenção de desastres relacionados, como chuvas e secas extremas e até mesmo ciclones, como ocorreu no El Niño de 2023.

Ainda que 91% dos brasileiros busquem propostas contra a crise climática nas eleições de 2026, apenas reconhece a existência de uma crise climática entre os dois candidatos que disputam o segundo turno, segundo análise do Observatório do Clima. Enquanto o candidato à reeleição propõe ampliar as políticas de e prevenção de desastres, Flávio Bolsonaro não apresenta medidas de adaptação às mudanças do clima, nem sinaliza que seguirá reduzindo emissões brasileiras, como determina o Acordo de Paris, do qual o país é signatário.

Para José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), membro titular da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e incluído esta semana na lista dos pesquisadores mais influentes do mundo, os impactos mais graves do El Niño na Amazônia devem ocorrer neste verão amazônico e no próximo ano, quando o país já estará sob um novo governo federal. “Está em jogo nossa capacidade de resposta para combater as mudanças climáticas e para futuros eventos de El Niño, porque vão continuar a acontecer e não sabemos se serão mais fortes ou não”, conclui.

Seca no , em 2023, quando El Niño estava em curso. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Flávio Bolsonaro não apresenta políticas climáticas

Flávio faz referência às mudanças climáticas apenas uma vez nas 76 páginas do seu plano de governo. Ele já negou a existência do aquecimento do planeta e da influência do homem na mudança do clima global e disse, erroneamente, que “o mundo está passando por um resfriamento”. Antes do 1º turno, em sabatina do Jornal Nacional, ele relativizou a responsabilidade humana na crise climática e sugeriu uma política de saneamento básico como medida de adaptação. 

Na única vez em que menciona a questão em seu plano, o candidato não utiliza o termo “mudanças climáticas”, mas fala de “eventos climáticos extremos”. A referência aparece na seção sobre segurança hídrica. Para prevenir os impactos desses eventos, ele propõe ampliar obras de infraestrutura, com a construção de barragens, reservatórios para controle de cheias, diques e sistemas de drenagem. O documento, porém, não detalha como esses projetos, metas, prazos ou custos para a implementação estarão diretamente conectados com a questão climática. 

A proposta também prevê fortalecer o monitoramento e os sistemas de alerta e resposta da Defesa Civil. O candidato afirma que pretende garantir “água que chega com segurança à torneira e à lavoura, e cidades protegidas da seca e da enchente”. 

Para a bióloga e cientista climática Erika Berenguer, não se pode esperar de Flávio “grandes investimentos em prevenção ao fogo, que é o lugar mais importante para se preparar para que os incêndios não ocorram na Amazônia”. Berenguer é pesquisadora da Universidade de Oxford e coordenadora da Rede Amazônia Sustentável, dedicada a entender as dinâmicas do fogo na floresta. Um estudo liderado por ela calculou a perda de 2,5 bilhões de árvores em decorrência do El Niño entre 2015 e 2016, um dos períodos mais severos da história do fenômeno climático.

Propostas de Lula buscam adaptação climática

Se Lula for reeleito, seu plano prevê dar continuidade e ampliar as iniciativas de adaptação climática. Embora não mencione especificamente “El Niño”, as propostas do petista incluem estratégias voltadas à resiliência climática, à segurança hídrica e à prevenção de desastres.

Em um eventual quarto mandato, Lula quer tornar a adaptação climática um eixo institucionalizado e permanente do planejamento público. Isso significa preparar e ajustar , cidades, plantações e infraestruturas para reduzir os riscos e danos causados pelos impactos das mudanças no clima, como secas intensas ou enchentes.

A proposta prevê fortalecer o Plano Nacional de Adaptação Climática, lançado em 2016 para reduzir a vulnerabilidade do país aos efeitos das mudanças climáticas e orientar ações de adaptação em diferentes setores. Também propõe estimular a criação de planos estaduais e municipais “de enfrentamento ao calor extremo e fortalecimento da capacidade de prevenção e resposta a eventos climáticos extremos”.

