“Nazareth precisa mudar, Nazareth precisa melhorar”, diz ao microfone uma liderança indígena em um salão vazio, por onde passa um cachorro bocejando. A voz sai por um alto-falante através do qual os moradores dessa comunidade indígena de 1.080 habitantes, na Amazônia colombiana, pertencentes às etnias Tikuna e Kokama, ficam sabendo de tudo o que acontece ali: os horários das aulas de dança, as campanhas de atendimento em saúde, os anúncios de reuniões políticas e os suicídios.
“Eu estava ficando louca. Em 2020, de janeiro a junho, houve um caso de suicídio todos os meses, e todos os meses nós ficávamos sabendo por esse alto-falante”. Quem fala é Geni Catachunga, promotora de saúde há 11 anos na comunidade. Enquanto conta a história, ela conta os suicídios nos dedos, mas eles não são suficientes. Já foram 12. Todos de jovens.
Segundo dados da Secretaria de Saúde do Departamento do Amazonas, na Colômbia, em todo o departamento as tentativas de suicídio passaram de 63 em 2021 para 100 em 2024 e permaneceram em 100 em 2025. Este ano, até o momento, já foram registrados 43 casos.
Catachunga, de cabelos pretos presos e usando um jaleco azul, conta que os jovens têm poucas oportunidades de trabalho ou lazer e, muitas vezes, também não contam com o apoio dos pais. Ela está sentada à mesa de madeira na entrada de uma pequena casa branca com molduras azul-claro, onde funciona o posto de saúde de Nazareth. Ao lado da mesa há uma porta cercada de cartazes: à direita, uma placa com a palavra “Wechikaru” na língua tikuna; abaixo, outra com a inscrição “Consultório”; acima, um cartaz que diz “Você sabe o que é saúde mental?”; e, à esquerda, outro que começa com “Fluxo de atendimento para consumo de substâncias psicoativas”.

Um estudo de 2020 do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar aponta que o principal fator de risco associado ao comportamento suicida entre crianças, adolescentes e jovens de Nazareth é o choque cultural com o mundo ocidental, no qual eles se veem “atraídos pelas lógicas do consumo e da acumulação” e alguns recorrem ao “dinheiro fácil” para satisfazer necessidades impostas.
Segundo o relatório, eles “trabalham em atividades ilícitas relacionadas à venda de substâncias psicoativas, mal remuneradas, que afetam seu bem-estar físico e emocional”. Catachunga acrescenta que, além disso, alguns casos também envolveram violência doméstica e abuso sexual.
Os jovens de Nazareth consomem pasta-base de cocaína, além de maconha, obtida na cidade colombiana de Letícia – vizinha à brasileira Tabatinga (AM) – ou vendida por pessoas de fora da comunidade que chegam até ali. Também inalam gasolina roubada das embarcações atracadas junto à ponte.
Na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, olhar nos olhos de muitos desses jovens indígenas que consomem drogas é enxergar o lado mais vulnerável de uma cadeia de abastecimento que transformou o rio Amazonas em uma das principais rotas do tráfico de drogas rumo à Europa. É um mercado onde centenas de indígenas deixaram de ser apenas mão de obra para o tráfico e passaram a ser consumidores que enfrentam um sistema de saúde extremamente precário para tratar suas dependências.
O problema está intimamente relacionado ao aumento das plantações de coca e dos laboratórios de processamento no Peru, onde traficantes peruanos e colombianos, além de facções brasileiras, controlam plantações que atraem indígenas de vários pontos do rio Amazonas, que para ali viajam para colher folhas de coca. Em alguns casos, eles são pagos com pasta-base de cocaína, que consomem ou revendem em suas comunidades como forma de compensação pelo tempo de trabalho.
O aumento do consumo também se reflete na existência de bocas de fumo dentro de comunidades indígenas. “Estamos tentando desenvolver um trabalho articulado com as forças militares para combater esse problema que entrou na nossa comunidade”, afirma Raymundo Fernández, líder comunitário e coordenador da guarda indígena de Azcaita, que reúne dez comunidades indígenas do departamento colombiano do Amazonas.
Ele explica que os jovens consomem drogas ou “aceitam vender drogas para pessoas de fora, que chegam para abastecê-los e distribuir dentro das comunidades. Quando entram nisso, já não conseguem sair porque passam a ser ameaçados pelos fornecedores”.
