Em entrevista ao InfoAmazonia, o cacique da aldeia Sawré Muybu, Juarez Saw Munduruku, fala das ameaças de morte que sofre na região e analisa a importância da autodemarcação do território diante do avanço do garimpo na região

Quando o cacique Juarez Saw Munduruku nasceu, no início dos anos 1960 na região do alto Tapajós, a maior parte dos Munduruku não viviam em aldeias, e sim espalhados, transitando pelo território. Alguns trabalhavam como seringueiros e então trocavam a lida na borracha por café, açúcar ou sal. “A gente nunca tinha visto dinheiro”, lembra. 

Na sua juventude, nos anos 1980, Juarez se mudou para a região do médio Tapajós, no município de Itaituba, para onde parte de sua família já havia migrado, e após 22 anos morando em Pimental, distrito ribeirinho de Itaituba, decidiu fundar sua própria aldeia, também no médio Tapajós, nomeando-a a partir do seu próprio nome indígena: Sawré Muybu.

Julia Dolce/InfoAmazonia

Nos últimos 20 anos, o território estabelecido pelo cacique atraiu outras famílias Munduruku, e hoje quatro aldeias formam a Terra Indígena Sawré Muybu. A partir de 2014, os moradores do território deram início a um processo inédito para a região, a autodemarcação de suas terras. “A gente sabe que a terra é nossa, se formos esperar o governo demarcar vai demorar muito”, resume o cacique.

O principal objetivo da autodemarcação da Sawré Muybu, segundo Juarez, é tentar frear o avanço de crimes ambientais no território, palco da invasão de madeireiros e garimpeiros. Oficialmente, a Sawré Muybu já teve a primeira fase de demarcação concluída pela Fundação Nacional do Índio (Funai) em 2016, mas o processo de homologação encontra-se paralisado desde então.  

O cacique explica que a autodemarcação acabou impactando no fortalecimento da organização do povo Munduruku, que nos últimos anos vem se tornando uma referência de resistência contra atividades predatórias. “Agora escutam mais os Munduruku que andam para fora, isso traz muitas conversas novas”, afirma.

Confira a entrevista:

InfoAmazonia: Como surgiu a ideia de fazer a autodemarcação da Sawré Muybu?
No início da autodemarcação da Sawré Muybu, as terras indígenas do alto Tapajós já eram demarcadas, mas ainda não tinham sido homologadas. Lá, foram 40 anos de luta para homologar e quando eu saí eles tinham acabado de começar a demarcação, então eu cheguei a ajudar a fazer o trabalho. Por isso que eu já tinha um pouco de experiência, eu era bem jovem, mas já tinha aquela base de experiência. 

Hoje vários povos se inspiram nessa autodemarcação, né?
Sim, eu acho que foi algo que saiu da nossa ideia para ajudar os outros também. E ajudou muito. Todo mundo quer fazer a autodemarcação agora. Porque a gente sabe que a terra é nossa, todo mundo entendeu que a terra é nossa. Se a gente for esperar o governo demarcar vai demorar muito. Então se a gente quer preservar nossa terra, temos que demarcar. 

Se a gente for esperar o governo demarcar vai demorar muito. Então se a gente quer preservar nossa terra, temos que demarcar. 

O que muda com a autodemarcação?
Não é oficial, mas nós somos donos da terra. A gente sabe que a terra é nossa. Fortalece nossa organização. Se nós dizemos que a terra é nossa, quem está errado é quem diz que a terra não é, porque a gente já vivia aqui antes de os brancos chegarem, os portugueses. Eles que fizeram errado, criaram tantos estados e hoje para demarcar uma terra, uma coisa tão pequena, o governo bota tanta dificuldade.

Foi muita luta e foi muito sofrido autodemarcar, mas a gente faz isso para mostrar para o não-indígena que a gente não quer só preservar para a gente, mas para todos. O desmatamento prejudica o planeta todo e a gente está tentando evitar isso, mas o branco só pensa em destruir. Por isso a gente fez a autodemarcação, para evitar que eles não entrem. 

Depois que vocês autodemarcaram ficou mais difícil de os invasores entrarem ou eles não respeitam?
Não respeitam, eles entram no território, principalmente onde é mais longe das aldeias. Os garimpeiros também já subiram aqui na aldeia pedindo para garimpar. Eles sabem que não pode. Essa autodemarcação deveria ser para eles respeitarem, garimpeiros e madeireiros, mas eles não respeitam. Isso deixa a gente revoltado. Se eu estou dentro do meu território, eu não vou mexer na terra alheia, tenho que respeitar. Se eu tenho uma casa do lado da casa do meu vizinho, não vou pular o muro e roubar as coisas dele. Eu devo mexer só onde é meu. Mas o branco não pensa nisso.

Mesmo denunciando para os órgãos ambientais, a gente não sabe se vão reagir. Acaba sendo mais perigoso aqui, porque  quando eles ficam sabendo que o pessoal está indo fazer operação no Jamanxim eles vem para cá e escondem as dragas tudinho. 