Outra medida é ampliar o “Programa Cisternas”, criado em 2003 com o objetivo de garantir o acesso à água potável e à água para a produção de alimentos em áreas rurais com escassez hídrica. A proposta inclui ainda investimentos em obras de drenagem e contenção de encostas pelo Novo PAC e medidas para fortalecer a resiliência da produção rural, como o aprimoramento do seguro rural, o crédito para a agricultura familiar e o incentivo à pesquisa agropecuária para desenvolver cultivos mais resistentes à seca.

Na resposta a emergências, propõe fortalecer a Defesa Civil,  estimular planos municipais contra o calor extremo e integrar o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) ao atendimento de populações afetadas por desastres climáticos.

Para Taciana Stec, especialista em políticas públicas do Instituto Talanoa, a adaptação é um dos assuntos com maiores riscos de desmantelamento em políticas climáticas no Brasil, caso Flávio seja eleito. “O clima já mudou, os eventos extremos estão aí, o que a gente vai fazer para proteger a população? Em nenhum momento, o Flávio Bolsonaro coloca adaptação climática como centro de alguma política pública, especialmente nas comunidades mais vulneráveis”, observa.

O clima já mudou, os eventos extremos estão aí, o que a gente vai fazer para proteger a população? Em nenhum momento, o Flávio Bolsonaro coloca adaptação climática como centro de alguma política pública, especialmente nas comunidades mais vulneráveis.

Taciana Stec, especialista em políticas públicas do Instituto Talanoa

Stec também teme uma descontinuidade do Plano Clima caso Flávio seja eleito. O Plano Nacional sobre Mudança do Clima foi lançado em março deste ano, após três anos de articulação entre os diferentes ministérios, governos estaduais e municipais e sociedade civil, e deve orientar as estratégias climáticas do país até 2035.

Mas o plano ainda não está instituído por lei. “Ou seja, está em pé por conta de um decreto e por um processo técnico de metas e objetivos daqui até 2030″, resume Stec. Para ela, a implementação depende de vontade política e da destinação de recursos, além da articulação do Ministério do Meio Ambiente com os setores agropecuário e industrial e com as demais áreas do governo. “Então, a gente vê esse risco de que, de fato, a implementação do Plano Clima não aconteça”, conclui. 

Como governos Lula e Bolsonaro investiram em prevenção a mudanças climáticas

Entre maio e setembro deste ano, o governo federal realizou 133 reuniões oficiais relacionadas ao evento climático, com cientistas e autoridades de órgãos do governo federal, como o Ministério do Meio Ambiente, Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) e Casa Civil.

Em julho, o governo também criou uma comissão interministerial para planejar medidas preventivas em áreas como abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico. Para ações de prevenção e combate a incêndios, foram destinados R$ 335 milhões.

Na atual gestão de Lula, outra medida foi a criação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que reconhece a necessidade de estratégias específicas para cada ecossistema brasileiro e incorpora o conhecimento tradicional sobre o uso do fogo. A política também regulamenta questões como as brigadas voluntárias. 

Segundo a pesquisadora Erika Berenguer, neste ano, dado o quadro do fenômeno climático neste ano, o governo realizou uma contratação recorde de brigadistas e investiu no combate aos incêndios que serão consequência desse super El Niño.“Foram mais de 1 bilhão de reais [investidos], mas o governo poderia ter investido muito mais que isso. Provavelmente ainda vai queimar muito, mas queimaria muito mais se não tivesse esse investimento”, pondera.

Gado próximo a queimadas no município de Lábrea (AM), em agosto de 2020. Foto: Christian Braga/Greenpeace

Em contraste, ainda no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a verba para brigadistas caiu 58%. Mesmo com as queimadas na Amazônia aumentando 30% em 2019 e com o Pantanal registrando o maior número de queimadas em uma década, o governo Bolsonaro seguiu cortando drasticamente a verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais. 

