A vitória de Lula afasta o projeto que ameaçava a proteção ambiental e a soberania sobre as riquezas naturais, e serve de exemplo ao mundo. Mas atingir o desmatamento zero e construir uma Amazônia mais justa depende de políticas públicas consistentes e de alternativas ao modelo extrativista-predatório.
O que acontece na Amazônia afeta o mundo. Mas cabe ao Brasil e aos demais países amazônicos decidir os rumos de seus territórios e de suas riquezas naturais. Ao eleger Lula para seu quarto e último mandato, o povo brasileiro afastou a ameaça do projeto bolsonarista que colocava em risco tanto a proteção da floresta, quanto a soberania nacional sobre seus recursos. A vitória representa um alívio para todos os que defendem a democracia e reconhecem a importância da Amazônia para a biodiversidade, os recursos hídricos e o equilíbrio climático do planeta.
Não é exagero dizer que o resultado das eleições brasileiras foi acompanhado com expectativa em todo o mundo. O projeto de poder representado pela extrema-direita brasileira está conectado ao avanço global da política dos Estados Unidos, que promove guerras e desrespeito às minorias. Trata-se de uma agenda internacional que combina ataques às instituições democráticas, destruição ambiental e negação da ciência. Às vésperas das eleições, os alertas sobre o que estava em jogo aqui ultrapassavam as fronteiras brasileiras e ficou claro que era mais do que o futuro de um país, era também o futuro do planeta. Como alertou o jornalista e especialista em política ambiental Claudio Angelo durante a campanha, “A reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia”.
Trata-se de uma agenda internacional que combina ataques às instituições democráticas, destruição ambiental e negação da ciência. Às vésperas das eleições, os alertas sobre o que estava em jogo aqui ultrapassavam as fronteiras brasileiras e ficou claro que era mais que o futuro de um país, era também o futuro do planeta.

Ao longo da disputa presidencial, a equipe da InfoAmazonia apurou e distribuiu informações verificadas que mostravam uma clara diferença entre os compromissos assumidos pelos dois candidatos. Embora seja um tema complexo e de pouco apelo às demandas domésticas, o domínio sobre as riquezas naturais, em especial a mineração de terras raras, esteve entre as prioridades de Lula, que defendeu a soberania nacional, enquanto Flávio Bolsonaro propôs acelerar o licenciamento e ampliar a participação de capital e tecnologia estrangeiros no desenvolvimento da cadeia de minerais críticos e estratégicos. Na política ambiental, Lula prometeu manter o combate aos crimes ambientais e fortalecer os órgãos de fiscalização; Flávio anunciou mudanças para eliminar o que chamou de “entraves ambientais”, entre elas rever as atribuições de órgãos de fiscalização como Ibama, ICMBio e Funai. Diante da perspectiva de um El Niño intenso, Lula propôs ampliar políticas de adaptação e prevenção de desastres, enquanto Flávio Bolsonaro negou a influência humana no aquecimento global e não apresentou medidas diretamente voltadas ao enfrentamento das mudanças climáticas.
Não eram diferenças apenas de discurso. O histórico dos governos de Lula e Jair Bolsonaro mostra que as escolhas nas urnas têm consequências diretas e concretas para a proteção da Amazônia e de seus povos.
A vitória de Lula leva a crer que a trajetória positiva que levou ao anúncio da menor taxa de desmatamento da história possa continuar no novo mandato. Em 2026, a taxa de desmatamento caiu 71% em relação a 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro. Uma análise da InfoAmazonia, no especial Eleições em Mapas, mostrou que, mantido o ritmo médio de redução do terceiro mandato de Lula, o desmatamento ilegal zero poderia ser alcançado já em 2028.
A campanha também demonstrou a importância da comunicação para a democracia. Em um cenário de desinformação e ataques às instituições, foi fundamental recuperar a memória do que aconteceu em cada governo, confrontar promessas com históricos de atuação e mostrar o que estava em jogo para a floresta e para quem vive nela. O jornalismo independente cumpriu seu papel ao analisar propostas, revelar contradições e investigar os poderosos. Ao mesmo tempo, redes de mobilização e novas formas de comunicação digital ajudaram a fazer a informação circular e a aproximar o debate político da vida cotidiana das pessoas.
A campanha também demonstrou a importância da comunicação para a democracia. Em um cenário de desinformação e ataques às instituições, foi fundamental recuperar a memória do que aconteceu em cada governo, confrontar promessas com históricos de atuação e mostrar o que estava em jogo para a floresta e para quem vive nela.

A democracia que a eleição ajudou a preservar é também a condição para que o jornalismo continue exercendo sua função pública: acompanhar as decisões dos governos, cobrar o cumprimento de promessas, investigar irregularidades e apontar contradições, inclusive quando elas partirem daqueles que foram eleitos com o compromisso de proteger a Amazônia.
É nosso dever como jornalistas manter o espírito crítico e o rigor nas análises. Sabemos que o Ministério do Meio Ambiente continua entre as pastas com menos recursos do Executivo. Os órgãos de fiscalização e regulação, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), seguem com quadros defasados e são constantemente alvos de ataques de interesses ligados a grileiros e mineradores ilegais. A pressão sobre os territórios indígenas e as unidades de conservação não se compara à que ocorreu nos anos de Bolsonaro, mas não deixou de existir.
O grande trunfo da política ambiental de Lula e seu governo para a Amazônia sempre foi unir ciência e coordenação entre vários ministérios. Esta tática implementada na Amazônia hoje beneficia todos os biomas, como vimos na queda recorde do desmatamento no Cerrado. Mas a lacuna sempre foi o estabelecimento de novas alternativas econômicas ao modelo extrativista-predatório.
Assim como a América Latina enxerga na vitória de Lula uma saída à direita-chucra-trumpista, o mundo olha para a Amazônia e para os povos indígenas e as comunidades tradicionais em busca de respostas para uma economia que apenas destrói. Se o futuro é ancestral, ele de forma alguma deve ser arcaico, como são as sondas de petróleo na foz do Amazonas ou os benefícios fiscais para data centers no meio da floresta.
Assim como a América Latina enxerga na vitória de Lula uma saída à direita-chucra-trumpista, o mundo olha para a Amazônia e para os povos indígenas e as comunidades tradicionais em busca de respostas para uma economia que apenas destrói. Acreditamos que este é o momento de a sociedade brasileira promover um acordo político que não só logre chegar ao desmatamento zero até 2030, mas também apresente uma alternativa viável para um futuro sustentável. Se o futuro é ancestral, ele de forma alguma deve ser arcaico, como são as sondas de petróleo na foz do Amazonas ou os benefícios fiscais para data centers no meio da floresta.