A Amazônia Legal concentra 104,3 milhões de cabeças de gado, quase metade do total do Brasil; entre os setores, a agropecuária é o que mais emite metano, potente gás causador do efeito estufa, de acordo com os dados mais recentes do SEEG.

Qual é o papel da agropecuária do Brasil nas emissões de gases que causam o aquecimento global? O setor é o segundo maior responsável pelos gases emitidos no país, com 617,2 milhões de toneladas de CO2e: É a medida que expressa a quantidade de gases de efeito estufa em termos equivalentes da quantidade de dióxido de carbono. liberadas em 2022, segundo os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), calculado anualmente pelo Observatório do Clima (OC) e outras cinco organizações. 

No Mato Grosso e no Pará, somente o setor da agropecuária emitiu 145,5 milhões de toneladas de CO2e (cerca de 25% do total do país). Segundo Gabriel Quintana, analista do Imaflora, “2021 e 2022 são os anos recordes das emissões do setor agropecuário. O ano de 2022 foi o maior até então, com 617 milhões de toneladas [de gases do efeito estufa] emitidas no país. Grande parte delas são de fermentação entérica da produção animal, seguido pelo manejo do solo. Esses dois subsetores já contabilizam quase a totalidade do setor”. 

2021 e 2022 são os anos recordes das emissões do setor agropecuário. O ano de 2022 foi o maior até então, com 617 milhões de toneladas [de gases do efeito estufa] emitidas no país. Grande parte delas são de fermentação entérica da produção animal, seguido pelo manejo do solo.

Gabriel Quintana, analista do Imaflora

Como explica Quintana, a relação entre o gado e as emissões está ligada à chamada “fermentação entérica”, que é a produção natural dos gases durante a digestão dos alimentos pelos animais. Após a ingestão, a comida se dirige para o rúmen, no aparelho digestivo dos bovinos. A partir daí, os microrganismos iniciam a decomposição das celuloses presentes nos alimentos, começando o processo de fermentação, que resulta na produção de metano. Esses gases são liberados e lançados na atmosfera por meio dos arrotos e “puns” do boi.

Fato é que, atualmente, o Brasil tem 234 milhões de cabeças de gado nesse processo, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compilados até 2022. A Amazônia Legal concentra 44,5% desse total, com 104,3 milhões de cabeças. Dentre essas, 34 milhões estão no Mato Grosso, 24 milhões no Pará e 17 milhões em Rondônia. No Tocantins, onde a agropecuária responde por 37% do total de emissões, o rebanho alcança a marca de 10,7 milhões de cabeças, um número significativamente superior à população, que, de acordo com o último Censo, é de 1,5 milhões de habitantes.

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O número de animais continua crescendo: entre 2020 e 2022, o Brasil viu um aumento de 16 milhões de cabeças de gado, saindo de 217,8 milhões para 234,3 milhões. “Só no ano passado [2022], tivemos um aumento de 10 milhões e muito motivado pela retenção das fêmeas no campo, com o bezerro valendo mais. Retendo as fêmeas, o rebanho aumenta, o que significa mais emissões intrínsecas aos animais”, explica Quintana. 

Os municípios com mais cabeças de gado no país também estão na Amazônia: São Félix do Xingu (PA); Porto Velho (RO); Novo Repartimento (PA); Marabá (PA) e Cáceres (MT). Juntos, eles têm 8 milhões de bovinos. São Félix do Xingu, o primeiro em cabeças de gado no país todo, é também o segundo município com mais emissões de gases do efeito estufa do Brasil – incluindo metano e carbono. Foram 34,1 milhões de toneladas de CO2e emitidas em 2022. O primeiro município é Altamira (PA), com 37,9 milhões de toneladas; Porto Velho é o terceiro, com 28,3 milhões de toneladas. 

O papel no desmatamento

Os dados do SEEG são divididos em 5 macrossetores que emitem gases do efeito estufa no país: mudanças de uso da terra, agropecuária, energia, resíduos e processos industriais. As mudanças do uso da terra estão diretamente relacionadas ao desmatamento e ocupam o primeiro lugar nos dados, com 1,1 bilhão de toneladas de CO2e. 

Já os índices relacionados à agropecuária derivam da criação de gado, do manejo do solo e dejetos animais, queima de resíduos agrícolas e cultivo de arroz. Os dois setores estão constantemente associados, porque para a criação de gado são exigidos quilometros e quilometros de pastagem, o que traz desmatamento. 

“São dados naturalmente acoplados, porque a maior parte das mudanças de uso da terra está indo em direção à substituição da vegetação nativa para pastagem. A gente acaba vendo uma parcela da emissão [do país] relacionada à criação de gado, mas existem coisas que podem acontecer ali numa fazenda de gado que podem reduzir esses dados [de desmatamento]”, explica Bárbara Zimbre, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), responsável pelos dados de uso da terra no SEEG. 

