Em 2022, o Mato Grosso de Mauro Mendes (União Brasil) foi o 3o estado com mais registros de áreas desmatadas e 2o em focos de calor, de acordo com o Inpe; em setembro, quando ele elogiou a preservação, MT concentrou 74% da área degradada na Amazônia.

Aliado de Jair Bolsonaro (PL), o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), reeleito no primeiro turno com 68,4% dos votos, defendeu em campanha que o agronegócio mato-grossense é exemplo de sustentabilidade mundial. “Mato Grosso tem 62% de área preservada e produzimos em apenas 38%. Ninguém no mundo tem aquilo que nós temos no Brasil, disse, em sabatina realizada em setembro. O estado é o campeão brasileiro em produção de grãos, mas esse não é o único ranking que domina. Naquele mesmo mês, o Mato Grosso concentrou 74% da área degradada na Amazônia, segundo o  Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon.

Em coro com YouTubers bolsonaristas, Mendes também criticou a União Europeia (UE) pela aprovação de uma lei para combater o desmatamento que proíbe a compra de 14 produtos originários de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2019.  “A conversa desses europeus é uma conversa que a gente precisa analisar bem, porque o estado de Mato Grosso é a região do planeta que mais produz alimento e respeita o meio ambiente”, disse.

Vinícius Mendonça / Ibama
Prevfogo, do Ibama, combate incêndio florestal no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, em agosto de 2016. Em setembro de 2022, o estado foi campeão em áreas degradadas da Amazônia, com 74%

De janeiro a junho de 2022, o Mato Grosso — um dos nove estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal — foi o terceiro estado que mais teve registros de alerta de áreas desmatadas na floresta amazônica: foram 845 km2, segundo os alertas de desmatamento do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real), operado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Entre janeiro e outubro, ficou em segundo lugar entre os estados com mais focos de calor ativos (26.740) no país, segundo o BDQueimadas do Inpe. No mesmo dia em que Mendes falava, 66 focos estavam ativos em solo mato-grossense.

“Se olharmos a série histórica sobre o fogo do MapBiomas, veremos que, desde 1985, 57% de Mato Grosso foi atingida pelo fogo pelo menos uma vez nesse período. Isso já acarreta a degradação da vegetação nativa. Portanto, esse ‘preservado’ não é tão preservado assim”, afirma Vinícius Silgueiro, coordenador de Inteligência Territorial do Instituto Centro de Vida (ICV).

Ele explica que o conceito de preservação implica em um status da vegetação no qual não houve intervenção humana, o que não se aplica à realidade mato-grossense. “Somente em 2020, Mato Grosso teve 9,4% da área do estado atingida pelo fogo, aproximadamente 8,5 milhões de hectares. Uma boa parte dessa área é de vegetação nativa”, completa Silgueiro, mencionando dados do ICV.

Como fazemos o monitoramento:

O projeto Mentira Tem Preço, realizado desde 2021 pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA, monitora e investiga desinformação socioambiental. Nas eleições de 2022, checamos diariamente os discursos no horário eleitoral de todos os candidatos a governador na Amazônia Legal. Também monitoramos, a partir de palavras-chave relacionadas a justiça social e meio ambiente, desinformação sobre a Amazônia nas redes sociais, em grupos públicos de aplicativos de mensagem e em plataformas.

O termo “preservado” também é questionado por Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).   “A qualidade ecológica dessas áreas já é bastante baixa em vários lugares. É preciso desafiar esse conceito de que as florestas estão preservadas”.

Em setembro de 2022, o Mato Grosso concentrou 74% da área degradada na Amazônia, com 3.865 km2 de florestas derrubadas, segundo o  Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon.

Procurada, a assessoria de Mauro Mendes não respondeu até a publicação desta reportagem.

Expansão de áreas agricultáveis

Quanto ao agronegócio, os dados do Monitoramento da Cobertura e Uso da Terra do IBGE mostram que, de 2000 a 2018, o Mato Grosso apresentou a maior expansão de área agrícola do país, com 50.616 mil km² de novas áreas agricultáveis —e foi o segundo no ranking de expansão da área de pastagem, com 45.449 mil km². O estado também foi o segundo colocado em redução de área de vegetação florestal (-71.253 mil km²) e campestre (-22.653 km²), no mesmo período. 

Barreto afirma que há dois fatores a serem considerados sobre a abertura excessiva dessas áreas. Um é o mau uso ou manejo; o outro, a abertura de áreas de forma especulativa. Usando como base os dados do MapBiomas, ele aponta que o pasto ocupa a maior parte da área desmatada. 