A gente deixa eles aqui, porque eu já fui muito ameaçado por esses garimpeiros, madeireiros. Os caras andam querendo me matar onde eu vou.  Ninguém sabe o inimigo que está esperando a gente, então eu parei de denunciar. Indiretamente a gente ainda denuncia, só que menos. 

Eu já fui muito ameaçado por esses garimpeiros, madeireiros. Os caras andam querendo me matar onde eu vou.  Ninguém sabe o inimigo que está esperando a gente

Mas as lideranças Munduruku vem se tornando referência nessa resistência contra o garimpo. Como o senhor enxerga esse fenômeno, o grito de vocês está sendo ouvido?
Acho que agora escutam mais os Munduruku que andam para fora. Recentemente teve o Acampamento Terra Livre e trouxeram muitas conversas novas. Isso é repassado para as lideranças que não foram e todos estão entendendo que se esse PL [Projeto de Lei 191/20, que autoriza mineração em terras indígenas] passar não vai ser bom. 

Na minha visão, a maioria dos Munduruku são contra, mas a minoria usa o nome dos outros e vai ganhando força. Garimpo tem em todos os lugares, mas aqui no médio Tapajós quase não tem Mundurukus envolvidos. São mais os brancos. Para lá não, o branco entrou, acostumou o indígena, e estão fazendo a cabeça dos indígenas. Pegaram muito ouro mas não fizeram nada para as aldeias. Tem muita violência, bebida, droga. 

“Eu não vi nenhum avanço na vida dos indígenas que entraram para o garimpo. Só criou problemas, criou doenças, criou divisão

Eu não vi nenhum avanço na vida dos indígenas que entraram para o garimpo. Só criou problemas, criou doenças, criou divisão. Ninguém ouve o outro mais. Eles são empregados dentro de seu próprio território. Os caras vêm de fora, botam os maquinários e os caras trabalham para eles. Quem pega o ouro são os donos da máquina, só ficam com mixaria. 

Os primeiros garimpeiros chegaram lá no alto Tapajós dizendo serem pastores, via igreja, e convencendo eles a trabalhar no garimpo. Depois foram convencendo os indígenas a entrar no garimpo com cestas básicas. Começaram a oferecer ajuda.  

Eu já vi alguns garimpeiros enriquecerem, mas acho que isso acontece mais com dono de empresa, dono de loja de escavadeira,   dono de loja de ouro. Os pequenos mesmo nunca vi. Daqui até Jacareacanga, as pessoas trabalham só com atividade de garimpo. Tem um pessoal aqui para cima, ribeirinhos, que estão há anos trabalhando com garimpo e a casa deles é muito simples, de palha. 

Julia Dolce/InfoAmazonia
Garimpo ilegal no rio Tapajós

As pessoas têm que colocar na cabeça que não é só o ouro que dá dinheiro. Eu aprendi assim, acho que o dinheiro do ouro não é abençoado. É um dinheiro amaldiçoado. O cara pega R$100 mil e no dia seguinte já não está com esse dinheiro. 

O garimpo nessa região é forte há pelo menos quatro décadas. O que o senhor acha que mudou no garimpo nos últimos anos? 
Antigamente eles trabalhavam com máquinas pequenas. Hoje em dia trabalham com máquinas pesadas e poluem mais a água. Antigamente a própria pessoa descia lá no fundo e ia fazendo buracos. Hoje em dia é uma draga que faz um buracão imenso no fundo, porque estão manuseando em cima e ela está puxando terra lá embaixo. Isso polui a água com diesel e mexe mais no mercúrio que está concentrado no solo do rio. 

Hoje em dia trabalham com máquinas pesadas e poluem mais a água. Antigamente a própria pessoa descia lá no fundo e ia fazendo buracos. Hoje em dia é uma draga que faz um buracão imenso no fundo

Como foi para o senhor, como cacique, receber os resultados da pesquisa da Fiocruz que indica altos níveis de mercúrio no organismo dos Munduruku?
Minha preocupação maior é com a juventude. Eles são o futuro, essa geração de crianças. Acho que não vai dar para eles comerem esse tipo de peixe contaminado. Porque daqui a um tempo todo mundo estará doente e pelo jeito que estamos vendo agora, o governo querendo aprovar essa lei para colocar mineração dentro das terras indígenas, vão jogar mais metal pesado. Essa é a minha visão. Eu luto não por mim, mas pelo futuro. Para não chegar a esse ponto. Porque a gente sabe que se a pessoa chegar a adoecer com mercúrio, a gente sabe que não tem cura. 

Leonardo Milano/InfoAmazonia

Quando essa doença ataca as pessoas elas começam a ter fraqueza nas pernas, esquecimento, fazer as coisas e não se lembrar. A gente não quer isso para as crianças. Acho que isso não são só os indígenas. A gente sabe que o pessoal usa a região do Tapajós para a atividade do garimpo. A gente sabe que o mercúrio quando cai aqui não fica só aqui, ele desce todo o rio. 

Sobre o autor

Julia Dolce

Repórter e fotógrafa do InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Atua na cobertura socioambiental...

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