Postado emOpinião / Desmatamento

Duas boas notícias, mas um El Niño a caminho

No primeiro semestre de 2026, o desmatamento da Amazônia teve a menor área sob alertas da série do Deter; já o fogo teve redução de 80% entre 2024 e 2025. Ainda assim, não temos como saber o que nos espera exatamente com o El Niño deste ano. O que resta é investir em adaptação.

Floresta Nacional do Tapajós. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Boas notícias sem “dourar a pílula”. Hoje, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) traz um dado positivo: a área de fogo na Amazônia diminuiu em 80% em 2025, em relação ao ano anterior, atingindo 31 mil km² — a menor área queimada da série histórica de 41 anos do MapBiomas Fogo. Ainda assim, 20 vezes maior do que a cidade de São Paulo. 

Outra boa notícia é a redução do desmatamento em 2026: entre janeiro e julho, a Amazônia registrou a menor área sob alertas de desmatamento (1.295 km²) desde o início da série histórica do Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 2016. 

As duas notícias são ótimas para explicar o que nós, o Brasil, temos capacidade de fazer e o que, infelizmente, é maior do que nós — mas, mesmo assim, podemos investir em adaptação. 

A redução do desmatamento é resultado de um monitoramento mais efetivo realizado pelo governo federal. Apesar de outros projetos antiambientais aprovados durante o governo Lula — como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e o avanço da BR-319 —, é indiscutível que a política antidesmatamento funcionou, em especial na Amazônia. A perspectiva é de que no final deste ano, na COP31, o Brasil tenha a menor área já registrada pelo Prodes, sistema do Inpe que traz a taxa oficial anual de desmatamento. Vamos aguardar. 

Sabe-se que o fogo na Amazônia sempre andou junto com o desmatamento. Em uma coluna que escrevi em 2024, expliquei a conexão entre as duas coisas. O texto, que intitulei de “Nós somos o isqueiro, mas o pavio é a seca”, foi publicado em plena seca histórica de 2024, consequência de um El Niño avassalador para o bioma. Naquele ano, os rios da maior bacia hidrográfica do mundo, a do Amazonas, tiveram o menor nível da história. 

Hoje, enquanto escrevo esta nova coluna, passei a notar quantos recordes passamos a registrar — para o bem e para o mal. “Menor área queimada”, “menor área de alertas”, “menor área já registrada pelo Prodes”, “menor nível da história”. 

Pois essa redução de 80% da área queimada na Amazônia, claro, tem relação com o fato de que o El Niño atingiu drasticamente a região no ano anterior, provocando uma seca severa que deixou a floresta mais suscetível ao fogo. Não quero dizer que não seja uma boa porcentagem; é ótima. Mas esses números poderiam ser bem diferentes se o desmatamento ainda estivesse a todo vapor naquele momento. O que acontece regionalmente não está desconectado do que ocorre globalmente. E o que fazemos hoje continua produzindo efeitos nos próximos anos. 

O que ficou do El Niño passado pode impactar o El Niño de agora. A pesquisadora do IPAM Vera Arruda explica que, após as secas em 2023 e 2024, a área queimada diminuiu em 2025 devido ao retorno das chuvas regulares, que aumentaram a umidade da vegetação. Mas, ainda assim, os efeitos continuam se acumulando. 

“Essa trégua climática também pode ter estimulado o crescimento da vegetação com acúmulo de biomassa. Esse cenário serve de alerta para 2026, pois caso ocorram novos períodos de estiagem combinados com o uso indiscriminado do fogo, essa vegetação acumulada poderá funcionar como combustível altamente inflamável, elevando o risco de grandes incêndios”. 

Onde eu quero chegar com isso? Há luz no fim do túnel quando pensamos em políticas públicas, como os dados de desmatamento mostram. Mas, ao mesmo tempo, ainda somos reféns das nossas próprias escolhas históricas: a temperatura do planeta continua aumentando, o uso de combustíveis fósseis também, e o Congresso segue desmontando tudo…

As únicas variáveis controláveis são as políticas de cada nação e a forma como cada uma se adapta a fenômenos extremos, como secas e chuvas causadas por El Niños avassaladores, um deles previsto para este ano. A escolha de quem colocamos no poder está cada vez mais conectada ao que somos como país agora, e também como seremos no futuro  — e como população que resiste aos efeitos das mudanças climáticas. 

Afinal, as divisões entre biomas, ecossistemas, florestas, água, fogo e, sim, seres humanos são criações nossas. Estamos todos no mesmo planeta e chegamos há muito pouco tempo no Universo. 

Carl Sagan apresenta, em “Os Dragões do Éden”, o “Calendário Cósmico”. Ele condensa 13,8 bilhões de anos de história do Universo em uma escala de apenas um ano. Cada segundo equivale a cerca de 500 anos, e o Homo sapiens aparece somente às 23h56 do dia 31 de dezembro. Essa espécie que surgiu no último dia do ano é a mesma que acredita não fazer parte da natureza. Vamos ver se a ficha cai nos último quatro minutos que restam.

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