A situação é tão grave que já existem jovens indígenas vivendo em situação de rua. Em dezembro de 2025, havia 224 pessoas em situação de rua nas ruas de Letícia, 37 a mais do que em 2024, segundo dados da Secretaria Departamental de Saúde. Desse total, 35% são indígenas, a maioria homens jovens, em um cenário de microtráfico controlado pelo Comando Vermelho (CV), segundo confirmou um agente de segurança.

Da Colômbia ao Peru
Entre as comunidades indígenas da Amazônia colombiana, Bellavista, localizada no Peru, é conhecida por ser um dos principais epicentros do cultivo e da produção de coca. Trata-se de uma comunidade indígena Tikuna pertencente à província de Mariscal Ramón Castilla, na região de Loreto, que, segundo o relatório mais recente publicado em junho de 2025 pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), é a terceira comunidade nativa com maior área cultivada de folha de coca no país. A área plantada passou de 307 hectares em 2020 para 786 hectares em 2024.
Famílias indígenas da Colômbia viajam para Bellavista para trabalhar nas plantações de coca. Em geral, as mulheres ficam responsáveis por preparar as refeições servidas aos homens — pais e filhos — que colhem as folhas e permanecem vários dias no local. Elas também costumam ser vítimas de exploração sexual. Segundo Jonatas Soares, comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar em Tabatinga (AM), quem controla Bellavista são dois líderes do Comando Vermelho (CV), conhecidos pelos apelidos “Lobo” e “Meia-Noite”.
“Temos essa hegemonia do CV, e o comando brasileiro tem base em Bellavista. Quando falo em ‘comando’, refiro-me ao braço mais operacional da facção — produção e logística — porque a parte financeira é toda uma rede complexa de empresas envolvidas na lavagem de dinheiro”, explica Soares. Segundo seus cálculos, o negócio é extremamente lucrativo para o CV, que conseguiu impor controle total negociando com traficantes peruanos e controlando sobre quem pode ou não comprar coca na região: um quilo de coca comprado em Bellavista por US$ 300 é vendido nas ruas da Europa por entre 22.600 e 41.800 euros.
Para lavar o dinheiro do ouro, o CV não apenas financia o garimpo em rios como o Puré (na fronteira entre o Brasil e a Colômbia) e, mais recentemente, o Juruá (que nasce no Peru e atravessa a Amazônia brasileira), como também compra ouro diretamente dos garimpeiros. Eles também lavam dinheiro por meio do comércio do pirarucu, o maior peixe de água doce do rio Amazonas, que é comercializado legalmente. “Você pega esse dinheiro ilegal do ouro, troca na casa de câmbio, converte em reais… e pronto, está limpo”, explica Soares.
As viagens que muitos indígenas colombianos fazem para trabalhar na raspagem da folha de coca e para “quimiquear” — como chamam coloquialmente o trabalho nos laboratórios de processamento da folha de coca — em Bellavista e em outras localidades peruanas, como Islandia ou Santa Rosa, podem não ter volta. “Aqui a gente não vai por medo, porque pagam às pessoas que vão raspar e depois as matam. Vemos pessoas mortas no rio e sabemos o que isso significa”, conta Geni, a promotora de saúde.
Um jovem de Nazareth, cuja identidade protegemos por segurança, disse que de fato há jovens que vão ao Peru para raspar. “Alguns aceitam ir para o trabalho de raspagem, outros aceitam ir para o lugar maior, onde cozinham a folha”, conta. Outro jovem de 26 anos, que prefere não ser identificado, disse que já lhe ofereceram, mas que ele não vai. “Tenho amigos de outros lugares que já foram e me dizem para não ir. Você acaba se envolvendo com o crime e, se roubar alguma coisa, eles vão atrás de você até te encontrarem ou você fica preso lá na ‘panela’”. Mas, independentemente de irem ou não, jovens dessa e de outras comunidades indígenas acabam viciados, e têm tentado se tratar em Leticia.

Cura e doença
Juan* tinha 13 anos quando começou a fumar maconha. Ele morava em La Pedrera, uma comunidade indígena às margens do rio Caquetá, quando homens do Estado-Maior Central — uma dissidência das antigas FARC — vieram recrutá-lo. Sua avó, que cuida dele desde que sua mãe morreu, lembra que, um dia, os dissidentes estavam felizes porque levaram 15 crianças e organizaram uma festa para comemorar. Membros do grupo costumam se aproximar dos jovens enquanto eles jogam futebol ou estão na rua e lhes oferecem algo para beber e comer, ou dinheiro, e assim os atraem para que trabalhem transportando maconha ou pasta-base de cocaína.
