Discursos mentirosos inspirados em mitos da colonização estimulam violência no ambiente virtual e alimentam hostilidade contra povos da floresta e organizações que atuam na região

Em 1542, o explorador espanhol Francisco Orellana navegou pela primeira vez pelo rio Amazonas e seus relatos de viagem até hoje reverberam no imaginário que muitos têm sobre a Amazônia brasileira. A partir da descrição fantasiosa que ele fez das populações nativas,  surgiram  mitos e lendas sobre como os povos indígenas se vestiam, como estavam sempre armados e não teriam organização social. Essa maneira de ver o mundo da  ótica colonialista não ficou no passado e, até hoje, impacta a vida dos povos da floresta. 

“As narrativas primeiras sobre a viagem de Orellana são recebidas como se fosse uma grande fantasia, um delírio. São relatos criados com base numa visão única e com base nos conceitos que eles tinham na época. Muitas narrativas começaram a circular depois disso”, explica o antropólogo e cientista político da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Raimundo Nonato Pereira da Silva. 

O antropólogo explica que essa visão e lógica expostas pelos relatos do século XVI ainda são encontradas nos discursos e intenções da sociedade. “Um pesquisador chileno me procurou, porque queria conhecer as populações indígenas, mas queria ver os indígenas que ele chama de ‘nativos’, ou seja, que na visão dele são indígenas em aldeias, vestidos com poucos panos e segurando flechas. Então você vê como a visão primitiva de séculos passados ainda permeia os horizontes. Isso tudo vai criando uma noção errada do que é o outro. E isso é muito forte”, conta Raimundo Nonato. 

O jornalista Euclides da Cunha foi outra personalidade histórica que deixou relatos sobre sua visão da Amazônia e que é citado pelo antropólogo Raimundo Nonato. Segundo ele, a produção de Euclides foi importante para marcar, através do discurso, a visão do que é a Amazônia hoje. “O que Euclides faz é devastador”, diz Raimundo Nonato. “A ideia que Euclides tinha de um território paradisíaco não se confirmou e ele criou outra imagem, de um espaço pobre que precisava ser tomado pelo Estado para ser desenvolvido”, acrescenta. 

Antonio Lima / Secom (AM)
Discurso sobre Amazônia reproduz visão colonial

“Ao contrário da admiração ou do entusiasmo, o que sobressalta geralmente, diante do Amazonas, é antes um desapontamento […] Além disso, sob o conceito estritamente artístico, é completamente inferior a um sem-número de outros lugares do nosso país. Toda a Amazônia, sob este aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à ponta do Munduba”, relatou Euclides.

Passando dos relatos escritos para as mídias atuais, o discurso vai tomando vários espaços na sociedade. O antropólogo cita como exemplo de reprodução do discurso colonial o canal de televisão Amazon Sat, sediado em Manaus (AM) e transmitido para  cinco estados da região Norte. O veículo tem a linha editorial voltada para a cobertura de temas socioambientais. “A imagem que ele [Amazon Sat] ainda reproduz é simplesmente de uma região idílica, uma região em que a floresta, os pássaros,  a vida está em harmonia. Não é diferente daquela que foi passada no século 18, século 19. Isso gera um impacto muito grande na visão das pessoas sobre a Amazônia, como aconteceu com o meu colega antropólogo chileno, que me disse ter passado por um susto quando viu Manaus de avião e encontrou uma cidade com prédios e luzes”, explicou.

A partir do século XX, os indígenas passaram a reivindicar seus papéis na criação de suas próprias narrativas, mostrando que a imagem e os mitos criados e disseminados não podiam ser tomados como realidade. Esse trabalho de criar novas narrativas ocorre ainda hoje, com as publicações de livros, o uso das redes sociais, a presença de indígenas em espaços de poder, dentro das universidades, nos coletivos e movimentos. 

O influenciador Cristian Wari’u, do povo Xavante, por exemplo, criou um canal no Youtube em agosto de 2013, e publica vídeos sobre ser indígena no século XXI. Ele fala sobre o trabalho de organizações da sociedade civil, a importância da floresta em pé, a demarcação das terras indígenas e as consequências das mudanças climáticas. Ele também está em outras plataformas, sempre desmistificando mitos e combatendo a desinformação sobre os povos indígenas e a Amazônia. 

