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As novas direitas fincaram raízes na Amazônia e miram a agenda ambiental

O avanço eleitoral do conservadorismo se combina à expansão do agronegócio e do garimpo e a uma disputa cada vez mais ideológica em torno de meio ambiente e desenvolvimento. A série Eleições em Mapas investiga essas transformações.

Embora a Amazônia Legal seja uma região constituída por uma pluralidade de trajetórias políticas e institucionais, além de distintos padrões de competição eleitoral e estruturação partidária, desde 2002 (e, de modo mais evidente, a partir de 2014, chegando ao ápice em 2018) há um traço aglutinador importante: a despeito das suas especificidades, todos os nove estados da região observaram um grande realinhamento eleitoral, com os seus padrões de voto caminhando cada vez mais rumo à direita do espectro ideológico para todos os cargos e em todos os pleitos, segundo análises do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal e, também, da InfoAmazonia, que serão apresentadas pela série especial Eleições em Mapas nas próximas semanas.

Votação de comunidade indígena na eleição suplementar de Roraima, em 21 de junho de 2026. Foto: Antonio Augusto/TSE

Tanto na eleição de 2018 quanto na eleição de 2022 as maiores vantagens de Jair Bolsonaro no segundo turno foram conquistadas em estados amazônicos: em 2018, as maiores margens de vitória bolsonarista no segundo turno foram, respectivamente, Acre (77,22% de Bolsonaro contra 22,78% de Haddad), Santa Catarina (75,92% de Bolsonaro contra 24,08% de Haddad), Rondônia (72,18% de Bolsonaro contra 27,82% de Haddad) e Roraima (71,55% de Bolsonaro contra 28,45% de Haddad) – portanto, três das quatro vitórias mais expressivas daquele pleito. Já em 2022, as três maiores vantagens foram, respectivamente, Roraima (76,08% de Bolsonaro contra 23,92% de Lula), Rondônia (70,66% de Bolsonaro contra 29,34% de Lula) e Acre (70,30% de Bolsonaro contra 29,70% de Lula) – todas na Amazônia.

Mesmo no caso de estados com longa trajetória de prevalência eleitoral da esquerda, essa guinada se verifica e aqui merece destaque o caso do Acre, governado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) por vinte anos (entre 1999 e 2018), durante a experiência da Frente Popular, e berço de figuras históricas da esquerda brasileira, como Chico Mendes e Marina Silva. Hoje, é um forte reduto bolsonarista.

Há, ainda, os casos de estados com longa trajetória conservadora, como Rondônia, que, segundo os professores João Paulo Viana (UNIR) e Márcio Carlomagno (UFPR), em artigo publicado na Revista Teoria e Cultura, deu a vitória a Jair Bolsonaro nos dois turnos das duas últimas eleições em todos os municípios e em praticamente todas as zonas eleitorais – num caso bastante impressionante de enraizamento social e ideológico.

Ainda que haja razões específicas para o crescimento vertiginoso da força eleitoral dos partidos de direita em cada um dos estados aqui considerados (que vão desde o desgaste das lideranças tradicionais da esquerda até novas configurações partidárias e estruturas de alianças locais), há elementos comuns que ajudam a compreender o enraizamento eleitoral das direitas na Amazônia como um todo – bem como as duas principais exceções a esse crescimento (casos de Pará e Maranhão). A grande presença de um eleitorado cada vez mais evangélico (assumindo, aqui, o risco de uso desse termo, dada a multiplicidade de denominações e tradições religiosas que ele engloba), a presença estratégica das Forças Armadas na região e sua consolidação como zona de expansão da fronteira produtiva do agronegócio (e do garimpo) são alguns desses fatores.

Há elementos comuns que ajudam a compreender o enraizamento eleitoral das direitas na Amazônia como um todo (…). A grande presença de um eleitorado cada vez mais evangélico (…), a presença estratégica das Forças Armadas na região e sua consolidação como zona de expansão da fronteira produtiva do agronegócio (e do garimpo) são alguns desses fatores.

Ivan Silva, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amapá e vice-coordenador geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal

Há, aqui, duas importantes observações a serem feitas. A primeira diz respeito à especificidade desses grupos políticos e sociais abertamente identificados com a direita política, que a literatura acadêmica vem definindo como as novas direitas. Em minhas pesquisas (sobretudo, aqui, aqui e aqui), o conceito de novas direitas se refere aos novos movimentos sociais e grupos políticos surgidos, na arena pública brasileira, em meados da década de 2010, na esteira de manifestações de grande magnitude, como as Jornadas de Junho de 2013 e as marchas pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2015 e 2016.

A condição de novidade dessas direitas se justifica a partir da união de cinco características fundamentais: a compreensão de que as pautas culturais e morais representam um espaço privilegiado de disputa política; o anti-intelectualismo, compreendido tanto como a rejeição aberta e frontal das instâncias tradicionais de produção, legitimação e reprodução dos regimes de verdade – notadamente, as universidades, centros de pesquisa e escolas –; o antielitismo, politicamente traduzido como a valorização ética, estética e epistemológica do cidadão médio e do senso comum como instrumento de apreensão do real; a instrumentalização do discurso politicamente incorreto como arma de uma retórica antissistema; e a síntese entre liberalismo econômico e conservadorismo moral, aglutinados a partir da elevação da família patriarcal ao posto de categoria ordenadora do mundo social.

A segunda observação diz respeito ao lugar ocupado pela agenda ambiental na retórica política desses grupos. No discurso político das novas direitas, de modo geral, e do bolsonarismo, de modo mais específico, a agenda ambiental passa a ser compreendida como uma arma política de dois movimentos subversivos: o movimento ambientalista e a organização política dos povos originários. Também é apresentada como um instrumento privilegiado de disputa política das esquerdas (e, em termos internacionais, do chamado globalismo) para corroer os fundamentos da nacionalidade brasileira e da própria soberania nacional, inviabilizando o desenvolvimento econômico do Brasil e comprometendo a segurança de suas fronteiras, criando enclaves supranacionais (as Terras Indígenas).

Seja do ponto de vista ideológico, a partir da compreensão do ambientalismo e da organização política dos povos originários como arma política da esquerda globalista, ou do ponto de vista concreto, a partir da aliança com frações do capital vinculadas ao agronegócio e ao extrativismo mais predatório, a reversão da legislação ambiental protetiva – construída a duras penas no país – e a reconversão da Amazônia à condição de zona de expansão da fronteira do agronegócio, se apresentaram como eixos fundamentais do bolsonarismo – que também encontrou na região amazônica um espaço bastante fértil para seu enraizamento eleitoral e social.

Os episódios da série Eleições em Mapas, que se inicia nesta quarta-feira (e da qual tenho a honra de ser consultor científico), buscam jogar luz sobre vários desses fenômenos, tanto do ponto de vista da composição social do eleitorado na Amazônia, quanto de suas preocupações e aspirações, bem como da maneira pela qual as principais forças políticas nos nove estados disputam, cadenciam e reconfiguram essas aspirações em vários sentidos.

Compreender os desafios contemporâneos da agenda ambiental na Amazônia brasileira passa, antes de tudo, por compreender a região em toda a sua complexidade, para além dos estereótipos e simplificações que, em geral, vicejam nas análises mais apressadas. É exatamente nesse sentido que foi conduzido o enorme esforço empreendido nas análises contidas nessa série.

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Ivan Silva

Professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), vice-coordenador geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL) e secretário-executivo da regional...

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