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Formar para resistir: a Amazônia precisa de comunidades fortes diante do avanço dos combustíveis fósseis

O avanço de grandes empreendimentos coloca em disputa o futuro da floresta e exige que povos e comunidades tenham informação, autonomia e poder para participar das decisões sobre seus territórios.

A Amazônia vive uma encruzilhada histórica. Ao mesmo tempo em que o mundo reconhece a importância da floresta para o equilíbrio climático, para a conservação da biodiversidade e para a continuidade da vida no planeta, crescem sobre a região os interesses ligados à exploração de petróleo, gás, minérios e outros grandes empreendimentos.

Essa contradição precisa ser enfrentada de forma clara. Não é possível defender a Amazônia nos discursos internacionais e, ao mesmo tempo, transformar seus territórios em novas fronteiras de expansão dos . Também não é possível falar em desenvolvimento sem perguntar quem recebe os benefícios, quem suporta os prejuízos e quais formas de vida podem desaparecer nesse processo.

A questão central, portanto, não é apenas se haverá ou não novos investimentos na região. A pergunta que precisamos fazer é outra: que modelo de desenvolvimento queremos construir para a Amazônia e para os povos que vivem nela?

A questão central, portanto, não é apenas se haverá ou não novos investimentos na região. A pergunta que precisamos fazer é outra: que modelo de desenvolvimento queremos construir para a Amazônia e para os povos que vivem nela?

Sila Apurinã

Durante décadas, a região foi tratada como um território destinado ao fornecimento de matérias-primas, energia e riquezas naturais para outras partes do Brasil e do mundo. Madeira, minérios, produtos agrícolas, energia e biodiversidade foram retirados dos territórios sem que isso resultasse em melhoria das condições de vida da maioria da população amazônica.

A expansão da exploração de petróleo e gás corre o risco de repetir esse mesmo padrão. Os lucros podem ficar concentrados nas empresas e nos investidores, enquanto permanecem nos territórios a poluição, os conflitos, o adoecimento das populações, a pressão sobre as comunidades e a destruição dos meios tradicionais de subsistência.

Empreendimentos dessa natureza não provocam apenas impactos ambientais. Eles transformam profundamente a vida social, econômica e cultural das comunidades. Podem contaminar rios e igarapés, reduzir a pesca, afastar animais, pressionar terras indígenas e territórios tradicionais, aumentar conflitos fundiários e comprometer atividades que sustentam milhares de famílias, como o extrativismo, a agricultura familiar e a pesca artesanal.

Por isso, a expansão dos combustíveis fósseis na Amazônia não pode ser tratada apenas como uma decisão técnica, energética ou empresarial. Trata-se de uma escolha política sobre o futuro da região.

Essa escolha não pode ser feita sem a participação efetiva das populações diretamente atingidas. Nenhuma comunidade deveria ser chamada apenas para ouvir explicações sobre decisões já tomadas. Não existe participação verdadeira quando os povos são convidados somente para legitimar empreendimentos previamente definidos ou negociar compensações por danos que poderiam ter sido evitados.

A consulta deve acontecer antes das decisões. Deve respeitar as formas próprias de organização de cada povo e assegurar o direito de questionar, modificar ou rejeitar iniciativas que ameacem seus territórios e modos de vida.

Moradores de Macapá (AP) jogam futebol próximo a um manguezal às margens do rio Amazonas. Foto: Victor Moriyama/InfoAmazonia

Esse é o sentido do direito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado, reconhecido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. A não pode ser reduzida a uma reunião burocrática, a uma lista de presença ou a uma apresentação técnica feita em linguagem inacessível.

Defender a Amazônia significa garantir que as comunidades possam dialogar com governos, empresas e instituições públicas em condições menos desiguais. Hoje, de um lado, grandes empresas contam com equipes jurídicas, recursos financeiros, consultorias especializadas e amplo acesso aos espaços de decisão. Do outro, muitas comunidades recebem informações incompletas, quando os projetos já se encontram em fase avançada.

É nesse contexto que a formação comunitária se torna uma ferramenta essencial de resistência e de democracia.

Na Rede Grupo de Trabalho Amazônico, a Rede GTA, entendemos que informação gera autonomia. Quando uma comunidade conhece seus direitos, compreende os impactos de um empreendimento e participa dos espaços de decisão de forma consciente, ela deixa de ser tratada como uma simples espectadora e passa a assumir o protagonismo na construção de seu futuro.

Formar não significa apenas realizar oficinas ou cursos. Significa fortalecer as organizações de base, apoiar lideranças locais, ampliar a participação de mulheres e jovens e criar condições para que povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares possam defender seus territórios.

