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O páramo que é pago por serviços hídricos, mas ninguém vê o dinheiro

Nos páramos dos Andes nascem muitos rios que alimentam o Amazonas e chegam ao Atlântico, como parte de um sistema continental que depois devolve essa água em forma de chuva. Milhões de pessoas dependem dessa água para consumo, irrigação e energia elétrica, mas os páramos enfrentam graves problemas que afetam sua capacidade de fornecimento. Por isso a ciência busca estratégias para entendê-los melhor e preservá-los. Poucos páramos ilustram esse paradoxo como o de Cumbal, no sul da Colômbia, que tem um projeto de venda de créditos de carbono que recompensa os habitantes por cuidarem do ecossistema e do serviço ambiental que ele presta. Contudo, as pessoas ainda não receberam o dinheiro prometido.

Os páramos nas zonas elevadas dos , da Venezuela ao Peru, como o de El Ángel, no Equador, fornecem a milhões de pessoas e a bacias como a do rio Amazonas.

Onde nasce o poderoso rio Amazonas? A pergunta persegue cientistas, exploradores e bandeirantes há séculos. Sem uma resposta certeira, acredita-se que a cabeceira mais distante esteja nas encostas nevadas do Mismi, a 5.500 metros de altura, perto da cidade peruana de Arequipa. Do degelo dessa geleira nasce o riacho Carhuasanta, que alimenta o córrego Lloqueta, que deságua no rio Apurímac, que desemboca no Ene, que se transforma no Tambo antes de voltar a mudar de nome para Ucayali, até finalmente verter suas águas no Amazonas. Outro estudo mais recente localiza sua origem em vários riachos que alimentam o lago Chinchaycocha, no centro do Peru, onde começaria seu percurso sinuoso de mais de 6.300 quilômetros até seu vasto delta no oceano Atlântico.

De todo modo, os cientistas concordam que muitos dos rios que alimentam a bacia amazônica nascem nos páramos dos Andes, entre o sul da e o norte do Peru. Com suas grandes extensões de pajonales e coxins úmidos no topo da cordilheira, quase sempre cobertas por uma camada de neblina apenas interrompida pelas silhuetas dos esguios frailejones, esses ecossistemas da montanha com seus solos encharcados fascinam os cientistas há décadas.

Lar de espécies emblemáticas como o condor, o urso-de-óculos e a anta-de-montanha, os páramos são como ilhas no topo das montanhas, cujas plantas e animais desenvolveram adaptações únicas para sobreviver ao clima extremo. “Talvez em nenhum outro lugar existam, em um espaço tão reduzido, espécies tão belas e notáveis do ponto de vista da geografia vegetal”, escreveu o explorador e naturalista alemão Alexander von Humboldt quando passou por um páramo há dois séculos. A ciência hoje lhe dá razão: 60% das plantas de páramo só existem ali.

São também os ambientes que evoluem mais rapidamente no planeta, segundo revelou uma pesquisa feita pelo botânico Santiago Madriñán e pelo geneticista vegetal Andrés J. Cortés, ambos colombianos. Um único hectare de páramo pode armazenar até 2.000 toneladas de carbono em suas turfeiras ou áreas úmidas, o que é entre 5 e 10 vezes mais do que captura de uma floresta tropical, segundo mediu o ecologista Juan Carlos Benavides.

Talvez em nenhum outro lugar existam, em um espaço tão reduzido, espécies tão belas e notáveis do ponto de vista da geografia vegetal.

Alexander von Humboldt, explorador e naturalista alemão

Além disso, são verdadeiras fábricas de água, que ajudam a sustentar um circuito que libera água no topo dos Andes rumo ao caudaloso Amazonas, até chegar ao Atlântico, de onde a água inicia o caminho de volta à cordilheira em forma de umidade atmosférica. Ali cai de novo como chuva, em um círculo virtuoso que fornece água a cidades tão distantes quanto Bogotá, Quito, Lima e até São Paulo e Buenos Aires.

Nessas latitudes dizemos que andamos “emparamados” quando um aguaceiro nos encharca.

