Diante da pandemia de Coronavírus, Covid-19, o medo de pegar a doença assola os parentes. Eu aproveitei as afirmações de meus professores e do meu colega tuyuka para elaborar este pequeno texto para abrir uma roda de conversa

Diante da pandemia de Coronavírus, Covid-19, o medo de pegar a doença assola os parentes. Eu aproveitei as afirmações de meus professores e do meu colega tuyuka para elaborar este pequeno texto para abrir uma roda de conversa:

Ayuti misâ akawerérã? Ayuu!!!

por Silvio S Barreto*

Numa perspectiva indígena, sobre o que, o medo da doença, das fragilidades e da força da alma via bahsese. (Gilton, 2020).

Os povos indígenas têm suas estratégias de defesas e fuga dos males ocidentais… O problema é quando não tem mais para onde fugir da ganancia desenfreada dos “povos da mercadoria” (Carlos, 2020).

Diariamente, o grupo de sábios fumando os seus cigarros conversavam sobre o tinham visto em seus sonhos, que fórmula de proteção havia criado em sua meditação noturna (Justino R. 2020).

Na minha humilde reflexividade antropológica, são linhas tortas de pensamentos. O meu projeto de pesquisa de doutorando vem nessa linha de pesquisa sobre “povos indígenas descidos dos rios acima para a cidade”, como diz o professor Carlos sobre “povos da mercadoria”. A questão que professor Gilton levanta é crucial para nós indígenas, os pesquisadores dessa linha da saúde. Então, via bahsese. Em geral, a categoria de especialista conhece do universo das doenças indígenas, a relação do tempo, as origens, as causas e dos tratamentos. Ultimamente, Senhor Justino Pena, que é meu sogro, um simples basegi, fala que, essa doença de Coronavírus é uma ameaça para a saúde indígena. Uma preocupação não só de ficar em casa ou de ficar quarentena. Mas, para ele, essa doença de coronavírus é um desafio de seu conhecimento de basese.

Eu também inicio relatando sobre minha última pesquisa de campos (2020), no sitio Itaiaçu, rio Tiquié/São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas. Eu ouvi do Senhor Benedito, que é meu colaborador, meu padrasto, ex-aluno do colégio internado e morador do baixo rio Tiquié. Então, ele me contou que, “antes da chegada dos missionários, certo período houve muitas mortes dos indígenas da região”. A missão salesiana de Taracuá foi fundada em 1923, no
Alto rio Negro, noroeste amazônico. Eu também nunca cheguei a pesquisar as fontes bibliográficas, as crônicas dos padres salesianos da diocese de São Gabriel ou Paroquia Sagrado Coração de Jesus. Com certeza devem existir as fontes primárias.

Bahseriko ahpose (Líquido para o bahsese). Ilustração por Jaime Diakara Desana.

“Antes da chegada dos missionários houve num certo período muitas mortes dos indígenas da região” (Benedito, 2020). Naquele tempo, ocorreram muitas mortes, por causa da epidemia, como sarampo, varíola, tuberculose e malária na região e, muitas gentes morreram por não saber os cuidados dessas doenças e do basese. Essas doenças não são do universo e de conhecimento indígena. Na história do povo indígena, as doenças entraram nas aldeias, nos rios, etc., por meio da mercadoria, exemplo o filme: “Brincando nos Campos do Senhor” (1991) e sem contar outros fatores socioeconômicos para suprir as necessidades.

Como afirma Justino R. (2020), muitas famílias adentravam nas cabeceiras dos rios, dos lagos ou iam às casas das roças, para fugir das doenças por um tempo indeterminado. Como os velhos não sabiam nem conheciam para o tratamento e da cura, o jeito era fugir dessas doenças, naquele tempo, eles tinham lugares para se protegerem. Para tratar e de cuidar tem de conhecer às origens, as causas e os tratamentos. O exemplo que o Senhor Benedito trouxe foi à questão da malária na região. A saúde pública do município de São Gabriel da Cachoeira afirma dizer que é o carapanã da malária. A reação da categoria de especialista, todo Kumû ou Basegi irá dizer que, existe sim, wuhake pari/panela da malária destampada por um sábio malfeitor e, existe sim a origem e causador. Esta categoria de especialista ainda não foi convidada para os entendimentos institucionais governamentais ou para enfrentamento da malária.