São dados naturalmente acoplados, porque a maior parte das mudanças de uso da terra está indo em direção à substituição da vegetação nativa para pastagem.

Bárbara Zimbre, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam)
No Brasil, emissões por uso do solo tiveram queda em 2022, mas de agropecuária cresceu Foto: Pedro Guerreiro/ Agência Pará

Em 2021, pesquisadores do Universidade Federal do Pará (UFPA) publicaram o estudo “Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia”, mostrando que a criação de gado é a atividade de maior impacto na Amazônia. “A pecuária bovina está fortemente associada com o desmatamento da Amazônia, sendo sua causa imediata mais importante. O crescimento da agricultura de larga escala, em vez de reduzir, amplia o impacto da pecuária sobre o desmatamento”, diz o estudo. 

O climatologista Alexandre Costa, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), explica que os dois setores de mudança no uso do solo e agropecuária se associam a partir da prática do desmatamento. “Sem haver desmatamento, a princípio a agricultura deveria ser neutra. Porque o carbono retirado da atmosfera vira fotossíntese e devolvido vira respiração. Mas, no caso da criação de gado, o que temos é a fermentação entérica, que produz metano”, diz Costa. 

O professor lembra que o metano se comporta de uma forma diferente do carbono, quando entra em contato com a atmosfera. Isso porque uma unidade de metano equivale a cerca de 20 unidades de CO2 em capacidade de aquecimento. “Ele é um gás de vida bem mais curto, uma molécula de metano permanece poucos anos até ser oxidada naturalmente. Já o CO2 leva séculos para ser oxidado. Só que o metano, justamente pela pequena abundância, consegue absorver a radiação infravermelha: Os gases metano e carbônico absorvem radiação infravermelha. Isso impede que a radiação vá para o espaço, o que causa o aquecimento da superfície. numa faixa muito maior”, explica.

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Brasil pode mais

O setor agropecuário discute práticas para tornar a criação de gado mais sustentável e com isso reduzir os dados de emissões. São estimulados, por exemplo, o uso de suplementos alimentares, plantação de leguminosas nas pastagens e a permanência de plantas forrageiras. 

Desde 2019, o Ministério Público Federal (MPF) tem um projeto chamado “Boi na Linha”, que visa promover relatórios, auditorias e monitoramento da cadeia bovina no Brasil. Os resultados do projeto, feito em parceria com o Imaflora, apontam para uma cadeia que ainda é composta por práticas de desmate, trabalho escravo e invasão de terras públicas. 

Apesar de iniciativas pontuais do setor agropecuário, o foco para redução das emissões está mesmo no setor de mudança do uso do solo. Os analistas do Observatório do Clima apostam na redução do desmatamento para conter as emissões. No relatório, publicado em 2023, eles dizem que o Brasil pode dobrar suas ambições para a NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) se o desmatamento cair. 

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A meta até 2025 é reduzir as emissões totais de gases brasileiras, incluindo os 5 setores, para 1,3 bilhão de toneladas de CO2e e, para 2030, reduzir até 1,2 bilhões toneladas. Neste ano, a queda foi de 8%, saindo de 2,5 bilhões de toneladas de CO2e em 2021 para 2,3 bilhões de toneladas. 

“Para 2025 a meta é um pouco mais difícil, mas já fizemos isso antes. Vimos grande queda de desmatamento de 2004 até 2010 e foi feita por política pública e por comando e controle. Ou seja, conhecimento temos e o governo está anunciando que está fazendo sua parte. Para 2030, temos ainda mais tempo. Se zerar o desmatamento, a gente chega até metade das emissões. Estamos otimistas”, disse Bárbara Zimbres. 

A especialista também cita o novo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), que se estrutura em quatro eixos para conter o avanço do desmatamento entre 2023 e 2027: atividades produtivas sustentáveis, monitoramento e controle ambiental, ordenamento territorial e fundiário e instrumentos normativos e econômicos. As atividades produtivas sustentáveis dizem respeito justamente às práticas agropecuárias. 

Entre 2004 e 2012, o PPCDAm foi responsável pela queda histórica de 83% do desmatamento na região. “Ele já foi bem sucedido no passado e não tem porque não acreditar que ele não vai dar certo agora. Além disso, temos uma novidade que é o PPCerrado. Geralmente a gente vê o casamento entre a queda do desmatamento da Amazônia e aumento no Cerrado, mas agora com as duas coisas sendo feitas ao mesmo tempo nós temos um cenário bastante promissor. Precisamos continuar cobrando, fazendo pressão para que isso saia do papel”, diz Bárbara Zimbres. 

Sobre o autor
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Jullie Pereira

Repórter da InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Nasceu e mora em Manaus, no Amazonas,...

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