A Rede Wayuri,formada por comunicadores indígenas do Alto Rio Negro, no Amazonas, produz conteúdo com o mesmo objetivo, mas tem uma atuação voltada para dentro do território e seu público-alvo são os próprios indígenas. A rede também checa informações divulgadas nas redes sociais, faz campanhas educativas e de saúde, além da cobertura e divulgação de eventos. O conteúdo é disponibilizado via rádio e em podcast, em português e outras cinco línguas indígenas.

“Índios baderneiros”

Rwui Manchineri, coordenador executivo da Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (Matpha), diz que esse discurso colonial é usado nas redes sociais por grupos organizados, que tentam descredibilizar e apagar a história dos povos indígenas. “Eles procuram todo tipo de estereótipo para usar contra a gente. Até pelo simples fato de a gente usar roupa, isso já é usado para afirmarem que somos menos indígenas. A gente sofre muito com essas questões preconceituosas. Já me disseram que não sou indígena, porque tenho barba. Eles tentam descredibilizar a gente”, disse Rwui. 

Ruwi fez parte do projeto “Combate à desinformação sobre a Amazônia Legal e seus defensores”,  que registrou, mapeou e analisou mentiras propagadas na Amazônia e sobre a Amazônia, principalmente aquelas disseminadas durante o período eleitoral de 2022. O projeto é realizado pelo coletivo Intervozes que, desde 2003, desenvolve um trabalho voltado ao acesso à informação e pelo direito à liberdade de expressão no Brasil, e reúne coletivos dos estados da Amazônia e fora dela, como o Instituto Mapinguari, Abaré, Sleeping Giants, Instituto Vero, Matpha, Co-Jovem, Jovens Tapajônicos, Casa Ninja Amazônia. O grupo percebeu que os mitos contra os indígenas tentavam ironizar, descredibilizar e encontrar estereótipos sobre essa população. 

Alguns comentários encontrados nas redes sociais usavam termos como “tribos armadas”, “povo perigoso”, “índios armados com arco e flecha”, “índios baderneiros”. Essa é a mesma narrativa encontrada nos relatos dos invasores que nos séculos passados entraram no território amazônico e passaram a impor suas normas aos indígenas. Um discurso que continua a reverberar de diferentes formas nas redes sociais. 

Ramon Vellasco / InfoAmazonia
Indígenas são vítimas de narrativas mentirosas que negam a identidade ancestral desta população.

O povo Manchineri vive na região sul do estado do Acre, na Terra Indígena (TI) Mamoadate e na TI Manchineri do Seringal Guanabara. Rwui, é filho de Toya Manchineri, liderança indígena do Acre e atual coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). 

Rwui explica que, as consequências dessas mentiras ultrapassam as telas e a linguagem e impactam a força da identidade e da luta indígena, impedindo o reconhecimento e as necessidades deles. “Essas narrativas são criadas para diminuir o nosso direito. A gente tem um propósito de vida que é defender nossos territórios e esses discursos enfraquecem a nossa identidade e nosso pertencimento. Isso vai fragilizar a nossa luta, o nosso movimento para demarcação de nossas terras e precisamos estar fortes para fazer pressão aos governos”, explica. 

Campanha do Instituto Socioambiental (ISA) para desmistificar a ideia de que os indígenas pararam no tempo.

As consequências da desinformação

O jornalista  Guilherme Guerreiro Neto, doutorando em Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), afirma que os discursos sobre a Amazônia trazem impacto direto às suas populações, e não se limitam a postagens e comentários em sites e redes sociais. 

“A gente tem um histórico de um discurso construído. Um tipo de desinformação sobre a Amazônia que tem um lastro e que não é de agora, e isso vai para além do discurso, porque ele não tá só no que é dito, ele tá nas práticas políticas, nas práticas econômicas, nas práticas do modo como empresas multinacionais, como certos empreendimentos logísticos, são implantados na região de forma absolutamente arbitrária, sem consulta muitas vezes. Então, essa construção do imaginário do discurso referenda práticas racistas e de destruição da Amazônia”, afirma. 

A jornalista Viviane Tavares, coordenadora executiva do Intervozes, explica que, analisando os registros feitos pelo projeto  “Combate à desinformação sobre a Amazônia Legal e seus defensores”, fica evidente a existência de grupos que espalham narrativas prontas e falsas sobre a Amazônia, muitas vezes com relações diretas a políticos ou candidatos, como ocorreu nas eleições de 2022. 

O Intervozes mapeou 70 perfis e páginas considerados difusores desinformativos, ou seja, que publicam desinformações e conseguem ter alcance. Eles foram classificados em três categorias: movimentos sociais de direita, figuras públicas de representação política e canais ou empresas jornalísticas.