As doenças citadas acima, como afirma Dominique (1989) são doenças do tempo e doenças contagiosas pelo contato. Procurei me informar e se situar melhor com outros textos da antropologia da saúde, referentes à saúde e povos indígenas (Santos & Coimbra, 1994), mas nada dessa gravidade, entretanto, são doenças pontuais e localizadas, onde se encontram os povos indígenas.

Os antigos se cuidavam por meio de basese, akó sistase, uhuse e yukî ou taá dika, para os baserã esses elementos que contém os anticorpos. A preocupação do Senhor Justino é exatamente do basese. Qual é a fórmula específica, como acioná-lo e, em que momento da doença pode utilizá-lo. O receio do Senhor Justino já que não funciona com os próprios medicamentos, para ele, o basese também não traria resultado positivo.

Ele acredita que deve transmutar o coronavírus em leite e espuma de buiuiu no corpo das pessoas, tem de esfriar do estado febril para o corpo saudável.

Segundo categoria de especialista entende que, o estado febril das pessoas é semelhante na fabricação de ferro, de ouro… Numa temperatura alta, assim o nosso corpo está fervendo, a qual a gente chama de estado febril. Para ter certeza deve passar por vários experimentos de basese e se prevenir tomando chá reforçado como basese e não se sabe exatamente em que elementos mesmos. Se for vírus dos tempos, então, deve existir uma fórmula específica para a proteção e para curas. O que cabe, em nós pesquisadores da área da saúde é ajudar para a categoria de especialista na reflexividade do cuidado e do tratamento.

É verdade! Os nossos avôs e nossos pais fugiam das doenças para os centros das matas. Quanto mais for contagiosa, os velhos temiam e se retiravam do ambiente ou abandonavam suas casas e iam aos lugares distantes e assim faziam suas quarentenas. Não é um pessimismo sentimental! Mas é uma análise contextual. Atualmente, nós, somos os povos indígenas descidos pelos rios acima para a cidade. Agora somos de outros tempos com outra realidade e muitos de nós somos de lá e, nós, hoje, estamos no contexto urbano, seja no contexto do município e da capital e, as nossas origens, nossas comunidades de nossos antepassados ficaram para trás como nossos umbigos cortados e enterrados na terra, são também os nossos vínculos para nossa existência indígena, como marco territorial.

Essa descida pelo rio para as cidades são para se tornarem povos indígenas da mercadoria, exatamente, o que aconteceu e, o que acontece. O modelo de vida ocidental nos atrai para o poder, para dominar e para tê-lo. A vida dos antepassados era coletividade e atualmente foi transformado em indivíduo. Por esse motivo se cria essa ânsia de querer possui-los. Os velhos faziam viagens de visitas para seus cunhados para oferta ou para retribuição, para a festa do ritual, para o trabalho, para ensinar e aprender os conhecimentos dos úkûse, dos basese e dos basamori e, depois, certo período eles voltavam para os locais de origens. Hoje em dia vivemos nos centros urbanos e longe de nossas origens, o problema é que não temos mais para onde fugir e não por falta da terra.

E, cada vez mais o desenvolvimento (questão do garimpo, instalação de hidrelétricas, turismo, lazer e pesca esportiva, etc.) adentra nas terras indígenas e não existe lugar mais seguro, um lugar para ter uma boa saúde.

Na contemporaneidade, os nossos locais de nascimentos, as nossas origens, quando chegam algumas epidemias as nossas comunidades se criam certas cosmopolíticas. Desde começo da historia, os povos indígenas foram transformado esta realidade social moderna. Por fim, numa perspectiva sociológica e antropológica da reflexividade antropológica é uma questão coletividade humana, ecológica, do cuidado e da sensibilidade do ensinamento dos kumuá. Aka werérã marî ye wiiseri nii buruorã/Fique em Casa!

*Silvio S Barreto é licenciado em filosofia pela Faculdade Salesiana Dom Bosco/Manaus; Especialização em Gestão Escolar pela Faculdade Educacional da Lapa/Paraná; Mestre e Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas/UFAM, membro do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena/NEAI, Representante do Colegiado Indígena do PPGAS; Bolsista da CAPES; falante da língua indígena tukano e pertencente do Povo Indígena Bará do Grupo Tukano Oriental e para contato: [email protected]

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