Nos países andinos entendemos cada vez melhor a importância dos páramos no ciclo da água e os serviços que essas regiões nos prestam, fornecendo água para beber, produzir alimentos e gerar energia. “Vou buscar nas nuvens, vou voltar a buscar a gotinha de água que ontem vi passar”, canta Jorge Velosa em uma canção que segue o percurso de uma gota desde o cume até o mar e de volta. Mais recentemente, as crianças colombianas se encantaram com Frailejón Ernesto Pérez, um personagem animado criado pela televisão pública que ensina a escovar os dentes com a torneira fechada e a gastar menos eletricidade para cuidar da água (já que, como conta outra reportagem deste projeto, os países andinos dependem de hidrelétricas para ter luz).

Ainda assim, os páramos são pouco conhecidos fora de seu lar por excelência, no norte dos Andes, apesar de também ocorrerem em menor grau na Costa Rica e no Panamá, e de ter primos distantes na África oriental e na Nova Guiné. Por esse motivo, a palavra não tem tradução clara para o inglês (às vezes são chamados de ‘moors’ ou ‘moorlands’, outras de ‘tundra alpina’, apesar de não serem nem uma coisa nem outra). Por isso, não é surpresa que os cientistas colombianos e equatorianos, cujos países abrigam a maior parte dos páramos do mundo, sejam os que mais tem estudado suas singularidades nos últimos anos.

O vínculo entre páramos e água é tão forte que os colombianos falam em estar ‘emparamados’ quando se molham. Na foto, o páramo e parque nacional Chingaza, que fornece água a Bogotá. Foto: Andrés Bermúdez Liévano/Clip

Contudo, também são ecossistemas sob pressão permanente. Povoados por cerca de 76 mil pessoas na Colômbia, os páramos vêm perdendo cobertura vegetal com o avanço da pecuária, da agricultura e até da mineração. Quanto maior o desmatamento e a degradação que sofrem, mais são afetados os serviços ambientais que nos prestam, a começar pela água. Por essa razão, agora estão no centro dos debates sobre o pagamento por serviços ambientais (PSA), guiados pela pergunta: os habitantes de cidades que dependem da água que flui dos páramos deveriam contribuir economicamente para garantir seu cuidado?

Parte dos problemas e das respostas pode ser encontrada no páramo de Cumbal, no canto sudoeste da Colômbia e bem na fronteira com o Equador.

Historicamente, Cymbal é um dos páramos mais modificados e degradados da Colômbia. Localizado na reserva indígena do complexo de Chiles Cumbal, as vacas leiteiras e o cultivo de batata ocupam áreas cada vez mais elevadas, chegando aos 3.600 metros acima do nível do mar. Essa região é palco de uma expansão acelerada da fronteira agropecuária e quem paga essa conta são os páramos e seu ecossistema vizinho, a floresta andina ou de neblina, por onde flui a água que chega à Amazônia. Porém, a região também é o epicentro de um processo de recuperação do páramo, que já viu dezenas de habitantes multiplicarem viveiros de plantas nativas, proteger nascentes e conscientizar os vizinhos sobre esse ativo tão importante, como nos mostra o álbum dos custodios do páramo de Cumbal que também faz parte desta pesquisa jornalística.

Em 2022, surgiu um projeto de venda de que prometia gerar renda para que os indígenas Pastos, de Chiles Cumbal, pudessem proteger esses dois ecossistemas e os serviços ambientais que eles prestam. A maior parte do dinheiro veio da filial colombiana da petrolífera americana Chevron, que pagou 1,1 milhão de créditos por meio de uma iniciativa de redução da pegada de carbono chamada Pachamama Cumbal, que significa “cuidado da Mãe Terra”, em quéchua.

Só que esse dinheiro não chegou às mãos de quem deveria recebê-lo. A lei colombiana exige que os projetos consultem as comunidades locais e respeitem seus direitos, mas uma série de investigações feitas pelo CLIP mostra que, com frequência, as comunidades foram ignoradas.