“Todos os organismos ambientais foram desmontados [no governo Bolsonaro]. E aí você via o fogo avançar e não tinha controle. Essa é uma situação que pode se repetir se novamente houver um desmonte”, explica o climatologista Marengo. Segundo ele, a redução da capacidade institucional pode comprometer o combate a incêndios e a resposta a outros eventos extremos associados a futuros episódios de El Niño.

Todos os organismos ambientais foram desmontados [no governo Bolsonaro]. E aí você via o fogo avançar e não tinha controle. Essa é uma situação que pode se repetir se novamente houver um desmonte

José Marengo, membro titular da Academia Mundial de Ciências (TWAS)

Marengo também destaca que “uma forma de mitigação [dos efeitos do El Niño] é a redução do ”. Durante o governo de Jair Bolsonaro, houve um desgaste na relação entre o governo federal e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão responsável pelo monitoramento do desmatamento por satélite. Entre 2018 e 2022, o aumento da perda de floresta na Amazônia foi de 54%, de 7,5 mil km² para 11,6 mil km².

Já durante o terceiro governo de Lula, o desmatamento caiu acentuadamente e a Amazônia registrou a menor taxa de desmatamento da história. Em média, a região perdeu 690 mil árvores a menos por dia sob Lula 3 do que durante o governo de Jair Bolsonaro, segundo levantamento da InfoAmazonia. 

Além disso, o Fundo Amazônia, mecanismo brasileiro de captação de doações internacionais e nacionais voltado ao financiamento de ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, foi paralisado durante a gestão de Bolsonaro. O governo extinguiu os comitês responsáveis por orientar e avaliar a aplicação dos recursos, provocando conflitos com os países doadores, especialmente Noruega e Alemanha, que suspenderam novas contribuições. 

Sem esses recursos, diversos financiamentos climáticos ficaram comprometidos na região: monitoramento por satélite, equipamentos para bombeiros e brigadistas, obras de adaptação climática, abastecimento de água emergencial e fomento à agricultura sustentável.

O Fundo Amazônia foi retomado no governo Lula e o financiamento ampliado. Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), entre 2023 e 2025 foram aprovados e contratados R$ 3,7 bilhões em projetos, incluindo iniciativas de combate a incêndios e restauração.

Para André Lima, secretário da Secretaria Extraordinária de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o financiamento é um dos principais avanços para o manejo do fogo. Em 2025,projetos do Fundo Amazônia destinaram R$ 550 milhões para preparar os estados prioritários para possíveis incêndios florestais em 2026. “Cada estado recebeu, em média, R$ 45 milhões para o fortalecimento dos Corpos de Bombeiros, e compra de equipamentos, caminhões, caminhonetes, drones. Há estados, inclusive, que compraram helicóptero com o dinheiro”, afirma.

As estratégias do MMA incluem também a obrigação de medidas preventivas dentro de propriedades rurais. Segundo Lima, 70% dos incêndios no Brasil ocorrem em imóveis rurais, e cabe aos estados fiscalizar, orientar e prevenir. O ministério também repassou recursos a 25 municípios prioritários – três do Pantanal e 22 da Amazônia – e apoiou ações dos estados por meio de programas do Ministério da Justiça que mobilizam a Força Nacional e os Corpos de Bombeiros. De acordo com Lima, o orçamento total destinado ao controle de incêndios supera R$ 1 bilhão.

Impactos do El Niño vão continuar no primeiro semestre de 2027

No mundo todo, órgãos de monitoramento climático já confirmaram a intensificação do El Niño em 2026. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), o fenômeno, que pode atingir intensidade muito forte, tem se intensificado nos últimos meses, impulsionado pelo aquecimento anormal das águas da região central do Oceano Pacífico, que chegaram a 3°C acima da média em meados de setembro, além do acúmulo de calor nas camadas mais profundas do oceano.

Todos os 22 modelos meteorológicos mundiais monitorados pelo instituto preveem que o fenômeno vai se intensificar e permanecer na categoria “muito forte” ao longo do inverno amazônico, a partir de dezembro de 2026 e, com certeza (100% de probabilidade) de duração contínua até pelo menos fevereiro de 2027.