“Existe uma indústria de financiamento da desinformação que tem envolvimento de recurso público, com financiamentos das próprias prefeituras de vários municípios, em que vemos políticos envolvidos. Sites em que no seu corpo de trabalho tem um assessor parlamentar. Isso nós precisamos denunciar”, alerta Tavares. 

O relatório do mapeamento foi entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o período eleitoral, para ajudar no combate à desinformação, e deve ser entregue aos Ministérios Públicos Estaduais dos estados da Amazônia Legal e ao Ministério Público Federal (MPF). 

“Mamata das ONGs”

O cenário da desinformação na Amazônia atinge, principalmente, os grupos que desenvolvem projetos em favor da conservação da floresta e seus povos. Indígenas, pesquisadores, ambientalistas e ativistas da pauta ambiental são os alvos preferenciais dessa rede de desinformação, que usa discursos pejorativos na tentativa de descredibilizá-los. 

O relatório inclui algumas manchetes encontradas em sites: “Mamata das ONGs e compra irregular de terras na Amazônia serão alvos de CPI”. O termo “mamata” faz insinuações de que as organizações tenham recebido irregularmente quantidades exorbitantes de dinheiro público, o que não foi comprovado pelos pesquisadores do projeto. 

A jornalista Thaís Lazzeri é fundadora da produtora Fala, que junto com a InfoAmazonia desenvolve o projeto “Mentira Tem Preço”. Lazzeri coordena o projeto e, há três anos, registra, monitora, checa e denuncia mentiras socioambientais. Em sua análise, ela identificou três características das mentiras contadas sobre as ONGs: os conteúdos não mencionam ou acusam nomes de organizações específicas, costumam associar as organizações com casos de corrupção sem provas e criam teorias do envolvimento dessas organizações com outros países. 

Renan Olivetti / Greenpeace Brasil
Organizações não governamentais que atuam em defesa da Amazônia também são alvo de desinformação.

“Você tem uma mensagem sendo reverberada no Brasil há muito tempo e isso é um problema grande, porque você não tem como combater essa desinformação da mesma maneira. Estamos falando de canais com centenas de milhares de seguidores e vídeos que alcançam centenas de milhares de views e que seguem no ar”, alerta Lazzeri. 

Lazzeri explica que os ataques às organizações estão dentro de um discurso sobre a soberania nacional, muito usado durante a ditadura militar no Brasil. “O discurso, carregado de desinformação, coloca a Amazônia como um território em risco, que estaria sendo invadida por estrangeiros. O que também nunca foi confirmado”, explica

Em 1983, o regime militar criou a Lei de Segurança Nacional (LSN), que punia o cidadão que supostamente colocava em perigo “a integridade territorial e a soberania nacional”, “o regime representativo e democrático” e “a Federação e o Estado de Direito e a pessoa dos chefes dos Poderes da União”. Esses conceitos criados como sendo criminosos foram aplicados também no território amazônico. Nos últimos anos, a lei voltou a ser usada e, dessa vez, contra opositores do governo de Jair Bolsonaro (PL). Em 2021, ela foi revogada e extinta. 

“Dentro dessa teoria de tomada da Amazônia isso aconteceria por meio das organizações. Sempre que tem, por exemplo, uma viagem internacional do presidente esse risco é retomado dentro das mentiras. Eles atrelam o noticiário atual à essa desinformação, sem prova alguma relacionada à idoneidade das organizações, supondo essa ideia de que as organizações são um risco”, explica Lazzeri.  

Preservação e desmatamento 

O cenário da desinformação mostra que há objetivos específicos no uso  desses discursos de forma organizada e financiada. Em muitos casos, veículos que se mostram como jornalísticos são usados por agentes políticos que defendem interesses particulares em territórios, e que mantêm relações indevidas com o agronegócio, mineradoras, madeireiros e garimpeiros.

“A gente percebe que um alimenta o outro de desinformação, às vezes um político usa matérias publicadas em alguns desses sites para compartilhar um conteúdo desinformando, que depois também são compartilhadas nesses grupos de bolsonaristas, eles se retroalimentam”, explica Viviane Tavares, do Intervozes.  

