Especialistas defendem integração entre saúde, gestão da água e políticas de adaptação para reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre as populações mais vulneráveis.
“A impressão que eu tenho é que a própria gestão está perdida sobre o que fazer”. A fala de Joice Paixão reflete a sua preocupação sobre a chegada do El Niño e seus impactos nas periferias do Recife. Moradora da Zona Oeste da cidade, a presidenta da Associação Gris Solidário e secretária executiva da Rede Por Adaptação Antirracista, acredita que, mesmo com os alertas dos especialistas de que esse pode ser o evento climático de maior proporção a atingir o Brasil desde os anos 1950, o Estado ainda está aquém e não apresentou um plano eficaz para mitigar as consequências nas regiões mais vulneráveis e suscetíveis aos desastres climáticos e ambientais.
Em outra região do país, o paraense Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática, compartilha da mesma preocupação de Joice Paixão. Ele reforça a importância de que os governos federais, estaduais e municipais passem a estabelecer um maior diálogo com a população para que as informações cheguem de maneira mais acessível e sejam compreendidas da melhor forma possível por aqueles que sofrerão de forma direta os impactos da chegada do fenômeno.
“Os dados do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] são muito fortes e impactantes, mas esses dados não estão chegando para a população. São dados que são debatidos por técnicos e especialistas e que muitas vezes ficam só no âmbito do governo. Então, eu acredito que um passo importante é levar esses dados para as pessoas”, defendeu Farias.
Os dados do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] são muito fortes e impactantes, mas esses dados não estão chegando para a população. São dados que são debatidos por técnicos e especialistas e que muitas vezes ficam só no âmbito do governo. Então, eu acredito que um passo importante é levar esses dados para as pessoas.
Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática
Os dados e informações mencionadas por Alex dizem respeito ao alerta que vem sendo feito há meses por meteorologistas e especialistas sobre o El Niño 2026. No dia 11 de junho deste ano, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciava a chegada oficial do fenômeno climático, que deve atingir grandes proporções. De acordo com o Inmet, “historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens, redução da umidade do solo e impactos sobre os recursos hídricos”.
Como consequência do aquecimento global, o fenômeno do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, conhecido popularmente como El Niño, apresenta uma tendência de ser ainda mais intenso. A previsão de um conjunto de multi-modelos (North American Multi-Model Ensemble – NMME) indica que há 63% de chances do El Niño ficar muito forte durante os próximos meses de novembro e dezembro deste ano, e janeiro de 2027, o que pode classificá-lo como um dos eventos mais fortes nos registros históricos desde 1950.

“O que acontece quando a gente tem esse aquecimento no Pacífico? Essa condição muda a circulação do ar, que começa a ter correntes descendentes de ar seco e quente sobre a região da Amazônia e boa parte do Nordeste do Brasil. Essas características começaram a ficar muito nítidas a partir de maio”, explica o meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Humberto Barbosa.
Com imagens de satélite, o cientista tem monitorado de forma frequente os impactos do El Niño na atmosfera do Brasil e divulga, também, quais áreas do país estão mais suscetíveis a enfrentar fenômenos climáticos como secas e queimadas.
“Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico — entre os meses de outubro, novembro e dezembro — nós enfrentaremos um El Niño de proporções extremas, para definir melhor qual a probabilidade dessa intensidade”, explica Barbosa.
Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico.
Humberto Barbosa, meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da UFAL
O calor intenso para o Norte e Nordeste
Diante deste cenário, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), criou um boletim, que será divulgado mensalmente, para apresentar atualizações sobre o monitoramento, previsão e impactos do El Niño no Brasil.
O primeiro boletim, divulgado em 29 de junho, afirma que “a previsão climática para o trimestre julho-agosto-setembro de 2026 indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas da região Sul e chuvas abaixo da média no Centro-Norte do país. Ainda, as previsões indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, que podem aumentar os eventos de onda de calor e a ocorrência de incêndios florestais”.
A seca nas regiões Norte e Nordeste deve resultar em um aumento nos incêndios, impacto na agricultura e comprometer a segurança hídrica local. Além disso, o calor extremo causado pela falta de chuva e um maior aquecimento da atmosfera traz consequências à saúde e ao bem-estar da população. “Isso significa uma diminuição de chuvas na região da Amazônia. A partir de setembro, outubro, você já começa a estação chuvosa na Amazônia. De um modo geral, isso vai reduzir, e a Amazônia é muito sensível quando você reduz o volume de chuva”, explica Humberto Barbosa.