Mas como Juan não quis ir, recebeu um ultimato: tinha 24 horas para desaparecer de sua cidade. Sua avó, então, o trouxe até Letícia e, por meio da Instituição Prestadora de Serviços de Saúde (IPS) Indígena Mallamas, ele acabou na IPS Nuevo Amazonas. O representante legal e gerente da instituição é o psiquiatra Henry Esteban Porras, um morador de Letícia que cursou medicina em Bogotá, voltou para atender consultas em psiquiatria básica e criou a IPS em uma casa abandonada onde antes ficava o bordel “Conejitas Show”. “Foi um bordel muito ambicioso que fracassou (…)”, diz Porras, sentado em seu escritório, onde tem três diplomas da Universidade Javeriana pendurados na parede, um MacBook Air e uns poucos enfeites.
Ele conta que, quando o centro abriu as portas, em 2017, foi implementado o “modelo de comunidade terapêutica”, no qual os reabilitados orientam os demais, com hierarquias entre os recuperados e os pacientes. Em suas palavras: “o método usa estratégias de terapia de choque, muito aversivas e, às vezes, humilhantes, empregadas para que deixem de consumir substâncias; por exemplo, colocavam cartazes nos pacientes ou usavam muito a prática de jogar água, o ‘balde de água’. Ou obrigá-los a fazer flexões, como se fossem militares”.
Jeffrey González, psiquiatra com especialização em dependência e saúde pública, explica que os tratamentos em comunidades terapêuticas surgiram na década de 1970 e que buscam reabilitar mais o comportamento do que a doença ou o transtorno. “Há muito tempo a ciência compreendeu que não se reabilita necessariamente o comportamento de uma pessoa com transtorno de uso de substâncias, pois reabilitar o comportamento não é o único aspecto necessário; é preciso também levar em conta fatores biológicos, psicológicos e sociais que vão além do comportamento”, explica.
Segundo Porras, o centro deixou de usar esse modelo em 2018. Atualmente, conta com uma equipe de três psicólogas, uma assistente social e uma terapeuta ocupacional, com as quais se aplica, segundo ele, uma “abordagem biopsicossocial, baseada em teorias e terapias de prevenção de recaídas, intervenção familiar e reabilitação social e comunitária, com uma perspectiva de direitos humanos”.
Amazon Underworld, porém, coletou sete depoimentos de jovens e parentes de jovens que estiveram no centro desde 2020, e a maioria denuncia maus-tratos. Juan*, por exemplo, entrou no centro em 2024 e conta que gritavam com ele. “Não gritam com a pessoa, mas com o viciado que a pessoa tem dentro de si; gritam que é o viciado que a pessoa tem dentro de si que se comporta mal, incomoda, rouba e tudo mais”.
Não gritam com a pessoa, mas com o viciado que a pessoa tem dentro de si; gritam que é o viciado que a pessoa tem dentro de si que se comporta mal, incomoda, rouba e tudo mais.
Juan*, jovem que esteve no centro para tratar dependência
Ele também lembra que, às vezes, o deixavam “um dia trancado, porque a gente incomodava, porque a gente gritava com o líder (…) nos deixavam sem lanches, sem ligações, sem visitas”.

A mãe de Pedro*, um jovem tikuna que esteve no centro em 2022, conta que foi visitar o filho um mês depois que ele chegou lá e que ele lhe disse que era obrigado a dormir de cueca em um colchão em um quarto isolado e que, às vezes, batiam em alguns colegas como “castigo”. O pai de Víctor*, que esteve três vezes no centro, também conta que obrigavam seu filho a dormir nu e “jogavam água nele”. “Quando descobri essa dura realidade, parei de mandar jovens para lá”, diz ele.
Ramiro*, outro jovem de 26 anos, relata que acabou caindo no vício quando vendia balas para um membro do Comando Vermelho em troca de pasta-base de cocaína. Em 2022, ele decidiu entrar no centro para evitar ser perseguido. Embora tenha dito que não se sentiu maltratado, ele falou sobre o caso de um jovem que fumou maconha no centro. Segundo seu depoimento, a “punição” consistiu em trancá-lo de cueca em um quarto com um colchão e obrigá-lo a escrever repetidamente em um caderno: “Não devo fumar maconha, não devo fumar maconha no centro”. “Essa punição é normal lá dentro. Todo mundo que faz besteira, que briga, que rouba, recebe punições lá; quem mexe nas coisas dos outros, quem faz algo errado, digamos assim”.
