Entrevista com Aldira Akai, uma das ativistas comunicadoras do coletivo de mulheres Munduruku Daje Kapap Eypi, que utiliza o audiovisual na luta pela demarcação de sua terra e na denúncia de crimes ambientais.

Foi em 2014, durante a primeira fase de autodemarcação do território indígena munduruku Daje Kapap Eypi, também conhecido como Sawré Muybu, que alguns jovens indígenas tiveram contato com uma câmera fotográfica profissional pela primeira vez. Na época, guerreiros Munduruku adentravam o mato e andavam quilômetros para se antecipar à morosidade do Estado e, por conta própria, delimitar seu território.

Em 2006, os Munduruku entraram formalmente com o pedido de demarcação de seu território na Funai, mas a primeira fase do processo, o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Sawré Muybu, foi assinado pelo órgão apenas dez anos depois. Desde então, o processo segue parado. Diante da necessidade de autonomia sobre seu território, os Munduruku deram início ao processo de autodemarcação.

A partir da presença de inúmeros jornalistas cobrindo a autodemarcação surgiu a ideia dos próprios Munduruku realizarem os registros. A jornalista Rachel Gepp foi a primeira responsável por ensinar o uso da câmera para jovens mulheres indígenas e, a partir daí, nasceu o Daje Kepap Eypi, coletivo que homenageia a luta pelo território autodemarcado e divulga sua produção principalmente nas redes sociais.

Hoje, o coletivo audiovisual é formado por três mulheres munduruku e atua principalmente com a denúncia da invasão da região por madeireiros e garimpeiros. Uma delas é Aldira Akai, que tem 30 anos, quatro filhos, e é responsável principalmente pelas edições dos vídeos e pela legendagem. Fluente em português e Munduruku, Aldira vai se formar no ensino médio neste ano e pretende cursar graduação em pedagogia.

Leia a seguir a entrevista completa.

Leonardo Milano/InfoAmazonia
Aldira Akai com sua filha no colo

InfoAmazonia – Em abril, um vídeo da cacica Juma Xipaya denunciando a entrada de garimpeiros no território dela viralizou nas redes sociais, e levou à uma operação de uma força tarefa que aprendeu a balsa garimpeira e multou suspeitos. Como você enxerga o crescimento desse fenômeno de os indígenas não dependerem de gente de fora da aldeia para denunciar crimes ambientais?
Aldira Akai Munduruku – Para nós tem uma importância muito grande usar as câmeras, as redes sociais. Algo que não é da nossa cultura, mas que a gente reconhece como uma arma. Fazemos isso porque precisamos ser ouvidos pelos governantes e pelas pessoas que querem ajudar na luta, inclusive de outros países. E estamos fazendo isso por todos. Não só por nós, mas por todos os povos e pela floresta. O desmatamento está aumentando, o clima está mudando. Esse trabalho de comunicação leva nossa história longe, para pessoas que não conhecem ainda a luta do povo. A gente sabe a história da floresta, a gente veio dela, ela é uma vida para nós, e se ela acabar, a gente acaba também.

Estamos fazendo isso por todos. Não só por nós, mas por todos os povos e pela floresta. O desmatamento está aumentando, o clima está mudando. Esse trabalho de comunicação leva nossa história longe, para pessoas que não conhecem ainda a luta do povo.

Vocês acham que com o trabalho do coletivo Daje Kapap Eypi as denúncias de invasão aos territórios Munduruku estão chegando mais longe?
Mais ou menos, muitas denúncias não são atendidas. Como o governo é a favor do desmatamento e da mineração em terras indígenas, eles quase não atendem. Então muitas vezes a gente mesmo vai fazer a ação para tirar os madeireiros e garimpeiros.