Para quem vive nas periferias, as consequências podem ser variadas, como explica Joice Paixão: “aqui no Recife, uma das políticas públicas mais divulgadas pela prefeitura é a concretagem das barreiras nas favelas. Além disso, são muitas as obras de ruas e parques que destroem árvores e áreas de mangue. Então, a cidade está cheia de ilhas de calor, as áreas verdes são cada vez menores. Juntando isso com o El Niño, imagina como vai ser o próximo verão na cidade”.
Um levantamento publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, estimou quais cidades são as mais impactadas pelas ondas de calor. Entre as cidades brasileiras, Manaus aparece como a mais vulnerável. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). De acordo com o estudo, os riscos associados ao calor extremo não dependem somente das condições climáticas, mas também a fatores econômicos, sociais e de infraestrutura.

“Além da falta de áreas verdes e de infraestrutura, quando vamos olhar para as dicas de como enfrentar o calor extremo nós escutamos coisas como ‘compre um arcondicionado para se refrescar, tome mais banho, use ventilador’, mas quem tem condições de tomar essas medidas? Na favela, as pessoas enfrentam constantemente o desligamento da água, a falta de abastecimento. Fora a questão do gasto com energia. Outro ponto importante pouco falado é a sobrecarga na rede elétrica que esse período pode causar”, reforça Joice Paixão.
Além disso, na região Norte, a falta de um planejamento para eventos climáticos extremos como El Niño reforça um estigma que fortalece o racismo ambiental já enfrentado na região, como explica Alex Farias: “Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras”.
Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras.
Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática
“A COP foi um ótimo exemplo dessa disparidade no investimento na infraestrutura da cidade. Todo o investimento foi feito na área mais central e mais conhecida de Belém e nada para as periferias. E, ainda assim, a área ficou toda alagada quando teve uma forte chuva na cidade. O que eu vejo é que não há mesmo uma preocupação em resolver e ensinar a população o que fazer diante de um evento climático grave”, concluiu Farias.
Quais medidas estão sendo tomadas para mitigar os impactos?
Para o professor Humberto Barbosa, mais importante do que saber agir na emergência de um evento climático extremo, o Estado brasileiro, em uma articulação entre os poderes federal, estadual e municipal, precisa proporcionar formas e ferramentas para que a população possa conviver com as consequências de um cenário climático adverso.
“É preciso criar programas permanentes de educação para que a população saiba como conviver com as altas temperaturas, da mesma forma que, ao longo dos anos, aprendemos a conviver com a estiagem e a escassez de água”, defende Barbosa.
“A principal diferença para este El Niño será o aumento das temperaturas, impulsionado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, resultado principalmente das emissões da indústria e das queimadas, além do aquecimento do Oceano Pacífico. Esse cenário tende a intensificar a seca, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino. Mais do que a redução das chuvas, que já são naturalmente escassas no segundo semestre, o problema é que o calor mais intenso acelera a perda de umidade do solo e eleva ainda mais as temperaturas, tornando a seca mais severa”, conclui o diretor do LAPIS.
Barbosa reforça, ainda, que o aumento das temperaturas representa uma ameaça direta às populações que vivem no semiárido. A escassez de água compromete o abastecimento humano e a criação de animais, especialmente caprinos e ovinos, importantes fontes de alimento e renda para milhares de famílias da região.
Segundo o cientista, uma das principais estratégias para reduzir esses impactos continua sendo o fortalecimento de políticas de convivência com o semiárido: “A palma forrageira tem sido uma reserva importante de água para a pecuária e contribui para garantir uma certa segurança na produção de carne, mesmo em períodos de seca”.
Ele ressalta, no entanto, que episódios recentes de calor extremo também provocaram perdas na cultura, reforçando a necessidade de ampliar ações emergenciais, como o fornecimento de água potável às populações mais vulneráveis: “o sertanejo já desenvolveu uma grande capacidade de resiliência, mas estará submetido a condições cada vez mais desfavoráveis com as altas temperaturas. Por isso, ações emergenciais, incluindo a atuação do SUS, serão fundamentais”.
Em um contexto de seca, um fato importante a ser considerado é a piora da qualidade da água. Com reservatórios, açudes e rios permanecendo por muito tempo com água parada, aumenta a proliferação de algas e cianobactérias, que podem contaminar a que é consumido pela população. Entre os problemas associados, estão quadros de diarreia, intoxicações e, em situações mais graves, até mortes. Por isso, é fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) atue de forma integrada com as secretarias de Recursos Hídricos e de Meio Ambiente para monitorar a qualidade da água, acompanhar as comunidades mais expostas ao calor extremo e orientar a população sobre os riscos.
Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos, intensificados pelo El Niño, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, um plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a capacidade de resposta do SUS até 2035. A estratégia reúne 27 metas e 93 ações voltadas à prevenção, adaptação e resposta a emergências climáticas, reconhecendo a crise climática como um desafio crescente para a saúde pública.
Entre as principais medidas estão a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima, a implantação do Painel Nacional de Excesso de Calor (que emitirá alertas com até cinco dias de antecedência sobre riscos associados às altas temperaturas) e a ampliação da Força Nacional do SUS para acelerar o atendimento em desastres. Segundo o Ministério da Saúde, a iniciativa busca proteger principalmente as populações mais vulneráveis aos impactos do calor extremo e de outros eventos climáticos.
Joice Paixão defende que o governo passe a investir cada vez mais em políticas públicas de saúde para a população periférica, relacionando com o enfrentamento da crise climática. Pessoas com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e doenças respiratórias, tendem a sofrer agravamentos durante os períodos de calor extremo, aumentando a demanda por atendimento nas unidades básicas de saúde, UPAs e demais serviços de média e baixa complexidade.
“O calor extremo provoca um impacto direto na saúde básica. Pacientes hipertensos, diabéticos, cardiopatas e pessoas com doenças respiratórias entram mais facilmente em crise e procuram com maior frequência os serviços de saúde”, afirma a diretora do Gris Solidário.
Paixão também alerta para a subnotificação dos efeitos do calor sobre a saúde. Na avaliação dela, muitos óbitos registrados como infarto ou Acidente Vascular Cerebral (AVC) podem ter sido desencadeados pelas altas temperaturas, sem que essa relação seja identificada pelos sistemas de vigilância: “muitas vezes a causa registrada é o infarto ou o AVC, mas esses eventos podem ter sido precipitados pelo calor extremo. Essa relação ainda é pouco considerada e precisa orientar políticas públicas”.
Para ela, ampliar a produção de evidências e incorporar esse conhecimento às estratégias governamentais é um passo fundamental para fortalecer a resposta do SUS às mudanças climáticas. “Os estudos precisam sair da academia e chegar aos gestores públicos para que sejam transformados em políticas de saúde capazes de proteger a população diante dos eventos climáticos extremos”, conclui a ativista climática.
Além dos impactos físicos, Paixão chama atenção para os efeitos das ondas de calor sobre a saúde mental e o comportamento da população. Temperaturas elevadas podem aumentar a irritabilidade, a sensibilidade e a vulnerabilidade emocional, fenômenos que estudos internacionais já relacionam ao crescimento dos índices de violência: “existe uma correlação entre o aumento das temperaturas e o aumento da violência. No Brasil, esse debate ainda é pouco aprofundado, especialmente quando se trata da violência doméstica que atinge mulheres e crianças”.
O especialista em Direito e Governança Climática, Alex Farias, ressalta a importância de uma ampliação nos investimentos em saúde como uma medida de mitigação para os eventos climáticos extremos, e alerta sobre a falta de infraestrutura das unidades básicas de saúde do Pará. “Acredito que ainda estamos errando em oferecer o básico. No Pará, nós temos lutado para garantir que a população tenha acesso a exames, consultas, que os profissionais estejam presentes nas unidades de saúde. Há um sucateamento muito grande na saúde. Então, fica ainda mais difícil de tratar os pacientes no dia a dia, imagina, então, como será em casos extremos”, conta Farias.
“Infelizmente, o que eu vejo é que falta diálogo entre os poderes [federal, estadual e municipal] e deles com a população também, porque também é importante ouvir o que as pessoas têm a contribuir para a formação das políticas públicas de qualidade. Quem convive com o problema é quem melhor pode apontar a solução”, conclui o especialista.
Alex reforçou a importância da iniciativa da Rede por Adaptação Antirracista e do Observatório do Clima, organizações que protocolaram uma carta endereçada ao governo federal para cobrar transparência e ações preventivas diante da projeção de formação do El Niño no Brasil. O documento, assinado por 77 organizações, traz diretrizes claras de enfrentamento ao fenômeno. “Essa carta é a prova de que há inúmeras soluções que podem ser adotadas e que muitas vezes dependem da ação do poder público”.
Imagem de abertura: Seca e crise hídrica em rios da Amazônia, em 2024. Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil