Postado emOpinião / Mudança climática

Entre páramos, lavrados e cerrados

A seca extrema que a Amazônia enfrenta também é registrada em outras regiões da América Latina. Olhar para a floresta inevitavelmente nos leva a discutir os biomas que a circundam.

Bogotá é uma linda cidade nas serras andinas. Na capital colombiana, é bonito ver como a luz do sol toca gentilmente gigantes montanhas verdes. Essa vegetação é como uma grande esponja. Trata-se de um páramo, “a fábrica de água.”

Um páramo é um ecossistema formado por um terreno encharcado, muitos musgos e arbustos. Os maiores páramos se encontram exatamente nos Andes colombianos. Em Bogotá, nunca se imaginou que faltaria água por estar abençoada por estas esponjas naturais. Mas tudo mudou: em 2023, os bogotanos foram submetidos a um racionamento. Até hoje, eles ficam 24 horas sem água a cada 15 dias.

Quito, outra cidade encantadora nos Andes, vive o mesmo drama. Ainda que rodeada por vulcões nevados e maravilhosos páramos, tem racionamento de água e luz. O fornecimento ocorre em apenas horas determinadas do dia. Como no Brasil, recursos hídricos e energia no Equador estão intimamente ligados. Como não há água, as hidrelétricas funcionam abaixo de sua capacidade. 

Em Bogotá, nunca se imaginou que faltaria água. Mas esta cidade andina enfrenta agora racionamento. Foto: Gustavo Faleiros/InfoAmazonia

A causa apontada para tais eventos extremos é El Niño de alta intensidade, que perdura desde o ano passado. Mas não só. O desmatamento e a ocupação desordenada de algumas destas áreas de nascentes, como os páramos, têm contribuído imensamente para as secas enfrentadas na Colômbia e no Equador.

Me chamou muito a atenção durante a seca extrema ocorrida na Amazônia brasileira, em 2023, o fato de que não falamos sobre países vizinhos. Bastaria uma rápida pesquisa para notar que, nos últimos dois anos, notícias nos contam que os Andes também estão passando por uma seca sem precedentes. E se não houver chuva (e neve) nas nascentes, faltará água aqui, rio abaixo!

Olhar para a Amazônia inevitavelmente nos leva a falar dos biomas que a rodeiam. As cabeceiras dos rios que alimentam os potentes rios da planície estão nos Andes, no Cerrado do Centro-Oeste brasileiro e nos lavrados das chapadas (tepuis!) que compartilham o estado Roraima e a Venezuela.

Olhar para a Amazônia inevitavelmente nos leva a falar dos biomas que a rodeiam. As cabeceiras dos rios que alimentam os potentes rios da planície estão nos Andes, no Cerrado do Centro-Oeste brasileiro e nos lavrados das chapadas (tepuis!) que compartilham o estado Roraima e a Venezuela.

Gustavo Faleiros

Desde 2020, um grupo de pesquisadores, reunidos sob a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), tem utilizado como referência um mapa que expande os limites da Amazônia. Ao invés de retratar a Amazônia como uma região de 6 milhões de km² de floresta, a RAISG reconhece a Amazônia como um território de 8,5 milhões de km², “considerando toda a Bacia Amazônica e trechos de transição com outros biomas, como Andes, Cerrado, Chaco e Pantanal”.

Na semana passada, o projeto MapBiomas divulgou um levantamento que poderia (ou deveria) mobilizar novas forças-tarefas políticas e preventivas, com esforços coordenados: o Cerrado ultrapassou a Amazônia como bioma com a mais alta taxa de desmatamento.

Assim como os Andes são a fonte de água para a porção ocidental da Amazônia, o  Cerrado é a caixa da água do Brasil! Portanto, a proteção da floresta só ocorrerá se protegermos a savana.

Enquanto estamos chocados com a escala da devastação no Rio Grande do Sul, a seca recorde registrada na Amazônia no segundo semestre de 2023 já parece uma lembrança distante. Não deveríamos esquecê-la tão facilmente. Até porque não surpreenderá se muito em breve, ela voltar a se repetir.

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Gustavo Faleiros

Gustavo Faleiros é co-fundador da InfoAmazonia e editor de Investigações Ambientais do Pulitzer Center.

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