“O garoto chegou e me disse: ‘Mãe, eu fui embora porque não gostei do lugar, eles maltratam a gente psicologicamente’”, conta outra entrevistada que não identificamos para proteger sua identidade. Depois, ela mandou outro filho, que também acabou fugindo do centro. “Sofri maus-tratos quando tentei fugir pela primeira vez. Me deram três comprimidos de 100 miligramas, num total de 300 miligramas. Eu me senti em coma e foi aí que fiquei com raiva. Fiquei paralisado, metade do meu corpo não funcionava, mas o cérebro estava ativo e pensei: ‘Vou me recuperar e pular aquela cerca para dar o fora daqui’”, diz Octavio*, que de fato conseguiu fugir do centro. Sua mãe pensou em processar a instituição: “por que os meninos foram embora? Por que não me entregaram eles saudáveis?”, questiona a mulher.
Porras reconhece que, nos últimos anos, recebeu reclamações sobre um tratamento considerado pelos pacientes como injusto ou agressivo, mas esclareceu: “Em geral, reclamações de maus-tratos, não. Muito poucas. Reconheço minha parcela de responsabilidade e os erros que possam ter ocorrido na minha instituição”.
“Nós tínhamos uma sala de reflexão, que era um cômodo onde, se você estivesse muito agressivo, ficava lá, mas acabamos com isso mais ou menos antes da pandemia”, diz Porras. Segundo ele, ter essa “sala de reflexão” era uma herança do modelo terapêutico, mas afirma que isso acabou; hoje ela é chamada de sala 5 e é uma sala normal. Ele também diz que usar essa sala “não era uma metodologia de punição, era de controle da agressão, da agressividade”.
Quando questionado sobre o motivo pelo qual muitos jovens que frequentam o centro não se recuperam, Porras diz que “mesmo que você intervenha junto à população com patologia de dependência grave, as taxas de recuperação raramente ultrapassam 50-60%, e isso depende muito das características da patologia”. “Tecnicamente, no Amazonas, não temos modelos de atendimento em massa para a população com dependência química”. Ele também admite que, às vezes, a própria equipe tem sido uma fonte de perigo e que já teve que demitir pessoas. “Tive que demitir um agente de segurança porque, depois que os pacientes saíam do tratamento, ele entrava em contato com eles e lhes oferecia trabalho na prostituição”.
Porras também é conhecido por ser sobrinho de Evaristo Porras, um famoso traficante colombiano, chefe do Cartel do Amazonas, que morreu em 2010. “Posso te dizer que minha comunidade nunca me tratou mal por ser sobrinho dele”, afirma. Ele conta que viu o tio apenas uma vez, quando tinha 5 anos, porque “ele passou toda a minha infância preso. (…) Na Colômbia, quem não tem um parente que já esteve envolvido com o narcotráfico? Acho esse estigma muito lamentável”, diz.
Outras fontes consultadas também apontam que ele conseguiu um contrato — de outubro de 2024 até 30 de janeiro de 2025— no valor de 4,5 bilhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 7,2 milhões), o maior já assinado por essa IPS com o governo local, por ser parente de Ramiro León, companheiro da congressista liberal Karina Bocanegra, uma política influente do departamento aliada do atual governador Óscar Sánchez. Esse contrato foi assinado para criar e fortalecer redes de apoio à saúde mental, capacitar as comunidades e realizar exames de triagem em Leticia, Puerto Nariño e nas áreas não municipalizadas do departamento, com o objetivo de produzir um estudo sobre saúde mental, abrangendo diferentes faixas etárias, que servisse de base para o governo local e que entrevistou mais de 10 mil pessoas. Porras afirma que ganhou esse contrato porque a IPS foi a única a se candidatar por ser a única IPS de saúde mental.
Embora a IPS tenha recebido um adiantamento de 50% (cerca de R$ 3,6 milhões), menos de R$ 3 milhões foram gastos, o que obrigou a IPS a devolver o restante. Sandra Viviana Arias, profissional responsável pelo programa de saúde mental do governo local e supervisora do contrato, disse ao Amazon Underworld que a IPS gastou apenas essa quantia porque “o contrato foi executado apenas em todas as comunidades indígenas de Leticia e Puerto Nariño, mas não foi possível abranger todo o departamento devido aos prazos. Por isso, o pagamento não foi integral”. Porras afirma que “em termos orçamentários, a operação foi mais barata do que o previsto. Cobriu todo o ‘trapézio amazônico’ (como a região é conhecida, devido a seu formato geográfico), que concentra 70% da população do departamento, mas não abrangeu a área não municipalizada e, por isso, foi mais barata”.
Outra opção para muitos jovens na tríplice fronteira com problemas de dependência química é ingressar em fundações religiosas, nas quais, com a fé de que um ser superior os ajudará, apostam em outra saída.

Glória a Deus
“Deus os abençoe, rapazes. Digam ‘glória a Deus’”, diz o pastor Arley Tavares, fundador no Brasil da Fundación Cristiana Rescatados por su Sangre (Fundação Cristã Resgatados pelo Seu Sangue), que se apresenta como uma organização sem fins lucrativos criada em 2010 em Fusagasugá, um município próximo à capital da Colômbia, Bogotá. Segundo o site da instituição, a fundação oferece “processos de formação e restauração para moradores de rua, em consonância com um trabalho profissional que busca a integralidade do ser humano”. Sua abordagem é a teoterapia, uma prática de tratamento para o uso de substâncias psicoativas por meio da pregação do evangelho de Cristo.
Tavares é colombiano e se apresenta como um ex-dependente que passou 27 anos viciado em drogas. Ele passeia pela sede da fundação – localizada em um bairro de Tabatinga (AM) controlado pelo Comando Vermelho – que antes era uma boca de fumo. Enquanto fala, caminha em direção a um pátio onde há quatro homens, todos com um crachá da fundação pendurado no pescoço, que respondem em coro assim que o veem: “Deus o abençoe”.
“Esses rapazes acabaram de chegar de uma coleta de alimentos”, diz ele. “Aproveito para dizer que este é um trabalho feito com amor, com carinho. Aqui é voluntário; ninguém é obrigado”, diz ele, olhando para a câmera. “Aqui nos falaram da palavra de Deus e, graças a Deus, ficamos sabendo desta fundação, porque é Deus quem transforma e aqui estamos”, diz um dos rapazes.
Sob o lema bíblico “nada é impossível para Deus”, a fundação conta hoje com mais de 40 sedes, a maioria na Colômbia, mas também no Brasil, Equador e Panamá. Ela chegou a Letícia em 2016, em uma casa bem próxima ao IPS Nuevo Amazonas. Segundo Tavares, até 2019, a fundação atendeu 110 pessoas nesse local, quando fechou as portas em Letícia para reabri-las em Tabatinga.
Dois funcionários públicos de Letícia, que pediram para não serem citados, afirmaram que a fundação fechou as portas porque estava sendo investigada, sob a acusação de trazer pessoas de outras regiões do país para ingressar na instituição, algo que Tavares nega. A Secretaria de Saúde do Governo do Departamento do Amazonas, na Colômbia, informou que a fundação não está registrada e, por isso, não pode fornecer informações sobre os motivos pelos quais ela deixou de funcionar em Letícia.
Em 2019, a fundação chegou em Tabatinga em meio a uma guerra sangrenta entre facções no Brasil. De um lado estava o grupo Os Crias, que recebia apoio do Primeiro Comando da Capital (PCC), e, do outro, o Comando Vermelho (CV). Em 2023, o CV venceu essa guerra e agora controla vários bairros de Tabatinga, incluindo o bairro onde a fundação está localizada. Nas paredes das casas vizinhas, é possível ver pichações das iniciais CV.

É sabido que o Comando Vermelho oferece aos membros da facção uma única saída possível: frequentar igrejas. “Não há nenhum vínculo institucional; nenhuma igreja está formalmente ligada ao CV, isso não existe”, explica Soares, comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar em Tabatinga. “O que existe são normas internas do Comando Vermelho que estabelecem que, se alguém quiser abandonar a vida criminosa, só poderá sair do grupo indo a uma igreja. Mas é preciso frequentar a igreja e viver de verdade a fé (…) porém, se membro depois for pega consumindo drogas, bebendo álcool ou tendo um comportamento incompatível com alguém que segue a palavra do Senhor, será morto”. Em Benjamin Constant, um município a 20 quilômetros de Tabatinga, há líderes de igrejas evangélicas que foram ex-membros do CV, como já publicou o El País.
