Entre especulações e promessas eleitoreiras, garimpeiros cooperados aguardam pelo presidente no, hoje fechado, maior garimpo a céu aberto do mundo, alimentando a esperança de colocar em prática o que chamam de “Plano A”: venda da mina e distribuição dos recursos indenizatórios.

Os garimpeiros de Serra Pelada voltaram a sonhar com o ouro da mítica mina após novas promessas de que o presidente Jair Bolsonaro (PL) deve liberar recursos milionários retidos na década de 1980 e viabilizar a retomada da mineração no local.

A promessa que cria a expectativa de render milhões de reais aos mais de 40 mil associados da Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) provocou uma nova marcha até Curionópolis, no Pará, e ganhou tom de campanha eleitoral para a reeleição do presidente.

Em áudios, associados da Coomigasp estão entusiasmados com a possibilidade de vender Serra Pelada

Nos dias 16 e 17 de julho, milhares de garimpeiros voltaram ao antigo galpão de Serra Pelada para aprovarem o que chamaram de “Plano A”: venda da mina e distribuição dos recursos indenizatórios em partes iguais.

Em maio, a diretoria da cooperativa se reuniu com o senador Flávio Bolsonaro (PL), em Brasília, que teria imposto condições para atender os pedidos dos garimpeiros. Uma das exigências seria “fazer uma limpa” na diretoria. A outra, apresentar uma lista de associados aptos a participarem da divisão dos recursos, tanto dos possíveis valores retidos pela Caixa nos tempos de operação do garimpo como na divisão de uma eventual venda da mina.

A informação disseminada pela cooperativa é de que Bolsonaro fará um anúncio aos garimpeiros pessoalmente em Serra Pelada antes das eleições, num palanque que deve também impulsionar a candidatura  da presidente da Coomigasp, Deuzita Rodrigues, a deputada federal.

O grupo de Deuzita Rodrigues mantém contatos com Bolsonaro desde 2018, quando ele ainda era deputado federal e candidato à presidência. De lá pra cá, o grupo assumiu a diretoria da cooperativa de forma indireta, destituindo os antigos diretores, sob  a promessa de reativar Serra Pelada e vender os direitos minerários de exploração. 

O grupo de Deuzita também afirma estar intermediando conversas para liberar os valores retidos pela Caixa, que era a única compradora do ouro de Serra Pelada, e que ficava com parte do minério para futuros investimentos em infraestrutura básica na área do garimpo, o que nunca aconteceu. Estima-se que o volume do ouro retido pelo banco público gire em torno de 900 quilos – de acordo com a cotação atual, cerca de 268 bilhões de reais.

Rudi Böhm/Flickr Mídia Ninja

Na assembleia de julho, os cooperados de Serra Pelada cumpriram com sua parte do acordo firmado em Brasília com Flávio Bolsonaro. Por meio de votação aprovaram a exclusão dos “membros indesejados” da diretoria com da Coomigasp, alteraram o estatuto, permitindo o ingresso dos herdeiros de ex-garimpeiros no quadro social —o que deve aumentar consideravelmente o número de associados— e fecharam uma lista de sócios ativos e em dia.

“Uma das exigências era de que organizássemos a casa e fechássemos a lista de quem seria beneficiado. Agora tudo isso será levado a Brasília”, afirmou um dos novos diretores, logo após ser empossado. 

Com essas novas regras, a diretoria afirma que os ex-garimpeiros que não pagaram as mensalidades ficarão de fora de uma eventual divisão dos recursos.

Além de renovar as esperanças dos velhos garimpeiros e herdeiros, o evento também demarcou o apoio maciço dos garimpeiros de Serra Pelada ao presidente Jair Bolsonaro.

Apoio de Brasília

Deuzita Rodrigues é a primeira mulher na história a comandar a cooperativa de Serra Pelada. Casada com um ex-garimpeiro, ela chegou ao comando da associação em setembro de 2021.

Em suas articulações para destituir a antiga diretoria, Deuzita anunciava ter apoio de Brasília para tocar as reivindicações dos antigos garimpeiros, que aguardam há mais de 30 anos por uma solução sobre os valores retidos e para uma destinação da mina.Um dos principais cabos eleitorais de Deuzita Rodrigues foi Jonas Claudius de Oliveira, que já representou o grupo em encontros oficiais com o presidente. Em 2019, ainda antes dela assumir a cooperativa, Claudius liderou a ida de garimpeiros até Brasília para um encontro com Bolsonaro. Aos garimpeiros, o presidente prometeu a reativação de Serra Pelada e disse que, se preciso, convocaria as Forças Armadas para assegurar as operações no local.

Divulgação/Presidência
Jonas Claudius de Oliveira (camisa cinza) em encontro com Bolsonaro em 2019. Associado da Comigasp, Claudius intermediou contatos da atual diretoria com Brasília

Filiada ao Patriotas, a nova líder dos garimpeiros também anunciou sua pré-candidatura à deputada federal, que terá como bandeira a causa dos garimpeiros.

