Em setembro, a região a até 300 km da capital registrou o maior número de focos de calor em cinco anos. Ministério suspeita de uso do fogo para derrubar a floresta e converter o solo para outras atividades.
Há um mês, a região metropolitana de Manaus sente o efeito das queimadas. Pelas manhãs, a cidade está coberta de fumaça, é difícil ver o rio e o céu, e as pessoas mais vulneráveis têm buscado atendimento público de saúde. Embora 2026 não seja um ano recorde de queimadas na Amazônia, o padrão do fogo mudou e está mais concentrado perto da capital amazonense. Em setembro, foram registrados 1.920 focos de calor em um raio de até 300 km da cidade, o maior número desde 2021, segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), analisados pela InfoAmazonia.
Os focos de calor no entorno da cidade representam 15,3% do que foi registrado no bioma Amazônia. No mesmo período, entre 2021 a 2025, o número de focos perto da capital amazonense ficou entre 1,8% e 6,7%. Os registros de 2026 são maiores até que 2023, ano recorde de fogo e que também passou por um El Niño.
À InfoAmazonia, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que os registros de focos de calor no Amazonas, em outubro de 2026, se concentraram em áreas de floresta primária. Segundo a pasta, “a elevada concentração de focos em áreas de floresta primária chama a atenção e indica a possibilidade de uso intencional do fogo para degradar a vegetação, com o objetivo de facilitar a posterior derrubada da floresta e a conversão do uso do solo para outras atividades”.
Dados de 12 de outubro mostram que 84% das ocorrências estavam concentradas em um raio de até 150 quilômetros de Manaus, principalmente nas regiões sul, sudeste e leste da capital, em municípios como Careiro da Várzea, Autazes e Itacoatiara. Essa concentração ajuda a explicar a maior exposição da população da capital à fumaça das queimadas, de acordo com o MMA.
A localização dos focos também aponta para as estradas e as áreas de ocupação humana. O ramal que sai da BR-319 em direção a Autazes, com cerca de 120 km de pasto dos dois lados da pista, pode também ser um atrativo. Essa é uma das áreas que acumularam focos de calor em setembro, estendendo-se até o início de outubro.
“Onde eu tenho foco de incêndio é na beira da pista”, disse o tenente Charles Barroso, da Defesa Civil do Amazonas. Segundo André Luiz da Costa Carvalho, diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a BR-319 e suas ligações, como a de Manaquiri, fazem com que áreas antes pouco disputadas passem a despertar interesse, e essas áreas vão sendo lentamente desmatadas e queimadas.
Para o pesquisador, é preciso criar um mecanismo de monitoramento na região para que as aberturas não sejam desenfreadas. “Se, por exemplo, essa estrada abrir, toda ela vai ficar ramificada. Vários ramais, vão surgir várias atividades, algumas de economia mais pesada, outras menos pesada, na intensidade de uso do solo. O que vai acontecer? Você vai ter esse fenômeno de queimadas muito maior. Porque é assim (com fogo) que as pessoas entendem que se limpa o solo”, analisou.
Se, por exemplo, essa estrada abrir, toda ela vai ficar ramificada. Vários ramais, vão surgir várias atividades, algumas de economia mais pesada, outras menos pesada, na intensidade de uso do solo. O que vai acontecer? Você vai ter esse fenômeno de queimadas muito maior. Porque é assim (com fogo) que as pessoas entendem que se limpa o solo
André Luiz da Costa Carvalho, diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
O uso do fogo como instrumento para a limpeza de pastagens não é uma prática recente. “O fogo, ele é cultural, sempre teve”, disse Carvalho. “É o jeito que as pessoas encontram mais barato de você ir lá e limpar um terreno”. O problema, segundo ele, é que as condições mudaram. A floresta não tem mais tanta umidade quanto tinha antes e vai pegar fogo com muito mais facilidade.