Em Cumbal essa situação foi extrema. Seus habitantes nem sequer ficaram sabendo da existência da iniciativa ambiental em seu território até depois de a petrolífera contabilizar esses resultados. Preocupado com um projeto feito sem o seu conhecimento, um grupo de profissionais indígenas de Cumbal levou a iniciativa à Justiça. Dois juízes de primeira e segunda instância lhes deram razão. Segundo sua sentença, seus direitos fundamentais foram violados e o projeto foi suspenso.

Apesar da vitória legal, os cumbaleños não receberam o dinheiro devido. A empresa mexicana que estruturou o projeto Pachamama Cumbal e vendeu os créditos, que contratou como auditores antigos parceiros comerciais de sua gerente, como se fossem terceiros independentes, não publicou os documentos do projeto, conforme o padrão do setor, e não respondeu se finalmente repassou o dinheiro. Há dois anos, a empresa se ancorou na decisão judicial que suspendeu a iniciativa para argumentar que legalmente não seria mais possível transferi-lo. A certificadora que autorizou sua entrada no mercado diz que não tem como confirmar que os recursos chegaram ao resguardo. A petrolífera que se beneficiou desses créditos argumenta que não é responsável pelo problema. A auditora que validou o projeto não responde. E o Estado colombiano não disse nada.

Tudo isso enquanto os indígenas de Cumbal sonham em conseguir financiar as atividades que buscam preservar o páramo, que verte suas águas rumo ao oceano Pacífico mas que recebe quase metade de sua precipitação graças aos ‘rios voadores’ que vêm da Amazônia. E assim garantir que a água continue fluindo.

Esponjas no fio da cordilheira

“Os páramos são fábricas de água. Temos que protegê-los, porque isso é proteger a água, e a água é o mais importante para a vida”, disse o presidente colombiano Juan Manuel Santos quando seu governo delimitou os 37 complexos de páramos que o país tem e que equivalem à metade dos que existem no mundo.

Essa não foi a única metáfora usada para explicar o papel que esses ecossistemas cumprem em nossa vida. O ecologista tropical equatoriano Robert Hofstede os chama de “esponjas”, o botânico Santiago Madriñán de “torres de água” e o climatólogo José Daniel Pabón de “intermediários da água”, pois, mais do que “produzi-la” como em uma fábrica, os páramos trazem a água do ar para o solo.

Assim descrevem seu papel central em um sistema hídrico continental que circula entre o oceano Atlântico, a floresta amazônica e a vertente oriental da cordilheira, que chega a irrigar regiões tão distantes quanto a bacia do Rio da Prata, ao sul (como mostram as reportagens deste projeto sobre os areais do Rio Grande do Sul e os campos do Uruguai).

Os cientistas conhecem essa via de mão dupla como sistema hidroclimático Atlântico-Amazônia-Andes, ou AAA, mais conhecido pelo nome poético de ‘rios voadores’, cunhado pelo meteorologista peruano José Antonio Marengo para descrever o fenômeno de transporte de umidade descoberto por seu colega climatologista brasileiro Enéas Salati. Narrando essa história a partir dos páramos, onde se fala espanhol, kichwa ou nasa, ficamos tentados a inverter seu nome e pensá-lo como Andes-Amazônia-Atlântico.

Ao todo, dezenas de páramos na Colômbia, no Equador e no Peru, onde são chamados de jalcas, alimentam a bacia do grande rio Amazonas. No páramo de La Cocha Patascoy nasce o rio Putumayo, conhecido pelos brasileiros como Içá, um afluente principal de todo o sistema. No páramo de Papas, no complexo de Sotará, nasce o rio Caquetá (Japurá para os brasileiros) a apenas 2,5 quilômetros de onde começa a correr o rio Madalena – o mais longo da Colômbia – rumo ao mar do Caribe. Nos páramos do parque nacional Llanganates nasce o rio Napo, que o conquistador espanhol Francisco de Orellana navegou no início de sua travessia até o Atlântico. E boa parte dos páramos da Venezuela e do norte da Colômbia alimentam o rio Orinoco, o terceiro mais caudaloso do mundo.

Cerca de 17 milhões de pessoas na Colômbia e 8 milhões no Equador dependem da água de altíssima qualidade que emana deles. Só Bogotá recebe 14 mil litros de água por segundo do páramo de Chingaza, e metade da capacidade hidrelétrica do país se beneficia da água que vem de lá.