Com potencial para ser um dos episódios mais intensos já registrados na história, este El Niño já está intensificando a seca e gerando uma grave crise de incêndios na região  Norte do Brasil, segundo boletim do ClimaInfo. 

Tempestades deixaram quase 25 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas nos últimos 30 dias, 34 vezes mais do que no mesmo período de 2025. Somando-se a isso, a Amazônia registrou mais de 15 mil focos de calor entre 13 de setembro a 12 outubro deste ano, 2,4 vezes o número do mesmo período de 2025. No Amazonas, já foram registrados neste mês quase o dobro de focos de queimadas do que em todo outubro de 2025, de acordo com o boletim do ClimaInfo. Como consequência, Manaus tem ficado há semanas encoberta de fumaça, o que afeta diretamente a saúde, pois os incêndios florestais estão associados a 23% mais internações por doenças respiratórias no país.

Queimadas no Amazonas em setembro deste ano. Foto: Defesa Civil do Amazonas/Divulgação

O governo federal investiga no momento uma “ação criminosa deliberada” por trás da disparada de incêndios no estado e vem enviando recursos à região, como disponibilizar aeronaves, helicópteros e aviões de combate direto e enviar mais brigadistas a campo.  No entanto, o Corpo de Bombeiros do Amazonas recusou ajuda do governo federal anteriormente, duas vezes, em setembro, segundo apuração dos jornalistas independentes Cley Medeiros, Mariah Cruz e Aldizângela Brito e confirmada pelo MMA.

Nos últimos dias, o governo federal repassou R$ 17,6 milhões para ações de resposta e recuperação em 13 cidades brasileiras afetadas por desastres, em meio ao avanço da seca extrema e outros impactos do El Niño. 

Contexto geopolítico da Amazônia preocupa para os próximos anos

Em caso de Flávio Bolsonaro vencer, outro risco é a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) ser enfraquecida. A instituição reúne oito países que dividem o bioma amazônico (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), com o objetivo de coordenar iniciativas de conservação, segurança, gestão dos recursos naturais e desenvolvimento sustentável. 

Em cenário de El Niño, a seca e os incêndios não respeitam fronteiras. Por isso, a OTCA se torna um eixo de articulação entre todos os que compartilham a bacia Amazônica. Uma das ações é o compartilhamento de dados hidrológicos feito pelo Observatório Regional Amazônico, mantido via OTCA, que promove a coordenação transfronteiriça no combate ao fogo e à assistência humanitária conjunta.

Durante o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, a cooperação ambiental internacional perdeu espaço na política brasileira. Pesquisadores apontaram falta de recursos para a OTCA e aumento das tensões diplomáticas com países vizinhos, em um contexto de enfraquecimento mais amplo das iniciativas de cooperação amazônica. A OTCA só começou a se reestruturar em agosto de 2023, na Cúpula da Amazônia, em Belém. 

Nos últimos anos, a Organização tem tentado recuperar o tempo perdido. Os principais avanços foram a instalação oficial da Rede Amazônica de Autoridades de Águas (RADA), a Rede Amazônica de Manejo Integrado do Fogo (RAMIF) e a Rede Amazônica de Autoridades Florestais. Em junho de 2025, foi inaugurado também o Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) da Amazônia, em Manaus (AM), voltado ao enfrentamento de crimes transnacionais que afetam a região, como o narcotráfico. 

Para José Marengo, o cenário atual na Pan-Amazônia é preocupante, pois os governos estão ficando mais alinhados à direita, como foi o caso da Colômbia neste ano, e com menos compromisso com a política climática e ambiental. “Estamos vivendo novamente o imperialismo americano e isso é preocupante, porque estamos falando de políticas econômicas e ambientais, como as autorizações para explorar petróleo na Foz do Amazonas. É um risco ambiental gigantesco”, finaliza.


Imagem de abertura: Queimadas no interior do Amazonas, em setembro deste ano. Foto: Defesa Civil Amazonas/Divulgação

There are no comments yet. Leave a comment!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article