No bioma Amazônia como um todo, foram registrados 21.768 focos de calor em agosto e setembro de 2026, contra 13.305 no mesmo período de 2025.
Apesar do aumento geral, em setembro deste ano, 48,6% dos focos registrados no bioma estavam a mais de 800 km de Manaus. Essa proporção é inferior à observada entre 2021 e 2025, quando variou de 55% a 76%.
A redução também aparece no número absoluto de focos nessa faixa de distância: em agosto e setembro de 2024, foram registrados 48.883 focos a mais de 800 km da capital amazonense. No mesmo período de 2026, foram 10.209.
Ano de El Niño
Além da possibilidade de incêndios criminosos, 2026 também está sendo marcado pelo desenvolvimento de um El Niño muito forte, fenômeno que ocorre quando há o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. A previsão é que ele fique ainda mais intenso a partir de novembro.
Em anos de El Niño, as condições climáticas podem aumentar o risco de queimadas na Amazônia, mas a relação não é direta. O fenômeno pode alterar os padrões de chuva e temperatura e criar condições mais favoráveis ao fogo, mas só isso não basta para explicar a quantidade ou a localização dos focos deste ano.
Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), avalia que ainda é cedo para atribuir ao El Niño o aumento do fogo em relação a 2025. Ela avalia que o período seco começou mais tarde neste ano, o que pode ter deslocado a temporada de queimadas para os últimos meses de 2026. Nesse período, os efeitos do El Niño tendem a ser mais sentidos no norte do Amazonas, aumentando a preocupação com a combinação dos fatores. “É quando uma coisa vai encontrar a outra mesmo… esse é o meu medo maior”, afirma.
Assim, é esperado que outubro e novembro sejam mais intensos em relação aos meses anteriores. Os primeiros dados de outubro já estão nessa direção. Até o dia 13 de outubro, 778 focos de calor foram registrados a até 300 km de Manaus, 10,4% de todos os focos do bioma no período. Está atrás apenas de 2023, ano do El Niño anterior, quando foram 1.228 focos no mesmo intervalo. “Tem um risco muito grande, nesses próximos dois, três meses, de piorar se as chuvas não começarem”, disse Alencar.
O restante do estado do Amazonas também sente o avanço do fogo, embora o padrão tenha sido atípico na região próxima de Manaus. Segundo Alencar, o padrão observado no entorno da capital é incomum, mas o número de focos “para o Amazonas todo não é”.
Para Barroso, o efeito mais perceptível do El Niño até agora está nas temperaturas e no nível negativo de chuvas. Outubro ainda deve manter o calor elevado nas regiões central e norte do Amazonas. Já o nível do rio Negro em Manaus, de acordo com ele, está acima do de 2024 nesta época do ano. O rio registrou 17,47 metros nesta quinta-feira (15), contra 14 metros dois anos atrás. Ele espera que o nível do rio não se agrave tanto quanto em anos anteriores.
Já Carvalho, da UFAM, lembra que 2025 foi um ano atípico devido às chuvas. Tudo foi reduzido em relação ao ano anterior: fumaças, queimadas, calor, desmatamento. Ele explica que isso ocorre porque a crise climática faz com que os fenômenos extremos passem a ser intensos e contínuos. Isso acontece tanto com a seca quanto com a chuva.
“Em 2025, não teve quase queimada, porque choveu muito, mesmo em um período seco”, disse. O professor mostra áreas próximas a Manaus que aparecem queimando em 2024 e de novo em 2026. “Provavelmente isso aqui é uma área de pasto. O cara todo ano vai lá e queima”, explica.
Fumaça afeta a população
A Defesa Civil tem emitido alertas de risco moderado e alto por causa da qualidade do ar. Os focos próximos à capital refletem na saúde da população. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) registrou 156 atendimentos relacionados à exposição à fumaça entre agosto e setembro, segundo o órgão. Desses casos, 61 ocorreram entre 23 e 25 de setembro. “O que mais chamou a atenção foi a piora de pacientes que já tinham algum problema respiratório, principalmente com crises de asma, tosse, irritação na garganta e desconforto para respirar”, disse o médico Wagner Elisiario, que trabalha em Unidade Básica de Saúde (UBS) e em pronto atendimento.
Conversando com cinco trabalhadores ao ar livre – que trabalham com limpeza de prédios, de rua e construção – foi relatado que a fumaça tem atrapalhado o trabalho. “No dia que tá, assim, mais quente, com mais fumaça, o que atrapalha mais é a ventania que bate no nosso rosto e a quentura também. Eu sinto mais dificuldade de respirar”, disse Welithon da Silva, que trabalha com construção e reformas.

Sem proteção adequada e com a temperatura elevada, cada um se protegendo como pode. “A gente tem que usar máscara. Querendo ou não, tem que usar porque a fumaça contamina você dentro da boca. De uma vez, às 5 horas da manhã, você já vê aquele fumaceiro”, disse Vilmar Pedrosa de Souza, que trabalha com limpeza.
A gente tem que usar máscara. Querendo ou não, tem que usar porque a fumaça contamina você dentro da boca.
Vilmar Pedrosa de Souza, trabalhador da limpeza.
Na madrugada de 23 de setembro, entre 3h e 8h da manhã, quatro dos 12 sensores de qualidade do ar ativos em Manaus registraram PM2,5: Concentração de material particulado fino (PM2.5, do inglês “particulate matter”) um conjunto de poluentes atmosféricos com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, que pode ser transportado pelo vento por milhares de quilômetros. acima de 250 µg/m³, segundo análise da InfoAmazonia com dados da PurpleAir, sistema de sensores de monitoramento da qualidade do ar em tempo real. Um sensor passou de 540 µg/m³ às 6h.
Desde o início deste mês, a cidade já registrava momentos com índice de 100 µg/m³, com picos concentrados entre 17 e 24 de setembro, justamente nos dias em que o sistema de saúde recebeu mais pacientes. O limite diário considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15 µg/m³. Segundo uma comparação usando dados da Berkeley Earth, organização de pesquisa que monitora temperaturas globais e mudanças climáticas, respirar um dia inteiro com média de 22 µg/m³ de PM2,5 pode equivaler, em risco à saúde, a fumar um cigarro.
Esses dias de pior fumaça na cidade coincidem com um conjunto de focos de calor do outro lado do rio Negro. Ao analisar as imagens de satélite de 19 a 25 de setembro, há uma grande concentração de fogo em Careiro da Várzea, município vizinho a Manaus.
Carvalho acompanha a região perto de Manaus por satélite. Segundo ele, Careiro da Várzea tem queimado “tanto que a temperatura da superfície está naturalmente mais quente”.
As fumaças vistas na capital em 2026 podem ser explicadas pelas condições na região metropolitana, que favorecem o início e a propagação do fogo, segundo Barroso, da Defesa Civil do Amazonas. No leste do estado e na região metropolitana, o órgão identificou maior concentração de dias sem chuva e com temperaturas acima de 35ºC.

A média das temperaturas máximas no Amazonas chegou a 37°C em setembro. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a temperatura máxima diária do ar próximo à superfície é uma das variáveis utilizadas no Modelo de Risco de Fogo, ferramenta que estima o risco de ocorrência de incêndios florestais a partir de fatores como temperatura, umidade do ar, chuva acumulada e condições da vegetação, que influenciam a facilidade com que o fogo pode começar e se espalhar.
Imagem de abertura: Queimada em Autazes, município localizado a 250km de Manaus. Foto: Daniel Ávila/Defesa Civil do Amazonas