Como é acompanhar e registrar essa fiscalização autônoma?
A primeira vez que a gente fez imagens mais perigosas foi quando fomos em um ramal de madeireiros, em 2019. Na época, éramos em quatro pessoas no coletivo, e a gente foi acompanhar os guerreiros. A gente recebeu a denúncia de outra aldeia, a Sawré Aboy. Como cada cacique tem o dever de fiscalizar sua aldeia, quando percebem a movimentação de voadeiras ou carros dentro do território, eles avisam para a gente. A gente ainda estava no processo da auto demarcação, então fomos com vários guerreiros.

Chegando lá, as lideranças começaram a dialogar com os madeireiros. Eles estavam armados, eram muitos. Aí a gente deu o prazo de três dias para eles tirarem o material. Eles queriam negociar com os caciques, pediram cinco dias, mas os caciques não aceitaram. Falaram que iam queimar as coisas deles se eles não saíssem. Aí eles saíram. A gente filmou tudo.

Página no Instagram do Coletivo Daje Kapap Eypi

Você acha perigoso atuar na comunicação?
É perigoso, mas eu não tenho medo. Quando a gente entra para a luta tem que enfrentar tudo que vai acontecer com a gente. Isso me fortalece. Eu pensei muito antes de entrar nessa luta, pensando que muita coisa poderia acontecer na minha vida, com meus filhos, mas enfrentei esse medo. Hoje não tenho medo de falar.

É perigoso, mas eu não tenho medo. Quando a gente entra para a luta tem que enfrentar tudo que vai acontecer com a gente. Isso me fortalece.

Você já sofreu ameaças?
A gente já sofreu ameaças dos garimpeiros. Ficaram compartilhando fotos de nós três que fazemos parte do coletivo e chamando a gente de “vendedoras de imagens” em grupos de Jacareacanga. Uns colegas Munduruku de lá nos avisaram. Às vezes, as pessoas se infiltram nos grupos de resistência para pegar informação, a gente acha que foi assim que nossas fotos vazaram. Pessoalmente ainda não aconteceu nenhum tipo de ameaça, graças a Deus, mas a gente toma cuidado, principalmente quando viajamos para fora do território.

Por que você decidiu fazer parte do coletivo audiovisual?
Eu estava participando da cozinha durante a autodemarcação. Mas as meninas precisavam muito de alguém que fala português e munduruku bem, então comecei a ajudar elas com a tradução dos vídeos. Aí gostei do trabalho e comecei a fazer oficinas. O pessoal do GreenPeace ajudou, doou uma câmera para a gente. Aí fui conhecendo mais, fiquei por dentro da luta e reconheci a importância da luta dos caciques. Antes disso eu era mais afastada, mas percebi que a luta deles era pelo futuro dos nossos filhos. Hoje eu me sinto muito orgulhosa de fazer parte desse grupo que leva a história do povo, a luta e a resistência para fora.

O plano de vocês é ampliar o coletivo?
Sim, queremos trazer mais jovens para entenderem a importância desse trabalho, somarem na luta. Queremos aumentar esse grupo e temos um projeto para fazer formação desses jovens.

Como você vê a importância de serem mulheres coordenando a comunicação?
A gente não quer deixar de lado os homens. Então a gente anda todo mundo junto, tanto as mulheres quanto os homens. Mas a importância da mulher munduruku no coletivo é que fortalecemos o trabalho dos caciques e fazemos uma ponte com o resto da aldeia, com os jovens e crianças. Nós mulheres cuidamos dos nossos filhos, da roça, da casa, mas também estamos na luta.

A importância da mulher munduruku no coletivo é que fortalecemos o trabalho dos caciques e fazemos uma ponte com o resto da aldeia, com os jovens e crianças.

Você está terminando o ensino médio e pretende estudar o que?
Quero estudar pedagogia e me aprofundar mais em cursos de audiovisual para tentar ensinar os próximos jovens que se interessarem, porque sei que não vou estar aqui para sempre. Então já quero ir preparando os jovens.

Sobre o autor
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Julia Dolce

Repórter e fotógrafa do InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Atua na cobertura socioambiental...

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