“Não há crise na Amazônia, há sim uma ofensiva contra a nossa soberania na Amazônia. Essa é a realidade.” Contra todos os dados científicos que mostram uma escalada histórica  de desmatamento na Amazônia e  do crescimento de conflitos por terras em uma disputa de poderes desiguais,  Dom Bertrand de Orleans e Bragança, o príncipe brasileiro, vem se empenhando em uma jornada virtual e presencial, por todo o país, conhecida por poucos:  defender o direito à propriedade privada e trabalhar contra a demarcação de terras indígenas. 

Líder do movimento de restauração da monarquia no país e apoiador do governo de Jair Bolsonaro, o príncipe é um dos diretores do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO), criado em homenagem a um dos articuladores do golpe que estabeleceu a ditadura no Brasil (1964-1985). No Youtube, o IPCO integra a lista de canais que desinformam sobre questões socioambientais. 

Análise de dados do Youtube realizada pelo projeto Amazonas: mentira tem preço identificou 10 vídeos do IPCO na lista dos mais visualizados entre canais de direita desde 2019. Foram 2,4 milhões de  visualizações e o mesmo volume de interações. O levantamento, feito a pedido do projeto, foi realizado pela empresa de dados Novelo. 

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Legatário da Sociedade Brasileira de Defesa de Tradição, Família e Propriedade (TFP), tanto o IPCO, na figura de Dom Bertrand, quanto o governo trabalham pelo direito de propriedade à terra. Para poucos.

No Brasil que não superou a divisão de terras da coroa portuguesa, o maior inimigo do IPCO é um direito previsto na Constituição Brasileira e em tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário: a garantia ao direito territorial dos povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas. O que significa oposição ferrenha às demarcações de terras. 

“Desinformação tem a ver com manipulação e está lado a lado com o desenvolvimento das tecnologias de empresas, como Facebook e Twitter, para um modelo de negócios de engajamento.”

Lori Regattieri, pesquisadora SOBRE notícias falsas nas plataformas digitais

Em agosto do ano passado, quando o Supremo Tribunal Federal retomou a votação  da tese jurídica do marco temporal, que restringe a demarcação aos territórios ocupados ou reivindicados desde outubro de 1988, Dom Bertrand usou as redes do IPCO para postar uma petição virtual “em defesa do direito à propriedade”,  contra a demarcação  de terras indígenas, e um vídeo do YouTube “a respeito do marco temporal e da instrumentalização dos índios pela esquerda”, sem apresentar  provas.

Captura de Tela do site IPCO.org em 30/08/2021

Para a pesquisadora Lori Regattieri, que há dez anos investiga notícias falsas nas plataformas digitais sobre mudanças climáticas com foco na região amazônica, o IPCO segue o modus operandi da extrema direita mundial. “Há uma conexão global e uma aliança global de troca de saberes e de como operacionalizar campanhas de propaganda. Isto tem a ver com desinformação porque há anos ela é usada para propaganda de guerra e militar para persuasão. São nesses territórios que tem grande atuação de Garantia de Lei e Ordem (GLO) também. Há uma porcentagem altíssima de engajamento nos posts de Mourão, por exemplo. Desinformação tem a ver com manipulação e está lado a lado com o desenvolvimento das tecnologias de empresas, como Facebook e Twitter, para um modelo de negócios de engajamento.” 

Em paralelo ao IPCO, Dom Bertrand, que tem mais de 50 mil seguidores no Twitter, dirige o Movimento Paz no Campo, movimento de 40 anos, segundo informações do site, cujo slogan é “se você quer a paz, prepare a guerra!”. Ainda segundo informações do site, a guerra é provocada pelos “inimigos da propriedade privada.” O site oferece ao usuário a possibilidade de ser membro e lutar ao lado do movimento e ser “repórter do Paz no Campo, distribuindo matérias para a imprensa de sua cidade ou região”.

O Paz no Campo oferece ao usuário a possibilidade de ser membro e lutar ao lado do movimento e ser “repórter do Paz no Campo, distribuindo matérias para a imprensa de sua cidade ou região”. 

