Como o eleitor da Amazônia tem votado nos últimos anos? Há um apoio à pauta ambiental? O que podemos esperar da eleição presidencial de 2026, especialmente em relação à escolha de um Congresso Nacional e de Assembleias Legislativas que defendam o meio ambiente?
Essas e outras perguntas surgiram ao longo dos últimos três meses, enquanto a InfoAmazonia construía a série especial Eleições em Mapas, que apresenta análises exclusivas sobre passado, presente e futuro das eleições na Amazônia Legal.
Neste primeiro episódio — de seis! —, os dados mostram que as escolhas feitas nas urnas da região têm resultado, cada vez mais, em votos para candidatos de partidos contrários à agenda climática. A análise considera os resultados das eleições presidenciais de 2010 a 2022, disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e dados sobre o posicionamento dos congressistas em relação às mudanças climáticas, segundo o Observatório do Legislativo Brasileiro (OBL). A partir desses dados, a InfoAmazonia criou um índice de posicionamento partidário em relação ao clima e o aplicou aos resultados das eleições presidenciais em cada município da Amazônia Legal.
Há outra associação importante: a cada R$ 1 bilhão a mais no valor da produção agrícola, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a nota de alinhamento do eleitorado à pauta ambiental cai, em média, 0,19 ponto — sendo que os valores variam entre -1,94 e 3,55. Leia a metodologia aqui.
Essa mudança de posicionamento em relação à pauta climática já vinha sendo observada por alguns especialistas, como Ivan Silva, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e vice-coordenador-geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL). Silva trabalhou ao lado da equipe da InfoAmazonia como consultor científico do projeto e, segundo ele, não se trata de uma virada apenas em relação à pauta ambiental: a Amazônia Legal está cada vez mais à direita.
“Para a direita, existe uma incompatibilidade entre desenvolvimento e preservação ambiental. Então, ou você desenvolve ou você preserva o meio ambiente. Isso é algo que, inclusive, aparece cada vez mais nos discursos da população de um modo geral hoje na Amazônia. Há vários trabalhos [pesquisas científicas] mostrando a permanência da validade dessa hipótese”, explica.
Para a direita, existe uma incompatibilidade entre desenvolvimento e preservação ambiental. Então, ou você desenvolve ou você preserva o meio ambiente. Isso é algo que, inclusive, aparece cada vez mais nos discursos da população de um modo geral hoje na Amazônia. Há vários trabalhos [pesquisas científicas] mostrando a permanência da validade dessa hipótese.
Ivan Silva, professor de Ciência Política da Unifap e vice-coordenador-geral do LEGAL
A queda no alinhamento à pauta climática ocorreu em todos os estados da Amazônia Legal. Entre as eleições de 2010 e 2022, Acre, Amapá, Mato Grosso, Rondônia e Roraima registraram queda em 100% dos seus municípios.
Tocantins quase repetiu esse padrão. Apenas dois municípios apresentaram aumento na nota de alinhamento pró-clima, enquanto 99% seguiram na direção contrária. No Maranhão, 98% dos municípios reduziram sua nota de alinhamento, enquanto cinco seguiram na direção oposta. No Amazonas, foram 94% dos municípios, com quatro exceções. Já no Pará, 83% dos municípios se afastaram da pauta climática, enquanto 25 apresentaram aumento na nota de alinhamento.
“O primeiro fator que nos ajuda a compreender por que essas notas [de alinhamento dos municípios a partidos pró-clima] vão caindo sucessivamente, sem voltar, é o peso dessa conversão à direita no padrão de voto. O segundo fator é o avanço do agronegócio. Isso vai acontecer em Rondônia, no sul do Pará, no Tocantins e em vários dos estados da Amazônia Legal, inclusive naqueles em que há uma preponderância do voto à esquerda. Até no Maranhão, por exemplo”, explica Ivan.
Além do avanço da direita e do agronegócio, Ivan aponta outro fator importante para o distanciamento do eleitorado das pautas climáticas: a disputa cultural. Para explicar esse processo, ele recorre ao conceito de “aparelhos privados de hegemonia: GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Círculo do Livro, 1980”, do filósofo Antonio Gramsci, que trata do papel de instituições da sociedade na difusão e consolidação das ideias das classes dominantes. Segundo ele, a cultura da região vem sendo fortemente influenciada por esse processo.
