Estudo revela que atividades como mineração, desmatamento e agropecuária alteraram os ecossistemas e a biodiversidade das águas de 149 grandes rios do mundo, colocando em risco populações inteiras.

A composição química das águas do Rio Amazonas, o maior do mundo em volume de água, foi alterada por produtos químicos e outros impactos oriundos do desmatamento, da agropecuária, da mineração, da concentração humana em cidades e das represas de hidrelétricas. Como ele, também são vítimas da contaminação outros grandes cursos d’água, como Colorado e Mississipi (Estados Unidos), Congo (África), Reno (Europa), Amarelo e Yangtze (China) e Murray (Austrália). 

É o que revela o estudo de cientistas de universidades na China, Estados Unidos e Reino Unido, publicado na revista Nature Communications. A análise foi feita em cima de uma base de dados sobre a concentração e o fluxo de substâncias químicas nas águas de 149 rios no planeta ao longo de uma década. O resultado mostrou que os rios sofrem com fortes aumentos nas doses de sedimentos (68%), de cloreto (81%), de sódio (86%) e de sulfato (142%).

Concentração de sólidos totais dissolvidos

Fluxo anual de sólidos totais dissolvidos (TDS) e grandes solutos carregados dos rios aos oceanos.

Esses grandes mananciais levam cerca de 6,4 bilhões de toneladas de químicos aos mares e oceanos mundiais todo ano. Isso pode prejudicar a saúde de ecossistemas de águas doce e salgada, a biodiversidade, bem como atividades como a pesca, o turismo e até o consumo direto de recursos hídricos, alertam os especialistas. O Rio Amazonas, por exemplo, deságua no Oceano Atlântico.

Professor de Hidrodinâmica na Universidade de Plymouth (Reino Unido), Alistair Borthwick avisa que a poluição é mais grave nas regiões tropicais, onde a agropecuária e as cidades crescem ainda mais. “Os rios são importantes para a sustentabilidade do planeta todo. A mensagem simples de nosso estudo é a de que medidas para defender os rios são urgentemente necessárias”, ressaltou ao phys.org.

Os rios são importantes para a sustentabilidade do planeta todo. A mensagem simples de nosso estudo é a de que medidas para defender os rios são urgentemente necessárias.

Alistair Borthwick, Universidade de Plymouth

A série de reportagens Águas Turvas, produzida por InfoAmazonia, Earth Journalism Network e Earthrise Media, mostrou relações entre o despejo de esgotos sem tratamento por cidades, como Manaus (AM), de fertilizantes pela agropecuária e a erosão causada por garimpos ou desmatamento na Amazônia com a multiplicação de algas do Caribe à costa africana. As “marés marrons” preocupam cientistas e governos e já afetam a economia de destinos turísticos como Cancún, no México. 

A série revelou também que a mancha de sedimentos gerada por garimpos de ouro na Bacia Fluvial do Tapajós, um afluente do Amazonas, já se estende por 500 quilômetros entre Jacareacanga e Santarém, no Pará. A atividade disparou em 70% nos últimos cinco anos na porção mais impactada da bacia, entre o Rio Jamanxim e a Serra do Cachimbo. No período, minas já ativas foram mais exploradas, e grandes lavras foram abertas ao longo do Rio das Tropas, inclusive na terra de indígenas Munduruku, entre outros locais. 

“Rios como Tapajós e Xingu estão recebendo uma carga de sedimentos maior devido ao desflorestamento e mineração em suas bacias. Quanto mais o solo estiver exposto, ou seja, maior desprendimento de sedimentos, maior a concentração de sedimentos nos rios”, explicou ao Águas Turvas a doutora em Recursos Hídricos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Alice Fassoni-Andrade.

Uma poderosa fonte de sedimentos é o desmatamento. Eliminação total da vegetação nativa numa determinada área seguida, em geral, pela ocupação com outra cobertura ou uso da terra (+). Em queda desde 2004, retomou sua escalada na Amazônia em 2013, conforme números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e bate repetidos recordes desde o início do governo de Jair Bolsonaro. 

O MapBiomas mostra que a principal fonte de derrubadas na floresta tropical é a abertura de pastagens, cuja área cresceu 200% na Amazônia desde 1985. Em 36 anos, as pastagens tomaram mais 38 milhões de hectares e somam hoje 56,6 milhões de hectares, um território semelhante a duas vezes o do Tocantins. Isso faz do bioma a região natural com a maior extensão de pastagens cultivadas no país.

Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

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