Em carta assinada no site, Nelson Ramos Barretto, coordenador de Paz no Campo, existem “nuvens carregadas que ameaçam o campo brasileiro: ameaça do MST, ameaça quilombola, ameaça indígena, ameaça ambientalista, ameaça dos “índices de produtividade”, além da ameaça mentirosa do “trabalho escravo” [grifo dele]. Nas redes sociais, Barreto, entre posts defendendo medicamentos sem comprovação científica contra o covid, publicou “MINISTROS DO STF, NÃO MODIFIQUEM O MARCO TEMPORAL”, uma petição do site conservador CitizenGO, que até o fechamento desta reportagem tinha 11.392 assinantes. A mensagem da campanha contra a demarcação de terras diz: “A abolição do Marco Temporal gerará extrema insegurança jurídica”.

No Youtube contra o marco temporal   

O vídeo com maior alcance no canal do IPCO é um encontro, em Roma, com Jonas Marcolino Macuxi, contrário à demarcação de terras indígenas. São mais de 1,2 mi visualizações. Marcolino é “um velho conhecido dos povos indígenas de Roraima”, afirma  Ivo Macuxi, advogado do Conselho Indígena de Roraima, por “se passar por liderança indígena do povo macuxi””, aponta o avogado. E continua: “Na verdade ele não representa nem a comunidade dele”. O CIR participa como amicus curiae do julgamento do STF sobre o marco temporal, suspenso após o pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes. “Não existe nenhum marco temporal. Isso é inconstitucional e viola os direitos indígenas e o próprio texto constitucional”, diz Ivo. 

Marcolino integra a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr), condenada na Justiça Federal, em outubro de 2021, por ataque a comunidades da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Enquanto movimentos nacionais indígenas não têm espaço no governo, a Fundação Nacional do Índio publicou, no site do governo, a íntegra de uma carta aberta da Sodiurr com críticas à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Sônia Guajajara, coordenadora executiva.

Em outro trecho do mesmo vídeo, Marcolino faz uma acusação grave contra lideranças locais, o missionário italiano Jorge Dal Bem e o líder indígena Jacir de Oliveira,  que recebeu o Prêmio Chico Mendes por seu papel no processo de demarcação da Terra Indígena (TI) Raposa Serra do Sol. “Esse Jacir já veio muitas vezes beijar o pé do papa aqui em Roma. Ele que liderou todo esse desmantelamento. Ele [padre Jorge] levou o Jacir, ficou fora com ele um tempo, depois voltou. Quando chegou de volta lá pra comunidade, em um mês mais ou menos o tuxaua morreu. Eu acho que ele matou o tuxaua pro Jacir assumir a liderança pra ele fazer o trabalho que tinha pra fazer”. Vítima de fake news, diz Ivo, Padre Jorge começou a receber ameaças. “Acusam ele de manipular os indígenas e formar uma guerrilha indígena”. 

Procurado pela reportagem, o IPCO não informou qual foi o custo do evento organizado em Roma para contrapor o sínodo da Amazônia  nem de onde vem o financiamento do Instituto. Também não respondeu sobre os vídeos citados nesta reportagem que seguem no canal. 

Investigação internacional  da Reporters Foundation com participação do portal UOL revelou que parte significativa do financiamento do Instituto provém da instituição polonesa Ordo Iuris. Segundo email interno obtido pela reportagem, desde 2004, a organização católica de extrema direita envia 500 mil euros anualmente para França e Brasil para apoiar o movimento global contra o aborto, questões de gênero, população LGBTQIA+ e difundir ideiais conservadores. 

Segundo Gizele Zanotto, historiadora e professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), o financiamento do IPCO segue a linha da antiga Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade: “Essas entidades co-irmãs ou parceiras auxiliam na venda de materiais, com doações e também, a campanha fatimista segue sendo um dos principais instrumentos de arrecadação de verbas”.

A TFP, ela diz, é o ponto de partida para a criação de uma rede de organizações de extrema direita. “A partir dessas entidades e iniciativas, bem como pela venda de materiais e doações, é que a entidade se mantém nos países onde atuou e atua”. 

Outro lado

Procurado pela reportagem, o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira não se manifestou até o momento desta publicação. A reportagem tentou reiteradas vezes contato por telefone com o Movimento Paz No Campo, mas não foi atendida. Procuramos por e-mail e telefone Dom Bertand de Orleans e Bragança, dirigente do IPCO e do Paz no Campo, e fomos informados por sua secretária que ele não se pronunciaria em razão de uma extensa agenda em Portugal. Procurada, a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr) não se manifestou até o momento desta publicação. O espaço para resposta segue aberto e, assim que recebermos um retorno, atualizaremos esta publicação.

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