Jonas Claudius

“Se ele liberar o nosso dinheiro, tem meu voto”

Articulada por Jonas Claudius e demais apoiadores de Deuzita Rodrigues, como o cantor e apresentador Danilo Lima, que usa o codinome “Botando pra Moer” e também pré-candidato a deputado federal pelo PROS nas eleições deste ano, a mobilização dos garimpeiros de Serra Pelada é feita nas redes sociais. 

O espaço que aproxima os ex-garimpeiros de Serra Pelada em diversas regiões do país pela internet também alinha discursos e posicionamentos. 

Nos grupos de WhatsApp, entre avisos regimentais sobre a associação, propagandas políticas de apoio a Bolsonaro reforçam a ideia de que somente através do presidente os garimpeiros poderiam colocar em prática o chamado “Plano A” e terem direito aos recursos na Caixa e da possível venda da mina.

E de forma sistemática, como ocorre em outros grupos de apoio ao presidente, os canais também reafirmam as pautas presidenciais e disseminam discursos sobre urnas eletrônicas e ministros do STF.

Sobre os compromissos com a reabertura de Serra Pelada “Promessa não resolve nosso problema. Se não sair [o plano A] não voto nele não”, replicou um ex-garimpeiro em um dos grupos. A mensagem foi seguida por outras tantas na mesma linha, com manifestações de votos em Bolsonaro apenas caso ele atenda as demandas de Serra Pelada.

Promessa não resolve nosso problema. Se não sair [o plano A] não voto nele não

Associado da Coomigasp em conversa de grupo de via Whatsapp

“Eu to aqui para votar e apoiar, mas só se ele liberar esse dinheiro. Se ele não liberar, não voto não”, emendou o garimpeiro reticente.

Essa não é a primeira vez que os garimpeiros de Serra Pelada tentam negociar a mina. Em 2007, a Cooperativa firmou contrato com a mineradora canadense Colossus, que chegou a instalar um escritório em Serra Pelada e fez pesquisas no local. O projeto inicial previa um investimento de R$ 320 milhões para 15 anos de exploração. Como parte do acordo, os garimpeiros ficariam com parte do lucro. 

A mineradora chegou a captar recursos na Bolsa de Toronto, no Canadá, mas o projeto Serra Pelada nunca saiu do papel. Nenhum grama de ouro saiu da mina. 

A cava aberta pelo garimpo nos anos 1980 formou um imenso lago, com 200 metros de profundidade. Especialistas apontam que a exploração industrial no local demandaria tecnologia de ponta e investimentos que tornariam a operação praticamente inviável, segundo o geólogo  Elmer Prata Salomão

Em 2014, alegando dificuldades para dar continuidade ao projeto para exploração de ouro na mina, a Colossus  fechou o capital, demitiu funcionários e abandonou Serra Pelada.

Histórico de Serra Pelada

A mina de Serra Pelada funcionou entre 1978 e 1992 e atraiu milhares de pessoas em busca do sonho do ouro. O morro, de aproximadamente 200 metros de altura, foi totalmente escavado e deu lugar à enorme cava onde os garimpeiros se enfileiravam para carregar os sacos de terra.

As cenas dos milhares de homens subindo as longas e perigosas escadas até o topo do barranco, cobertos de lama na febre do ouro, impressionam.

Considerado o maior garimpo de ouro a céu aberto do mundo, Serra Pelada já virou filme, livro, rendeu milhares de reportagens e consagrou Sebastião Salgado como o grande fotógrafo das realidades incômodas.  

A cooperativa foi criada em 1984, quando o ex-presidente militar João Figueiredo desapropriou a área de 100 hectares da mineradora Vale e doou para a recém criada associação.

Em 1992, durante o governo Fernando Collor, a mina foi fechada e a atividade manual proibida. Estima-se que mais de 100 mil homens tenham passado pelo local e retirado mais de 50 toneladas de ouro. O ano com maior volume de extração foi 1983, quando saíram de lá, oficialmente, mais de 13 toneladas do minério.

Desde o fechamento da mina, os garimpeiros  de Serra Pelada buscam reaver na Justiça os valores retidos pela Caixa. 

Como são donos da área, através da Coomigasp, eles também sonham com a reativação da mina, o que lhes permitiria vender os direitos minerários e dividir o valor entre os associados.

A maioria dos ex-garimpeiros de Serra Pelada está com idade avançada —o associado mais novo tem 58 anos— e espalhados por diversas partes do país. A assembleia realizada em meados de julho foi o maior encontro de garimpeiros no local depois de anos.

A reportagem tentou contato com a presidente da Coomigasp, Deuzita Rodrigues, mas ela não respondeu aos nossos pedidos de entrevista. Sobre a situação dos valores retidos dos garimpeiros de Serra Pelada, a Caixa diz que o caso depende de decisão judicial e que o banco “não comenta questões submetidas a ações judiciais”.

Sobre o autor

Fábio Bispo

Repórter investigativo do InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Tem foco na cobertura...

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  1. É competente, nos dias de reeleição, jogar com o que tem, promessas são vagas, os frutos de 2019 a 2022 entre associação coomigaspe e equipe presidente do pl, não há nenhuma fruto na mesa, oque temos pra tão pouco dias, mais promessas. Muitos votos ele tem pra conquistar!

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