“Não tem como descolar a questão cultural. Não tem. É preciso olhar para esse modelo de expansão cultural: o avanço do sertanejo universitário, por exemplo, também cadencia padrões de vestimenta e, inclusive, imagéticos, de um modelo de progresso para os estados, sobretudo no Norte”, diz. O pesquisador explica que esse padrão de discurso vem sendo incorporado pelo agro e pela direita, em uma espécie de “mimetização de uma estratégia de progresso”.
“Isso é muito martelado e colocado em contraposição a um modelo histórico de preservação, real ou imaginário, que, em tese, mantém o estado de pobreza na Amazônia”, completa.
No mapa, passe o mouse sobre os municípios para ver a nota de alinhamento dos eleitores em cada eleição presidencial.
COMO ANALISAMOS O ALINHAMENTO DO ELEITORADO À PAUTA CLIMÁTICA NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS?
Neste episódio do “Eleições em Mapas”, analisamos os resultados das eleições presidenciais de 2010, 2014, 2018 e 2022 nos nove estados da Amazônia Legal (AC, AM, AP, MA, MT, PA, RO, RR e TO), cruzando os votos nominais por partido com uma nota de alinhamento à pauta climática atribuída a cada legenda.
A nota de cada partido foi calculada a partir das notas individuais do ranking temático “Mudanças Climáticas” do Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB), que avalia o posicionamento de parlamentares em votações e proposições ligadas ao clima (metodologia). As notas individuais do OLB são relativas e vão de -10 a +10, ou seja, o parlamentar que mais atuou de forma contrária ao tema climático tem nota -10 e, o mais favorável, +10. Quando calculadas as médias dos partidos, os valores ficam entre -3,87 (NOVO) e +4,63 (PSOL).
Os resultados eleitorais oficiais foram obtidos por meio de consulta à Base dos Dados e filtrados para os pleitos de presidente, considerando os votos por partido e por município no 1º turno.
Para cada município e ano de eleição, construímos um “índice de alinhamento do eleitorado à pauta climática”: multiplicamos a nota de cada partido pela proporção de votos que ele recebeu naquele município e somamos o resultado entre os partidos. Por exemplo, se um município teve 40% dos votos no PSOL (nota 4,63) e 60% no NOVO (nota -3,87), o índice desse município é calculado como: (0,4 × 4,63) + (0,6 × -3,87) = -0,47. Ou seja, quanto maior a nota, mais o eleitorado local concentrou seus votos em partidos mais bem avaliados na pauta climática. Considerando os índices calculados com os resultados das eleições de 2010, 2014, 2018 e 2022, os valores variam entre -1,94 e 3,55. Os municípios foram identificados pelos códigos do IBGE, com malhas geográficas obtidas via biblioteca do R {geobr}, a partir da base oficial de municípios de 2022.
Também analisamos a relação entre esse índice e a produção agropecuária dos municípios, usando dados de valor de produção e área plantada ou destinada à colheita da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM/IBGE, tabela 5457 do SIDRA). Os valores monetários foram deflacionados com o pacote {deflateBR} para permitir a comparação entre os anos.
Para testar se existe relação estatística entre o valor da produção agropecuária e a nota de alinhamento climático do eleitorado, considerando o ano da eleição e as diferenças de características entre os municípios, ajustamos um modelo de regressão linear de efeitos mistos (com intercepto aleatório por município). Isso significa que o modelo permite que cada município tenha um ponto de partida diferente na nota de alinhamento climático, reconhecendo que eles têm características próprias e, portanto, não necessariamente partem do mesmo nível de alinhamento. O resultado indica um efeito negativo e estatisticamente significativo do valor de produção sobre a nota, mas mostra que a maior parte da variação entre municípios está associada a características locais não capturadas pelas variáveis do modelo.
Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, disponibilizamos os dados e os scripts utilizados nesta pasta.
Esta geonotícia foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com apoio do Instituto Serrapilheira.
Análise de dados: Renata Hirota
Consultoria científica: Ivan Silva
Visualização de dados: Carolina Passos
Reportagem e coordenação: Carolina Dantas
Direção editorial: Juliana Mori