Todos os elementos da paisagem contribuem para esse sistema que, nas palavras de Hofstede, “recolhe a água e regula seu fluxo”. Seus solos profundos, chamados andissolos e histossolos, conseguem reter grandes quantidades de água que vão liberando aos poucos. Entre eles se destacam as turfeiras, com seus coxins de musgo e seu lodo repleto de matéria orgânica que não se decompõe pela ausência de oxigênio. Várias de suas plantas, como os peludos frailejones, as árvores-de-papel (ou Polylepis) que soltam a casca como papel-manteiga, e as estrelas-de-páramo em forma de roseta, interceptam a água da neblina e a conduzem ao solo.


A maioria dos rios nos Andes do norte, incluindo muitos que fluem para a bacia do Amazonas, nasce como riachos em páramos como o de El Ángel.

Os polylepis de El Ángel, assim como os frailejones, são plantas que interceptam água da neblina e a conduzem ao solo. Assim contribuem para os rios da mesma forma que a chuva.

Cada um contribui com seu grão de areia — ou sua gotinha de água — em um sistema e um serviço ambiental que entendemos cada vez melhor, mas que ainda guarda muitas incógnitas. Uma delas é quanta água, além da chuva, provém da neblina, do orvalho ou do que interceptam plantas como a árvore-de-papel ou coloradito, um fenômeno que os cientistas chamam de “precipitação oculta” ou “chuva horizontal”.

Uma equipe liderada pelo ecologista equatoriano Esteban Suárez fez vários experimentos no páramo de Paluguillo, perto de Quito, para entender que tipo de vegetação garante a infiltração de água no solo, um indicador-chave de que o ecossistema consegue retê-la e liberá-la gradualmente. Depois de enterrar anéis de infiltração no solo e despejar um litro de água sobre eles, calcularam o tempo que cinco tipos de solo levavam para absorver todo o líquido. Concluíram que a vegetação virgem é de quatro a cinco vezes mais eficaz. Por isso, preservar a camada espessa de plantas no solo é essencial para manter sua capacidade de regular a água.

Outro grupo de hidrólogos da Universidade de Cuenca, liderado por Mateo Jerves, comprovou que as águas subterrâneas cumprem papel fundamental na alimentação dos riachos de páramo, sobretudo em épocas de menos chuva. Segundo medições realizadas pela equipe em um riacho do páramo de Kimsacocha, o aquífero não só contribuiu com 12% da vazão da microbacia de Quinahuaycu como sua contribuição pode subir até 74% da vazão quando há baixa precipitação, levando em conta que também alimenta as nascentes e alguns solos histossolos.

“Existem grupos de pesquisadores na Venezuela, na Colômbia e no Equador que estudam a fisiologia das plantas de páramo, a hidrologia desses ecossistemas, o que acontece com a cobertura vegetal e com o carbono. Esses esforços buscam direcionar a política pública e, sobretudo, o manejo da agricultura e da pecuária nos páramos, explicando porque recuperar as áreas úmidas, bofedales e turfeiras, porque é essencial guardar essa matéria orgânica no solo para que ocorra essa infiltração e liberação lenta de água para os riachos e depois para as cidades e plantações, de modo a garantir a segurança alimentar e hídrica de todos os que vivem ali”, diz Andrea Encalada, uma ecologista de água doce que leciona na Universidad San Francisco de Quito e foi coautora da pesquisa sobre a relação entre tipos de cobertura vegetal e infiltração da água no solo.

Apesar desses avanços, adverte Encalada, a pesquisa sobre os páramos ainda não tem o apoio estatal de que precisa. “Esses grupos de pesquisa são excelentes, mas são pequenos e há pouco apoio à pesquisa. Apesar da importância do que esses cientistas estão fazendo, continua sendo difícil transformar essas informações em políticas públicas, e ela não chega às pessoas como deveria”, diz.

