No caso de outros grandes grupos, como de apoiadores de Lula e ambientalistas, o índice cai para em torno de 60% e 55% respectivamente. PlenaMata analisou mais de 950 mil tuítes com temática ambiental entre agosto e outubro deste ano.

Em qualquer tema de interesse social ou ambiental debatido no Twitter, um padrão é visível quando se coleta e analisa os dados: os bolsonaristas debatem o tema praticamente apenas entre si, multiplicando sobretudo as postagens de seus influenciadores e canais próprios de comunicação. 

Trata-se de uma espécie de “Bolhanaro”: 97% das interações ocorrem entre contas que interagem apenas dentro dela – em outros grandes grupos que debateram os temas fora da bolha, como o dos apoiadores de Lula e o de ambientalistas, esse índice fica em torno de 60% – leia mais detalhes no decorrer da reportagem. 

Isso facilita a multiplicação de desinformação. A disseminação dos mesmos temas, muitas vezes com o auxílio de robôs, aumenta o volume e dá a impressão de existência de uma realidade paralela. 

Para identificar essas engrenagens da Bolhanaro, InfoAmazonia e PlenaMata analisaram 954.700 tweets sobre as palavras amazônia, desmatamento, garimpo e queimadas, publicados entre 23 de agosto e 22 de outubro de 2022, e a partir de mais de 800 mil interações entre contas foi possível observar essa dinâmica de rede.

Nessa bolha, como demonstrou o projeto Mentira Tem Preço, circulam inverdades como a de que o Brasil tem a melhor lei ambiental do mundo, com 80% da Amazônia preservada. 

Para a Bolhanaro, termo que a reportagem optou por chamar a bolha bolsonarista nas redes sociais, quem fala de falta de responsabilidade ambiental por parte do agronegócio demoniza a produção de alimentos. Para eles, mesmo que seja mentira, o governo Bolsonaro criou uma espécie de indígena 2.0 e as organizações não governamentais são um perigo iminente

Embora a maior parte da desinformação bolsonarista circule no YouTube e em canais de mensagens instantâneas nos aplicativos Telegram e Whatsapp, o Twitter permite verificar a dinâmica das conexões quando a desinformação emerge para o debate público fora dos espaços “próprios” da bolha.

Ecossistema próprio

“Quando se olha as URLs compartilhadas, é perceptível a construção de um ecossistema informativo próprio”, diz Marcelo Alves, professor da PUC-Rio e pesquisador do assunto. Ele aponta a alta incidência de links de websites de extrema-direita, como Terra Brasil Notícias e Jornal da Cidade Online. O noticiário da imprensa tradicional chega, mas numa “curadoria seletiva”, repercutida para caracterizar a imprensa como um antagonista, diz o pesquisador. “É exatamente esse fenômeno que estimula a polarização.”

O noticiário da imprensa tradicional chega, mas numa ‘curadoria seletiva’, repercutida para caracterizar a imprensa como um antagonista.

Marcelo Alves, professor da PUC-Rio

Raquel Recuero, pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), tem analisado o discurso bolsonarista nas redes há anos e, em artigo recente, ela aponta uma “forte narrativa conspiracionista resultante desses discursos”. Esse tom conspiratório, diz, colabora com a extremização do debate.

No Twitter, as contas da Bolhanaro até interagem provocativamente com outros grupos, mas essa ação é muito menos frequente do que a de dar engajamento ao conteúdo postado pelos líderes de opinião da bolha. Esse engajamento induzido faz com que termos de interesse da bolha entrem para os trending topics e, com isso, eles acabam se tornando notícia nas principais publicações brasileiras. 

“A mecânica de interação empreendida pelos perfis da rede impacta na rapidez com que um conteúdo se espalha e na dinâmica com que o ecossistema responde a ataques e conteúdos prejudiciais à sua agenda ou liderança”, escreveu o advogado Cristiano Zanin em denúncia apresentada à Justiça Eleitoral, em 16 de outubro. “A mecânica de ocupação de espaço virtual empreendida pelo sistema de desinformação é capaz de rapidamente fazer chegar a milhões de pessoas um determinado conteúdo desinformador.”

Pesquisadores como Chris Bouzy, do BotSentinel, e Janna Ocelli Omena, do Public Data Lab, já apontaram uma alta prevalência de robôs nesse engajamento, ainda que também haja muita militância tradicional de redes sociais. 

Heloísa Massaro, do InternetLab, colabora com pesquisadores do Brasil inteiro e considera difícil diferenciar o que é uma “estratégia planejada” e o que é um comportamento orgânico nas redes. “Esses grupos têm muitas pessoas engajadas, e o que a gente observa é que as as pessoas próximas da campanha têm cada vez um papel mais de direcionamento de sinalização, se está indo para o lado certo ou não, do que propriamente de controle de definição de rota, porque enfim são muitas pessoas”, diz. 

Esses grupos têm muitas pessoas engajadas, e o que a gente observa é que as as pessoas próximas da campanha têm cada vez um papel mais de direcionamento de sinalização, se está indo para o lado certo ou não.

Heloísa Massaro, do InternetLab

A engrenagem da Bolhanaro

Podemos representar visualmente a dinâmica da Bolhanaro a partir das centenas de milhares de interações coletadas pela ferramenta Trendsmap: Ferramenta de monitoramento global de postagens feitas no Twitter, que permite busca por palavra e local. 

