Um presidente não governa sozinho. Especialmente no combate aos crimes ambientais e na elaboração de planos de adaptação às mudanças climáticas. Na Amazônia, o presidente Lula (PT), eleito para seu quarto mandato presidencial no último domingo, terá que negociar e, mais do que isso, contar com uma equipe capaz de trabalhar em conjunto com governadores e Assembleias Legislativas sem alinhamento à pauta ambiental, além de um Congresso em que 78% dos deputados federais eleitos pela região têm forte divergência em relação à agenda climática, revela nova análise da InfoAmazonia.
Neste último episódio da série Eleições em Mapas, analisamos o posicionamento dos candidatos eleitos pelos estados da Amazônia Legal em relação à pauta climática para dimensionar os desafios que o governo federal terá para administrar uma região tão extensa, biodiversa e marcada por realidades distintas.
A InfoAmazonia analisou o Índice de Convergência Ambiental (ICAt), do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que avalia como deputados federais e senadores votaram na última legislatura (2023 a 2026) em projetos relacionados ao meio ambiente e ao clima, em uma escala de 0 a 100 — convergente (ICAt igual ou superior a 80), parcialmente convergente (de 60 a 79), divergente (de 50 a 59) e fortemente divergente (abaixo de 50).
Em seguida, analisamos os resultados das eleições por município e estado da Amazônia Legal e calculamos notas médias de convergência à pauta climática para cada região, ponderadas pela proporção de votos recebidos por cada candidato. Para os governadores e deputados federais e estaduais que não exerceram mandato na legislatura atual e, por isso, não tinham nota individual no ICAt, usamos a média do partido, calculada com base nas notas dos parlamentares da legenda na Câmara e no Senado — leia aqui a metodologia.
A bancada da Amazônia
Os nove estados da Amazônia Legal elegeram 91 deputados federais. O Amapá apresentou a maior média de alinhamento à pauta climática (61,1 ou parcialmente convergente), enquanto Rondônia apresentou a menor (27,6 ou fortemente divergente).
Se esses 91 deputados federais eleitos pela Amazônia formassem uma bancada própria no Congresso, 78% dela (71 parlamentares) seriam classificados como fortemente divergentes em relação à pauta climática. Essa é uma tendência que a InfoAmazonia já havia observado nas eleições municipais de 2024, quando os eleitores da região também optaram por uma maioria de prefeitos e vereadores de partidos contrários à pauta ambiental.
Apesar disso, Lula conseguiu desafiar essa tendência no 2º turno das eleições. O petista ampliou sua porcentagem de votos em relação ao 1º turno das eleições em todas as cidades da região e conseguiu virar em 24 delas. Colocando uma lupa em cada um dos municípios da Amazônia, é possível ver que oito dos dez municípios com maior porcentagem de votos em Lula estão no Maranhão. Os outros dois ficam no Amazonas.
Convergência com governos estaduais e Assembleias
Os efeitos do El Niño de forte intensidade já são sentidos por alguns amazônidas, especialmente no Amazonas, onde mais de 40 municípios estavam em situação de emergência até o último dia 20. Para criar estratégias de adaptação e mitigação aos eventos extremos, que devem ser cada vez mais frequentes, será necessária uma aliança concreta entre governo federal e estados, incluindo assembleias legislativas.
Na Amazônia, Lula terá um grande desafio pela frente. Nenhum governador eleito nem nenhuma Assembleia Legislativa eleita na Amazônia Legal apresenta alinhamento à pauta climática, segundo a análise da InfoAmazonia. Todos têm notas abaixo de 50, o que indica divergência em relação ao tema. Além disso, os partidos dos governadores têm notas médias inferiores às das Assembleias Legislativas dos respectivos estados.
No entanto, o grau de alinhamento — ainda que baixo em todos os casos — varia entre os estados. No Amazonas, onde Lula recebeu 48% dos votos válidos para presidente, apenas 11% dos partidos que elegeram deputados estaduais em 2026 pertencem a PT, PSB, PDT, PCdoB, PV, Psol e Rede, que integram a coligação “Brasil pronto pra mais”, da campanha presidencial do PT. É a maior diferença entre a votação presidencial e o alinhamento partidário da Assembleia Legislativa.
No Maranhão, onde Lula teve o maior percentual de votos válidos entre os estados da região, 64%, um terço dos partidos que elegeram deputados estaduais pertence à coligação do presidente. Esse é o cenário de maior alinhamento entre os estados da Amazônia e o governo federal.
Apesar dessas divergências políticas na região, Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, tem uma posição otimista em relação à agenda climática nos próximos anos. Para ele, o governo federal é o principal responsável por orientar as ações e, como exemplo, cita a redução da taxa de desmatamento no terceiro mandato de Lula.