Por isso, muitos desses pesquisadores, liderados por Robert Hofstede e Esteban Suárez, estão criando um painel científico para os ecossistemas andinos que busca replicar o modelo que funciona com sucesso na Amazônia há cinco anos. A ideia do Painel Científico dos Andes é, assim como a de seu homônimo amazônico, compilar e sintetizar a informação científica existente e impulsionar seu uso em soluções adotadas como políticas públicas. Parte do financiamento inicial virá do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).

Na verdade, muitos páramos estão fortemente conectados à Amazônia, mesmo quando vertem suas águas para outras bacias. É o caso de Chiles Cumbal, cujas águas descem rumo ao oceano Pacífico pelos rios Patía e Mira, mas que recebe quase metade de sua precipitação do bioma amazônico.

Entre 38% e 46% chega por ‘contribuição direta’ (a chuva que se origina na Amazônia pelo bombeamento — ou evapotranspiração — das árvores da floresta e atravessa o bioma até esse ponto no departamento de Nariño) e outros 7% a 8% por “contribuição indireta ou em cascata” (a chuva que se origina na Amazônia, cai em regiões próximas e volta a se reciclar como umidade atmosférica para continuar seu caminho rumo aos Andes), segundo estimativas feitas por Sandro Pauli, físico da Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em modelos climáticos de rastreamento de umidade atmosférica. Outros 19% a 24% da chuva vêm do Pacífico e entre 13% e 16% do Atlântico.

Esse cálculo de quanto os rios voadores vindos da Amazônia contribuem para Cumbal foi feito por Pauli, que integra o programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira, do Brasil, apoiadora da iniciativa Águas Partidas, coordenada pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com oito veículos da região. Para isso, ele usou o modelo computacional UTrack, que rastreia a trajetória das massas de ar durante 30 dias de viagem, ou até que quase toda essa água caia em forma de chuva. Isso permite calcular a contribuição direta e indireta em um ponto determinado de cerca de 55 quilômetros quadrados (0,5 grau no mapa).

Uma das funções dos páramos é reter a água e liberá-la aos poucos, algo que fazem plantas como estes coxins em El Ángel. Foto: Andrés Bermúdez Liévano/Clip

Humanos nos páramos

O serviço ambiental dos páramos é frágil, e eles só conseguem prestá-lo se estiverem em bom estado.

No Equador, por exemplo, 56% da área de páramos já têm alguma categoria de proteção ambiental, enquanto na Colômbia essa proporção é de 45%. Isso inclui muitos dos parques nacionais mais icônicos dos dois países, incluindo o Chimborazo, o Cotopaxi e até a Sierra Nevada de Santa Marta ou Sumapaz, o maior páramo do mundo.

No entanto, fora dessas áreas protegidas, os páramos precisam conviver com práticas pouco sustentáveis. Muitas comunidades camponesas expandiram a fronteira agropecuária, derrubando tanto páramos, como florestas de neblina para colocar gado leiteiro, plantar batata ou produzir carvão vegetal para cozinhar. Na Colômbia, a maioria dos ‘parameros’ são pequenos proprietários e pobres, segundo dados do Censo Nacional Agropecuário. Espécies estrangeiras como o eucalipto e o pinheiro-patula, vorazes consumidoras de água, também ganharam terreno.

Em alguns páramos, como o já mencionado Cumbal e o Cocuy, no nordeste da Colômbia, as imagens de satélite já mostram atividade pecuária acontecendo acima dos 3.500 metros de altitude, como vem monitorando o geógrafo Germán Narváez, da Universidad de Nariño.

Essa pegada humana não só reduz a cobertura vegetal e afeta o funcionamento correto desses ecossistemas; a qualidade da água e dos solos também sofre. Revolver a terra com trator faz com que passem de áreas que capturam carbono e até metano (como comprovou uma pesquisa recente na Costa Rica) a áreas que liberam gases de efeito estufa na atmosfera, agravando a crise climática que, do contrário, ajudariam a conter. Sem cercas nos riachos, as vacas defecam na água e a contaminam desde a nascente. O mesmo ocorre com os pesticidas e fungicidas que usam em seus cultivos.