Os dados de desmatamento foram alvo dessas desinformações durante o período eleitoral, como mostra o relatório Amazônia Livre de Fakes, que será lançado pelo projeto “Combate à desinformação sobre a Amazônia Legal e seus defensores”. Com números distorcidos e a falsa impressão de que a Amazônia foi preservada nos últimos anos, algumas das publicações encontradas trazem títulos como: “O mês de janeiro apresentou a menor área de alertas de desmatamento na Amazônia Legal dos últimos quatro anos”; “Brasil: o país que mais conserva o meio ambiente”; “Governo Bolsonaro anuncia redução de desmatamento na Amazônia”; “Bolsonaro denuncia ‘campanha maldosa’ contra Amazônia”. 

Arquivo / Agência Brasil
Desmatamento na Amazônia cresceu 7% em fevereiro de 2023.

As publicações também foram checadas pela equipe do Intervozes. “Dados sobre desmatamentos ou queimadas da floresta amazônica foram transformados em números descontextualizados ou manipulados para relacionar atividades econômicas com conservação ou garimpo ilegal com preservação ambiental”, diz o relatório do Intervozes.

A jornalista Thaís Lazzeri afirma que os mitos propagados nas mídias com caráter jornalístico servem para produzir conteúdo favorável aos governos alinhados com a pauta antiambinetal. “A gente está falando de informações que não são checadas, que não possuem provas e que vão chegar para as pessoas e provocar um impacto nelas. São veículos reproduzindo desinformação e quando a gente entra em contato para pedir explicações desses veículos, eles dizem estar de acordo com o projeto de governo e que usam o espaço para reverberar qualquer notícia favorável ao governo. Fazer jornalismo não é isso. O trabalho do jornalista é fiscalizar e questionar o tempo todo”, explica Thaís Lazzeri.

O papel das mídias na Amazônia

Para o jornalista Guilherme Guerreiro Neto, as mídias jornalísticas têm importante papel na construção de narrativas que sejam verdadeiras, em espaços de informações seguras aos cidadãos. “A mídia tem um papel muito importante na disseminação e na reverberação desse tipo de curso. Isso tem a ver com uma concentração de mídia que faz com que certos grupos ligados a ideias mais conservadoras e aos poderes econômicos locais, tenham uma força maior. Seja como anunciante, seja como fonte mesmo”, diz. 

Em outubro de 2022, a Rede Cidadã InfoAmazonia iniciou um mapeamento de mídias que fazem cobertura socioambiental na Amazônia brasileira. O Mapa Vivo de Mídias da Amazônia registrou 282 mídias, que em 2021 fizeram cobertura socioambiental. Desse número, apenas 20% têm editoria voltada para a Amazônia ou meio ambiente. O Amazonas é o estado com o maior número de mídias mapeadas e Roraima é o estado com menos mídias encontradas. 

/ Rede Cidadã InfoAmazonia
Mapa Vivo de Mídias da Amazônia registra veículos socioambientais dos estados da Amazônia Legal.

O mapeamento mostra que também foram encontradas editorias voltadas para o agronegócio. Uma concentração maior está no Mato Grosso, onde 51% das mídias têm seções específicas voltadas para pautas desse setor. Nos nove estados da Amazônia Legal, 17% apresentam espaço setorizado para o agronegócio. 

O jornalista afirma que é necessário fazer um novo jornalismo, que não reproduza a lógica de pessoa brancas. “A mídia tenta ouvir os povos tradicionais, mas traduz para a sua própria lógica, que é a lógica do capitalismo, a lógica da modernidade. Seria muito importante que a gente exercitasse uma espécie de uma escuta de outros mundos, mas sem tentar traduzir para o modo de vida hegemônico”, diz.  

A Rede Cidadã InfoAmazonia desenvolve reportagens e tem um podcast voltado para ressaltar o trabalho de mídias que pautam a agenda ambiental e estão produzindo conteúdos independentes, críticos e analíticos sobre a Amazônia e seus povos. 

São elas: Tapajós de Fato, de Santarém, no Pará; site O Vocativo, de Manaus, no Amazonas; Agência Experimental de Jornalismo, do Macapá, no Amapá; Agência Tambor, de São Luís, no Maranhão; e a Carta Amazônia, de Belém, no Pará. os leitores podem acompanhar a cobertura desses veículos que incluem a defesa dos direitos humanos dos povos da Amazônia Legal. 


Esta reportagem faz parte do projeto Rede Cidadã InfoAmazonia, iniciativa para criar e distribuir conteúdos socioambientais produzidos na Amazônia. A reportagem de Jullie Pereira foi realizada em parceria com Report4theworld, iniciativa da Groundtruth.

Sobre o autor
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Jullie Pereira

Repórter da InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Nasceu e mora em Manaus, no Amazonas,...

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