Análise da InfoAmazonia mostra que milhares de pessoas vivem em zonas classificadas como de alto ou muito alto risco geológico na região amazônica, muitas delas em moradias precárias, próximas a encostas instáveis, áreas alagáveis ou margens de rios.
Inundações, alagamentos, deslizamentos e erosões estão cada vez mais frequentes na Amazônia brasileira. Esses eventos hidrogeológicos têm sido agravados nos últimos anos por uma combinação perigosa entre mudança climática, desmatamento e ocupação desordenada do solo. Com secas e cheias cada vez mais frequentes e intensas, os amazônidas que vivem em áreas de risco enfrentam diferentes camadas de vulnerabilidade, em meio a desigualdades sociais históricas e falta de acesso a serviços e infraestrutura urbana.
O especial “Vulneráveis do Clima”, produzido pela InfoAmazonia, mapeia quem são os mais expostos a esses desastres na região. As pessoas vulneráveis ao clima na Amazônia são majoritariamente mulheres (55%), jovens (51% têm menos de 30 anos) e pardas ou pretas (81%). E estão mais concentradas em favelas e comunidades urbanas na Amazônia (45%) que nas áreas de risco do restante do país (22%).
As áreas de risco são definidas oficialmente pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), com base em vistorias de campo realizadas por equipes técnicas em parceria com prefeituras, a Defesa Civil e outras entidades locais. Esses territórios são classificados a partir de critérios como a morfologia do terreno, sinais de instabilidade, proximidade com corpos d’água e a vulnerabilidade das construções.
Metodologia
Os resultados foram possíveis a partir do cruzamento inédito entre dados do Censo 2022 (IBGE) e o mapeamento de áreas de risco do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
A análise levou em conta critérios como idade, gênero, raça e condições de moradia, como acesso ao esgotamento sanitário e à coleta de lixo. Os dados públicos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificam áreas de risco geológico em municípios selecionados segundo critérios da Lei nº 12.608/2012 e solicitações da Defesa Civil. Até a data da análise, 374 municípios da Amazônia Legal haviam sido mapeados, dos quais 290 apresentavam áreas classificadas como de risco alto ou muito alto.
Estimativa da população em risco
Como os mapas não indicam diretamente o número de moradores em risco, foi feita uma estimativa proporcional com base na sobreposição espacial entre os polígonos de risco e os setores censitários do IBGE. Por exemplo: se um setor tem 100 habitantes e 30% de sua área está dentro do polígono de risco, estima-se que 30 pessoas estejam expostas.
Para comparação, também analisamos os setores censitários sem nenhuma sobreposição com áreas de risco, considerando toda a sua população.
Análise territorial e socioeconômica
Os dados foram organizados por município, e foram incluídas variáveis do Censo sobre tipo de setor, perfil demográfico e presença de serviços básicos. Isso permitiu identificar quais populações vivem em condições mais vulneráveis às ameaças geológicas.
Processamento dos dados
O trabalho foi conduzido com o uso de pacotes da linguagem R, como dplyr e sf. Os passos incluíram:
- Padronização e limpeza das bases do SGB e do IBGE;
- Cruzamento espacial entre áreas de risco e setores censitários;
- Cálculo proporcional da população afetada;
- Classificação das áreas por tipo de risco e densidade demográfica;
- Visualização em mapas, tabelas e gráficos.
Todos os scripts e bases utilizadas estão disponíveis neste repositório público, garantindo a transparência e permitindo a replicação ou aprofundamento da análise por outros pesquisadores e jornalistas.
Colaborações e consultoria técnica
Esta série especial contou com a consultoria técnica de Elton Rodrigo Andretta, geólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), que acompanhou o planejamento e a validação metodológica da análise, esclarecendo conceitos técnicos e sugerindo caminhos de investigação.
Além disso, foram convidados veículos de comunicação da Rede Cidadã InfoAmazonia com atuação local e experiência em cobertura de meio ambiente e direitos humanos para desenvolver reportagens com base nos dados levantados. Participaram da produção os seguintes parceiros: Agência Carta Amazônia (PA), Pulso Amazônico (AM), Vocativo (AM), o Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e Voz da Terra (RO).
Fontes da primeira reportagem
| Nome | Representação | Lattes/Linkedin |
| Francisca dos Santos | Ex-moradora da Comunidade Fazendinha | |
| Markatison Quintino | Ex-morador da Comunidade Fazendinha | |
| Mariele da Costa | Moradora da Comunidade Fazendinha | |
| Elton Andretta | Serviço Geológico do Brasil (SGB) | http://lattes.cnpq.br/8671520570628513 |
| Josiane Froes | Presidente da Comunidade Fazendinha | |
| Najara Amaro | Universidade Federal do Pará (UFPA) | http://lattes.cnpq.br/7366435253513441 |
| Fernando Monteiro | Universidade Federal do Amazonas (Ufam) | http://lattes.cnpq.br/7592034502018053 |