A mineração de ouro e de carvão também espreita o ecossistema. A Colômbia, consciente de sua importância hídrica, proibiu a mineração e a extração de hidrocarbonetos em páramos em 2016, embora tenha precisado lidar por uma década com três ações movidas por empresas estrangeiras que exploravam o páramo de Santurbán. No fim, o Estado venceu.

No Equador, o projeto da mineradora canadense Dundee Precious Metals em Kimsacocha, um páramo que fornece água a Cuenca, cuja história pode ser vista no documentário que faz parte do projeto, gerou um inteso conflito socioambiental. Algo semelhante havia ocorrido com outros planos de mineração da empresa chinesa Junefield Ecuagoldmining perto do Parque Nacional Cajas. No total, 7,49% do páramo no Equador está sob concessões de mineração.

Já existe evidência científica em torno de alguns desses problemas. Por exemplo, os hidrólogos equatorianos Bert De Bièvre e Vicente Iñiguez comprovaram que o reflorestamento do páramo com pinheiro-patula, originário da América Central e muito disseminado pela Colômbia e pelo Equador, reduz a vazão dos rios que em até 50%. Essa queda no fluxo de água pode colocar em risco o abastecimento e ganha mais relevância em épocas de seca, alertaram. Outro estudo constatou que os solos cultivados por mais de dois anos em páramos do Equador perdem 16% de capacidade de retenção de água.

Esses estudos científicos indicam que uma menor capacidade dos páramos de fornecer água costuma estar associada à perda de seus solos ricos em matéria orgânica ou de sua vegetação.

O risco é que, em épocas de intensificação do ciclo hidrológico, quando há mais secas prolongadas e chuvas extremas, haja momentos em que flua menos água do que nossos países precisam para funcionar, ou que desça água demais sem que o ecossistema consiga regular sua vazão.

Viver melhor no páramo

Nas últimas duas décadas, centenas de cientistas e técnicos ambientais buscam maneiras de incentivar modos mais sustentáveis de viver no páramo. Diversos programas foram implementados na Colômbia, financiados por uma mistura de recursos públicos e cooperação internacional: Páramo Andino, Proyecto Páramos, Páramos y Bosques, Páramos para la Vida, além de uma política pública que busca delimitá-los em uma escala de 1 para 25 mil…

Essas iniciativas contribuem para ampliar as ferramentas que a Lei de Páramos, aprovada em 2018, chamou de “gestão integral” do ecossistema. Em linhas gerais, ela busca alcançar quatro objetivos ao mesmo tempo: trabalhar com as comunidades que vivem ali para fortalecer sua governança e pensar as soluções, conservar as áreas que estão em bom estado, restaurar as que estão degradadas e tornar as atividades produtivas mais sustentáveis do que são hoje.

“Quando facilitamos a vida dos habitantes e as decisões de manejo surgem deles – e não só da decisão do Estado -, conseguimos mudanças de percepção e melhorias na qualidade de vida que, por sua vez, resultam em maior bem-estar ambiental”, diz o biólogo Felipe Rubio Törgler, que foi diretor do parque nacional no páramo de Iguaque e participou de quase todos os programas em páramos.

Esse trabalho conjunto é o que permite o que o Instituto Humboldt, a entidade pública colombiana que estuda a biodiversidade, chamou de “transições socioecológicas rumo à sustentabilidade” — mudanças no modo de viver e produzir que ajudam a conservar os ecossistemas e reduzir a desigualdade. Em Cumbal, dezenas de camponeses converteram esse conceito em atividades reais, da brigadista que apaga incêndios florestais até a camponesa que propaga as sementes mais difíceis, passando por quem monitora pumas com câmeras ou a mariposa que adoece o frailejón (cujos perfis você pode conhecer nesta outra reportagem do projeto).

Ações desse tipo já foram implementadas em muitos páramos colombianos, mas ainda há dois obstáculos para que consigam reverter décadas de degradação: um de conexão e outro de dimensão.

“De que adianta ter um páramo perfeitamente preservado se derrubamos toda a floresta de neblina, por onde corre essa água? Não se trata de um único ecossistema, mas a soma de vários. É preciso vê-los como um sistema”, diz o geógrafo Carlos Sarmiento, que liderou a delimitação dos 37 complexos de páramos a partir do Instituto Humboldt.