Somente em 2020, Mato Grosso teve 8,4% da área do estado atingida pelo fogo, aproximadamente 8,5 milhões de hectares. Uma boa parte dessa área é de vegetação nativa

Vinícius Silgueiro, coordenador de Inteligência Territorial do Instituto Centro de Vida (ICV)

Essa afirmação é confirmada por um estudo realizado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), que aponta que as áreas de pastagem ocupam 75% do que foi desmatado em florestas públicas invadidas da Amazônia no ano de 2020, o que corresponde a cerca de 2,6 milhões de hectares.

“Uma parte significativa é pastagem para o gado. No Mato Grosso há muita produção de monoculturas como soja e algodão. Nas áreas desmatadas, existem vários motivos para que o uso seja abaixo do potencial”, explica Barreto. “Uma parte do desmatamento tem sido bem especulativa, porque quanto mais terra a pessoa ocupa, mais vai conseguir titular depois.”

O discurso de preservação contrasta, também, com a iniciativa da Frente Parlamentar Agropecuária de excluir o Mato Grosso da Amazônia Legal, projeto de lei apresentado em fevereiro de 2022 pelo deputado Juarez Costa (MDB-MT). Ele defende que o estado faz parte do Cerrado e que, por isso, deveria manter apenas 35% de áreas nativas —atualmente, a área de reserva legal em áreas agrícolas é de 80%.

O governador Mauro Mendes já se declarou favorável a essa exclusão, desde que o estado não perca os benefícios federais que recebe por estar na Amazônia, como a isenção de impostos para a instalação de indústrias.

Exploração de madeira não autorizada

Outro dado relevante que contribui para o entendimento do que é “área preservada” no Mato Grosso é a pesquisa publicada pela Rede Simex (Imazon, Idesam, Imaflora e ICV) que mapeou, por meio de imagens de satélite, a extração de madeira em 377 mil hectares da Amazônia entre agosto de 2020 e julho de 2021. 

Silgueiro diz que o Mato Grosso é responsável por sete em cada dez hectares de florestas onde há exploração madeireira não autorizada na Amazônia. A atividade irregular abrangeu 103.668 mil hectares de florestas no estado, o  que corresponde a 37% do total da exploração mapeada em 2021. Houve um aumento de 17% na área explorada ilegalmente em relação a 2020. No período analisado, o estado teve 173 mil hectares com extração madeireira permitida, 63% da atividade legalizada na Amazônia.

Veja o infográfico em detalhes

“Por meio do Manejo Florestal, pode haver uma exploração de madeira autorizada e legal, afinal essa é a Cadeia da Madeira que deveria ser toda legal. Mas tem um percentual alto de áreas que são exploradas sem autorização. O estudo aponta que mais de 70% desse percentual ilegal ocorre em Imóveis Rurais Privados. E, em segundo lugar, de forma bem preocupante, em Terras Indígenas, que em MT tiveram um aumento de 70% na exploração de madeira ilegal, em relação ao ano de 2020”, afirma Silgueiro.

Nas áreas protegidas, 21 mil hectares foram explorados irregularmente, o que corresponde a 15% de toda a área com atividade não permitida mapeada na Amazônia entre agosto de 2020 e julho de 2021. O território indígena mais prejudicado foi o Aripuanã, em Mato Grosso, onde mais de 4 mil hectares tiveram extração madeireira.

Quem é Mauro Mendes

Mayke Toscano / Secom-MT
Mauro Mendes (União Brasil), governador reeleito do Mato Grosso

Nascido em Anápolis (GO), o governador reeleito do Mato Grosso é engenheiro eletricista. Empresário do ramo de metalurgia em Cuiabá, foi presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt) e do Sistema Sesi/Senai. 

Sua trajetória política começou quando aderiu ao movimento estudantil aos 20 anos. Antes de ser eleito prefeito de Cuiabá, em 2012, Mendes já havia disputado, sem sucesso, eleições para ser prefeito da capital, em 2008, e governador do estado, em 2010.

Em 2018, deixou o PSB (Partido Socialista Brasileiro) e se filiou ao Democratas, partido que em 2021 se fundiu com o PSL (Partido Social Liberal) e deu origem ao União Brasil. Reeleito governador em 2022, Mauro Mendes declarou apoio a Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais.


Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço – especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora Fala. A iniciativa é parte do Consórcio de Organizações da Sociedade Civil, Agências de Checagem e de Jornalismo Independente para o Combate à Desinformação Socioambiental. Também integram a iniciativa o Observatório do Clima (Fakebook), O Eco, A Pública, Repórter Brasil e Aos Fatos.

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