Essa relação informal entre igrejas e facções é algo que também ocorre no presídio de Tabatinga. Segundo Walmir Barbosa, coordenador da Pastoral Carcerária da Diocese de Alto Solimões, “aqueles que vão à igreja, os que realmente mudam, são deixados em paz. É chamada de ‘cela da bênção’”.
Tavares fundou a “Rescatados por su Sangre” em meio a esse território complexo e diz que, com o CV, “não temos problema porque a fundação é muito conhecida. O que eles nos pedem? É como a polícia: o que ela me pede? Que os rapazes não causem danos, que haja bom comportamento, que haja um bom testemunho (…) Não nos preocupamos tanto em saber se eles comandam uma área, porque, na verdade, isso não é da nossa competência”.
A “Rescatados por Su Sangre” foi apontada em Letícia e Tabatinga como a “fundação do amendoim”, pois seus membros vendem amendoim nas ruas e no porto de Letícia — algo que alguns moradores veem como uma forma de expô-los, já que acabam ganhando dinheiro com as vendas em áreas onde é fácil conseguir drogas. Mas Tavares explica que fazem isso para se sustentar.
—“A fundação não vende apenas amendoim, e todas as fundações vendem, não só esta”.
—Você não acha que a venda os expõe?
—“Pode ser, claro que sim, mas não temos outra opção. Quem paga o aluguel desta casa? Se a família dele não paga uma mensalidade, então, como vamos sustentar a casa? Como vamos arcar com o aluguel da sede?”.

No porto de Leticia, é comum ver jovens vendendo amendoim e portando crachás com o nome da fundação. Eles vendem, segundo um deles, a 2.000 pesos (cerca de R$ 3) o pacote, sendo 500 pesos para eles e 1.500 para a Fundação. “Ganhamos 500 pesos por pacote de amendoim; é como um trabalho tanto para mim quanto para a obra”, diz um deles. “Eles mandam o dinheiro para diferentes lugares onde estão abrindo mais sedes, para que elas se sustentem e paguem o aluguel”, acrescenta, referindo-se ao dinheiro que deve entregar à fundação.
Nas comunidades indígenas da tríplice fronteira, a milhares de quilômetros dos portos europeus onde um quilo de cocaína pode ser vendido por dezenas de milhares de dólares, a riqueza gerada pelo tráfico de drogas nunca chega.
A crise de consumo que enfrentam não é apenas uma consequência do tráfico de drogas, mas também faz parte de seu funcionamento. As mesmas comunidades indígenas que foram utilizadas para cultivar, transportar ou processar coca hoje se tornaram um mercado para as drogas que circulam pelo rio Amazonas. Enquanto as organizações criminosas consolidam seus negócios e seu poder, os jovens indígenas arcam com o custo mais alto: ficam presos entre o recrutamento, o consumo e a violência. Até hoje, as respostas do Estado continuam sendo insuficientes.
Mas, mesmo em meio a esse cenário, há quem tente romper esse ciclo. Promotoras de saúde como Geni Catachunga continuam percorrendo as comunidades para identificar a tempo os jovens em situação de risco. Líderes indígenas organizam guardas comunitárias para impedir a entrada de traficantes. Famílias e comunidades tentam evitar que seus filhos cruzem o rio em direção às plantações de coca no Peru.
São esforços modestos diante de economias criminosas que movimentam milhões de dólares e atravessam países. Sem uma resposta estatal sustentada, dificilmente serão suficientes diante de um problema de saúde pública que carece de respostas baseadas na prevenção e na redução de danos. Mas mostram que, na Amazônia, a disputa não é apenas pelo controle das rotas do tráfico de drogas: é também pelo futuro de comunidades inteiras.
*Os nomes foram alterados para proteger a identidade das fontes.
O Amazon Underworld é uma aliança jornalística colaborativa que investiga as tendências do crime transnacional, economias ilícitas e seus impactos no meio ambiente e nas comunidades amazônicas, e está integrada por Armando.Info (Venezuela), Al Margen (Peru), InfoAmazonia (Brasil), La Liga Contra el Silencio (Colômbia) y RAI (Bolívia).