Significa também oferecer instrumentos para que as comunidades compreendam documentos técnicos, acompanhem processos de licenciamento ambiental, construam seus protocolos de consulta e apresentem suas próprias propostas de desenvolvimento.

A formação política, jurídica, ambiental e organizativa ajuda a reduzir as desigualdades de poder. Permite que as comunidades identifiquem ameaças, construam estratégias coletivas e não enfrentem isoladamente empresas e projetos que atuam em escala regional, nacional e internacional.

Ao mesmo tempo, resistir não significa apenas dizer não. É preciso afirmar outros caminhos possíveis para a Amazônia.

A agroecologia, o manejo comunitário da floresta, a pesca artesanal, o extrativismo sustentável, a agricultura familiar e as iniciativas baseadas na sociobiodiversidade demonstram que é possível gerar renda, conservar a floresta e fortalecer as comunidades.

Mas também precisamos ter cuidado com o uso de determinadas palavras. Nem tudo o que recebe o nome de bioeconomia beneficia os povos da Amazônia. Uma bioeconomia controlada por grandes empresas, baseada na exportação de matérias-primas e na apropriação privada dos conhecimentos tradicionais, pode apenas modernizar as antigas formas de exploração da região.

Nem tudo o que recebe o nome de bioeconomia beneficia os povos da Amazônia. Uma bioeconomia controlada por grandes empresas, baseada na exportação de matérias-primas e na apropriação privada dos conhecimentos tradicionais, pode apenas modernizar as antigas formas de exploração da região.

Sila Apurinã

A bioeconomia que defendemos deve estar sob controle das comunidades, gerar renda nos territórios, distribuir benefícios de forma justa e reconhecer os conhecimentos de quem cuida da floresta há gerações.

O mesmo princípio deve orientar a . Não podemos aceitar uma transição que apenas substitui uma mercadoria por outra, mantendo a concentração de riqueza, a exploração dos trabalhadores e a destruição dos territórios.

Uma transição verdadeiramente justa precisa reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, ampliar o acesso à energia limpa, combater as desigualdades e garantir direitos às populações urbanas, rurais, indígenas e ribeirinhas.

O Brasil terá de tomar decisões importantes no próximo ciclo político. Entre 2027 e 2030, o país poderá aprofundar sua dependência de atividades extrativas e combustíveis fósseis ou construir um projeto de desenvolvimento orientado pela justiça social, pela participação popular e pela proteção dos territórios.

Nesse sentido, iniciativas como a Bússola 2026, construída a partir da análise das políticas públicas e dos principais indicadores socioambientais do país, podem contribuir para colocar essas escolhas no centro do debate eleitoral.

As candidaturas precisam dizer com clareza qual projeto defendem para a Amazônia. Não bastam promessas genéricas de desenvolvimento sustentável. É necessário assumir compromissos concretos com os direitos territoriais, a consulta prévia, a proteção ambiental, o fortalecimento das organizações comunitárias e a redução progressiva da dependência dos combustíveis fósseis.

A Amazônia é mais do que um bioma ou um estoque de recursos naturais. É um território de povos, culturas, conhecimentos e formas de vida. É também o lugar onde se cruzam algumas das principais escolhas brasileiras sobre clima, democracia, economia e justiça social.

Tenho esperança porque vejo mulheres, jovens e lideranças comunitárias  diariamente assumindo a defesa de seus territórios. São essas pessoas que mantêm a floresta viva, preservam conhecimentos ancestrais e constroem soluções concretas para enfrentar a crise climática.

Por isso, investir na formação das comunidades não é uma ação secundária. É uma condição para que a democracia chegue aos territórios e para que a Amazônia possa decidir seu próprio futuro.

A região não precisa apenas de investimentos. Precisa de respeito, escuta, direitos garantidos e compromisso com a vida.

Formar é construir autonomia. Formar é reduzir desigualdades de poder. Formar é preparar as comunidades não apenas para reagir às ameaças, mas para apresentar suas próprias propostas de futuro.

Fortalecer as comunidades é fortalecer a Amazônia. E não haverá proteção da floresta nem solução para a crise climática sem justiça social, participação popular e respeito aos povos que cuidam desses territórios há séculos.

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Sila Apurinã

Liderança indígena amazônica, presidenta do IPDA e coordenadora nacional da Rede GTA. Atua na defesa dos povos, das mulheres e da Amazônia, promovendo justiça climática, direitos territoriais e fortalecimento...

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