“Tivemos dezenas de bons projetos-piloto, mas continuamos tendo um problema de escala. Esses pilotos não modificam a realidade por completo, mas nos dão diretrizes muito valiosas. Só que a escala de incidência territorial tem barreiras estruturais em que a força do mercado nos vence”, diz Felipe Rubio Törgler. Para ele, esse problema só pode ser resolvido trabalhando em conjunto com setores como o agropecuário e o de mineração para impulsionar alternativas como a agroecologia (reduzindo o uso de químicos e tratores) ou outras atividades produtivas. A Lei de Páramos de 2018 propõe esse trabalho coordenado, mas ela não se cumpriu.

Dentro do páramo de Cumbal há dezenas de iniciativas ambientais, como o viveiro comunitário de plantas nativas Sinchimaki, liderado por María Jael Cuaical. Foto: Andrés Bermúdez Liévano/CLIP

O projeto de créditos de carbono escondido dos habitantes locais

Em Cumbal, na fronteira da Colômbia com o Equador, surgiu alguém com capacidade de trazer essa escala e o dinheiro necessário para implementar os projetos-piloto em todo o território. Era um projeto tão ambicioso que prometeu oferecer “oportunidades de trabalho e benefícios diretos e indiretos para 37.033 habitantes de 38 veredas” ao longo de 100 anos, prazo que depois reduziu para 75. Até 2092.

Trata-se de um projeto de venda de créditos de carbono nas quatro reservas indígenas que compartilham a parte sul do complexo de páramos Chiles Cumbal. Seu objetivo é “proteger e conservar ecossistemas dominados por florestas altoandinas e subandinas, bem como uma extensa região de páramos nos Andes colombianos”, segundo promete seu relatório de monitoramento. Além de Cumbal, onde vivem cerca de 18 mil indígenas Pasto, o projeto incluía as reservas de Chiles, Panán e Mayasquer, que somam outros 10 mil indígenas. A área total do projeto é de 42.413 hectares – o mesmo que as ilhas de Barbados ou Curaçao.

Financiado pela empresa mexicana Global Consulting and Assessment Services S.A. de C.V. e por sua filial colombiana SPV Business S.A.S., o Proyecto Ambiental Redd+ de Protección Pachamama Cumbal foi aprovado pelo padrão de certificação colombiano ColCX e chegou ao mercado em outubro de 2022. Como outros projetos do tipo Redd+, ele conecta comunidades locais que cuidam de ecossistemas estratégicos para mitigar a crise climática global a empresas que compram seus créditos de carbono para compensar o uso de combustíveis fósseis. Cada crédito equivale a uma tonelada de dióxido de carbono – um dos gases de efeito estufa que causam a mudança climática – que deixaria de subir à atmosfera em razão desse esforço de conservação.

Seu documento descritivo inclui as atividades que muitos habitantes de Cumbal já vêm realizando. Embora seja difícil saber apenas se a iniciativa tem ou não uma visão integral do manejo do páramo, ela coincide em grande medida com o que os cientistas ambientais na Colômbia recomendam.

Na verdade, o projeto conta com eixos de trabalho muito semelhantes aos do programa governamental Páramos para la Vida: fortalecimento da governança indígena, conservação dos ecossistemas em bom estado, restauração de áreas degradadas e atividades de uso sustentável agropecuário. Dentro desse esquema, ele propõe atividades de educação ambiental, monitoramento comunitário da vegetação, viveiros comunitários para propagar espécies nativas, cercamento de áreas para recuperação e enriquecimento florestal. Sua proposta para a reconversão do modelo de pecuária extensiva para um agrossilvipastoril é menos ambiciosa: ela fala da importância de isolar fontes de água, fazer rotação de pastos, estabelecer bancos de forragem com plantas nutritivas para as vacas e plantar cercas vivas de espécies nativas para aumentar a produção de leite em menor espaço, além de conectar os fragmentos de floresta, mas descreve essas atividades como “adicionais”.


Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.

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