A diferença entre os governos Lula e Jair Bolsonaro mostra que a orientação do Executivo federal tem um peso decisivo, segundo Astrini, mesmo quando o perfil político dos governadores e assembleias é contrário à pauta ambiental. Durante o governo Bolsonaro, o desmatamento cresceu drasticamente, embora os estados fossem comandados, em grande parte, por políticos com posicionamentos semelhantes aos dos últimos quatro anos. “O governo federal não vai resolver tudo, mas ele dá o norte do que deve acontecer”, afirma.
Para garantir a continuidade da política climática, mesmo em estados politicamente divergentes ou em um eventual período pós-Lula, independentemente de quem estiver no poder, o grande desafio é integrar a agenda climática à política de desenvolvimento econômico da região. “Você precisa substituir a economia do desmatamento por outra. É o desmatamento que gera dinheiro e recursos, e ele tem que deixar de ter esse atrativo”, explica o secretário executivo.
“Mesmo o governador mais conservador não necessariamente vê o desmatamento como uma questão ideológica, como uma crença ou uma linha política. Não estou defendendo esses governadores, mas, para muitos deles, o desmatamento é visto como um direito ao desenvolvimento, à prosperidade, como uma forma de garantir que seus eleitores continuem ganhando dinheiro e tocando a vida”, diz. “Se você substituir essa economia por outra forma de gerar renda na floresta, não haveria, em princípio, resistência. Afinal, seria mais uma economia, mais uma fonte de renda para esses estados”, finaliza.
Se você substituir essa economia por outra forma de gerar renda na floresta, não haveria, em princípio, resistência. Afinal, seria mais uma economia, mais uma fonte de renda para esses estados.
Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima
COMO ANALISAMOS O RESULTADO DAS ELEIÇÕES DE 2026 NA AMAZÔNIA LEGAL?
Analisamos os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 — para deputados federais e estaduais e para os governos estaduais definidos nessa etapa — e do segundo turno, para presidente e os governos estaduais ainda em disputa. Os dados foram obtidos no sistema de divulgação de resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e abrangem os 772 municípios da Amazônia Legal, distribuídos por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A lista de municípios que fazem parte da Amazônia Legal vem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para medir o alinhamento dos eleitos com a agenda climática, usamos a quarta edição do Índice de Convergência Ambiental (ICAt) do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que avalia como deputados federais e senadores votaram em projetos ligados ao meio ambiente e ao clima, numa escala de 0 a 100. Os dados cobrem a 57ª legislatura (2023 a julho de 2026) e o índice é calculado a partir de 66 votações nominais monitoradas, sendo 44 na Câmara dos Deputados e 22 no Senado Federal.
Os eleitos foram classificados em quatro categorias: convergente (ICAt igual ou maior que 80), parcialmente convergente (de 60 a 79), divergente (de 50 a 59) e fortemente divergente (abaixo de 50).
Presidentes
Para a disputa presidencial, utilizamos o percentual de votos válidos recebidos por Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em cada município e estado no segundo turno. No mapa por município, calculamos um ICAt médio ponderado pela votação de cada candidato à Presidência, utilizando como referência a média do ICAt dos partidos aos quais eles estão filiados.
Deputados federais, governadores e assembleias legislativas
Dos 91 deputados federais eleitos na Amazônia Legal, 40 não exerceram mandato na legislatura atual e, por isso, não têm nota no Farol Verde. Para eles, usamos o ICAt médio do partido, calculado com todos os parlamentares da legenda na Câmara e no Senado. Como o Farol Verde avalia apenas o Congresso Nacional, também usamos a média partidária para deputados estaduais e governadores eleitos.
Por isso, nas assembleias legislativas e nos governos estaduais, o índice mostra a posição do partido no Congresso, não a atuação de cada político. O partido AGIR não tem parlamentares avaliados pelo Farol Verde, então seus dois deputados estaduais eleitos ficaram fora do cálculo. Com essas médias, calculamos o ICAt médio de cada assembleia legislativa e o comparamos ao do partido do governador eleito.
Também comparamos o voto para presidente com o voto para as assembleias legislativas. Para isso, calculamos a proporção de partidos que elegeram deputados estaduais e que integram a coligação “Brasil pronto pra mais”, da campanha presidencial do PT — PSB, PDT, PCdoB, PT, PV, PSOL e Rede — e a comparamos com o percentual de votos válidos recebidos por Lula em cada estado.
Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, disponibilizamos os dados e os scripts utilizados nesta pasta.
Esta geonotícia foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com apoio do Instituto Serrapilheira.
Análise de dados: Renata Hirota
Consultoria científica: Ivan Silva
Visualização de dados: Carolina Passos
Reportagem e coordenação: Carolina Dantas
Direção editorial: Juliana Mori