Na ferramenta de visualização Gephi: Programa analítico que permite visualizar o grau de afinidade entre pares de usuários de uma rede, que calcula a proximidade entre perfis a partir de suas interações, organizando-os em grupos, a Bolhanaro aparece falando quase em uníssono, todos na mesma cor. Aqui, está em laranja. 

É um padrão semelhante ao observado nas interações sobre a Amazônia nos primeiros debates eleitorais.

Dos 52.904 perfis cujas interações foram captadas pelo Trendsmap nas dez semanas analisadas, a Bolhanaro é formada por 13.413, ou pouco mais de um quarto. O Trendsmap conta como interações as respostas e retuítes. 

No gráfico, ela aparece quase perfeitamente esférica porque a esmagadora maioria das interações ocorre dentro dela própria. Quando um grupo tem mais interação com outros, ele aparece mais próximo e seus contornos só são distinguíveis quando se colore os pontos.

“A bolha bolsonarista é superconcentrada e autorreferente”, diz Vitor Piaia, pesquisador da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas (FGV ECMI), ao comentar as interações durante os debates. 

A bolha bolsonarista é superconcentrada e autorreferente.

Vitor Piaia, pesquisador da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas (FGV ECMI)

Se formos comparar o padrão de interação entre os participantes dessa bolha aos dos outros dois maiores grupos – que, para simplificar, chamaremos de Lulaverso e Amigos do Ambiente, a autorreferência é esmagadora: 97% das interações da Bolhanaro ocorrem dentro do próprio grupo, contra 60% no Lulaverso e 55% nos Amigos do Ambiente. 

Isso aparece especialmente quando agregamos todas as interações de cada grupo e excluímos as ocorridas internamente. A Bolhanaro se torna um ponto minúsculo, e a maior parte da conversa acontece entre os dois outros grandes grupos, entre si e em diálogo com outros.

Há micro e médios influenciadores multiplicando mais ou menos a mesma mensagem. Do outro lado, segundo Raquel Recuero, existe uma pluralidade maior de discursos, e o gráfico mostra haver proximidade suficiente para haver diálogo. As linhas que ligam a Bolhanaro aos diferentes grupos da sociedade são linhas de conflito: geralmente ocorrem em interações agressivas. 

Quem compõe a Bolhanaro

Podemos descolar a Bolhanaro do restante do debate e observar como suas mais de 22 mil conexões entre perfis se dividem internamente. Agora, a bolha tem dez tons de laranja, divididos sem muita concentração e com forte interação interna. 

Credit: Marcelo Soares / InfoAmazonia Credit: Marcelo Soares / InfoAmazonia

Esses subgrupos de certa maneira espelham a “divisão do trabalho” descrita em denúncia feita em 16 de outubro pela campanha de Lula à Justiça Eleitoral. Após a denúncia, algumas contas que não têm envolvimento direto de autoridades, como @brazilfght, foram suspensas pelo Twitter.

O maior subgrupo tem cerca de 18% dos perfis da bolha. Ele gravita em torno das postagens do influenciador bolsonarista @kimpaim e inclui bolsonaristas famosos no Legislativo, como Bia Kicis, Cristiane Brasil (filha de Roberto Jefferson, que postou os vídeos em que ele comentava os tiros que deu em agentes da Polícia Federal), Eduardo Cunha e Douglas Garcia. Também estão nessa sub-bolha o ex-ministro Salim Mattar e o economista Leandro Ruschel.

No monitoramento feito pelo Mentira Tem Preço ao longo de setembro, os tweets com maior engajamento com mentiras sobre o desmatamento na Amazônia vieram dessa sub-bolha:

No destaque abaixo vemos um padrão comum, em que uma conta maior publica alguma coisa e um enxame de contas menores a multiplica. Paim, um youtuber que vive na Austrália, foi descrito na denúncia como uma espécie de “agregador” de falas dos principais perfis que interagem com Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República e apontado como articulador do chamado “Gabinete do Ódio”.

O emaranhado de tons de laranja sugere muitas interações dentro do próprio grupo, mas vale observar no agregado como fizemos acima. O grupo de Kim Paim aparece como central, porque referência todas as outras sub-bolhas:

A segunda maior sub-bolha dentro da Bolhanaro é a que tem como maior referência o assessor especial Filipe Martins, que ficou famoso por fazer um gesto neonazista e justificar que apenas arrumava sua lapela. Nessa bolha, estão políticos mais próximos de Bolsonaro, como o general Braga Netto, Paulo Figueiredo, Adolfo Sachsida e o Carteiro Reaça, além de influenciadores digitais como a economista Renata Barreto (recentemente celebrizada por ser contra o iluminismo) e o ex-BBB Adrilles Jorge. 

A bolha conta com 11% dos perfis, e este é o padrão de enxame interno:

A terceira bolha, com 9,6% dos perfis, tem como principais referências meios de comunicação claramente identificados com o bolsonarismo, como a Revista Oeste e a Jovem Pan News, contando também com o perfil de Jorge Serrão, comentarista da emissora. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, está nessa bolha. 


Colaborou Isabella Marin Silva, da Lagom Data.



Reportagem do InfoAmazonia para o PlenaMata, em parceria com a Sala de Democracia Digital da FGV ECMI, uma iniciativa de monitoramento e análise do debate público na internet.

Sobre o autor

Jornalista formado pela UFRGS, especializado em jornalismo de dados. Trabalhou para jornais como Folha de S.Paulo e Los Angeles Times e é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos...

Ainda não há comentários. Deixe um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.