Diretor premiado em 2016 no Festival de Tiradentes por melhor filme com “Jovens Infelizes”, Mendonça explora os temas de repressão e resistência (Foto: divulgação)

Em entrevista, Thiago B Mendonça conta porque a Aliança dos Povos do Floresta, criada no fim do regime militar, é até hoje um marco na conquista de direitos para os indígenas e seringueiros

O cineasta Thiago B. Mendonça, autor de documentários e longa metragens premiados, está trabalhando nos últimos anos em um retrato novo da ditadura. Não um olhar apenas para resgatar o passado. Mas sim densas entrevistas com atores daquele tempo que continuam formando o caráter do país.

Batizado de “Não veras país nenhum”, o documentário tentará decifrar o “enigma que se tornou o Brasil contemporâneo”, como ele mesmo explica.

“Precisamos compreender porque os anos de redemocratização foram tão alienantes e desmobilizadores”, diz.

Agora, como parte deste mesmo projeto, ele reavivou as histórias de um dos mais notáveis movimentos de resistência da história recente, a Aliança dos Povos da Floresta. Em um total de 14 entrevistas, a websérie revisa os 20 anos da aliança entre indígenas e seringueiros, nascida da simbólica parceria de Chico Mendes e Ailton Krenak.

“Me fascina como esses grupos marginalizados e isolados, conseguiram se unir e reagir a essa situação, criando suas organizações e formando uma Aliança no estertor da ditadura, para incluir os seus direitos em uma contituinte que se não fosse pressionada, ignoraria suas existências”, conta.


Seu primeiro filme de ficção, “Jovens Infelizes”, ganhador de melhor filme no Festival de Tiradentes de 2016, explora a temática da repressão e resistência. Contando a história de um grupo de teatro com aspirações revolucionárias, o longa capta o mal estar de nossos dias muito antes da chegada da extrema direita ao poder no Brasil.

Nós publicamos aqui em InfoAmazônia, algumas das entrevistas, como o comovente relato de Sabá Marinho, seringueiro que conheceu na pele os abusos do sistema dos produtores de borracha.  Ou ainda, os relatos de abertura, de Ailton Krenak, e fechamento da série, como Raimundo Mendes, o Raimundão. Os episódios completos podem ser vistos no canal do You Tube do Le Monde Diplomatique Brasil. A série foi apoiada pelo Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center on Crisis Reporting.

Abaixo, a entrevista concedida por Thiago B. Mendonça

Você estava trabalhando em num filme sobre a ditadura. Em que momento surgiu a necessidade de trazer o depoimento dos seringueiros e indígenas?
A ditadura foi uma tragédia para todo Brasil e hoje ficam claras as suas heranças, com os militares no poder, comandando este circo de horrores que se tornou a política. Entre todos os que sofreram a violência da ditadura, os indígenas foram os que pagaram o maior preço. Não seria exagero chamar de genocídio o que aconteceu com algumas nações indígenas, que tiveram mais da metade de seu povo morto pelo contato forçado com o branco, seja nas frentes de expansão agrícola, seja nos grandes projetos de “desenvolvimento” da Amazônia. Há um excelente livro, “Os fuzis e as flechas”, do Rubens Valente, que narra com muita precisão o tamanho da catástrofe.

Entre todos os que sofreram a violência da ditadura, os indígenas foram os que pagaram o maior preço. Não seria exagero chamar de genocídio o que aconteceu com algumas nações indígenas

Ao mesmo tempo os seringueiros, que viveram por muitos anos em um regime de semi-escravidão no Acre, passaram a ter suas terras tomadas por grandes projetos agrícolas. Me fascina como esses grupos marginalizados e isolados, conseguiram se unir e reagir a essa situação, criando suas organizações e formando uma Aliança no estertor da ditadura, para incluir os seus direitos em uma contituinte que se não fosse pressionada, ignoraria suas existências. Em um momento em que a sociedade assiste calada a destruição das florestas, da educação e da cultura, precisamos pensar quando foi que desaprendemos a nos mobilizar e lutar pela cidadania. Os povos indígenas são um exemplo dos que seguiram em sua luta, sem se iludir com as promessas do poder e nunca deixaram de lutar.

Quais as novas perspectivas que se abriram no seu filme e para você após fazer estas entrevistas?
Cada vez fica mais claro que não há futuro para este país se não nos pensarmos como um povo. Mas um povo que abraça suas diferenças, longe da lógica totalitária e segregadora do discurso hegemônico de nação. Podemos aprender com os povos tradicionais a ter outra relação com o mundo.

A cada dia fica mais claro a insustentabilidade de nossa atual forma de vida. Se há alguns anos tinhamos a sensação que caminhavamos para o abismo, agora temos a certeza.

Todos os sinais foram dados. Pagamos o preço por anos de abandono das periferias e dos povos tradicionais, valorizando grandes projetos de desenvolvimento e a inclusão pelo consumo. Precisamos compreender porque os anos de redemocratização foram tão alienantes e desmobilizadores. Posso dizer que nas conversas para a realização deste projeto conseguimos algumas pistas para esse enigma que é o Brasil contemporâneo.

Você pode falar mais de como será o documentário completo?
“Não verás país nenhum” é um filme feito ao longo de muitos anos por um grupo de gente que mergulhou de cabeça nessa história. Eu, Marco Escrivão, Leandro Safatle, João Lanari Bó, Cristina Amaral, Gustavo Assano, Renata Jardim, Rafael Gonzaga Cunha… Um bando de loucos que há anos busca compreender como chegamos a este Brasil de 2020.

O documentário é composto de três filmes, que tratam das heranças da ditadura. No primeiro tentamos refletir sobre como o atual crime organizado se forjou na ditadura, assim como os grupos de extermínio, a ideia de punitismo e o encarceiramento em massa, ideias que não foram combatidas pela esquerda que chegou ao poder.

O segundo reflete sobre os povos tradicionais, indígenas, quilombolas e camponeses e a forma como historicamente foram tratados pelo Estado brasileiro. E o terceiro tenta pensar o autoritarismo e a presença silenciosa dos militares após a redemocratização, refletindo sobre como fomos incapazes de romper de fato com o legado dos anos de chumbo.

Um dos seus frutos, que continuaram a se desenvolver após a redemocratização, é a ideia de cultura como indústria cultural e o bem viver como consumo. Não conseguimos na prática, em anos de governos de partidos criados em oposição à ditadura, retomar nenhuma dos projetos de reforma dos governos trabalhistas, que nunca foram revolucionários.

Abandonamos a luta política para ser gestores da miséria, para conter o caos. Este é mais um legado da ditadura: eles acabaram com qualquer sonho de emancipação.

Neste mesmo momento em que o governo flerta com o fascismo, que nossas florestas são destruídas e enfrentamos uma pandemia, um momento talvez tão nefasto quanto os anos mais violentos dos anos 1970, parece que não conseguimos pensar qualquer saída que não seja a volta ao projeto de conciliação dos anos Lula. Quando a própria natureza nos exige que pensemos um outro modo de vida.

O que para você destas lembranças que ouviu remetem a este momento agora do Brasil de Bolsonaro?
Eu diria que tudo e nada. Tudo porque todo o entulho do autoritarismo está de volta sem nunca, no entanto, ter saído de cena. Tudo porque o desrespeito às florestas e aos povos tradicionais está presente com toda a força, sem nenhuma mediação. Tudo porque temos uma sociedade civil acovardada, com medo de represálias, funcionários públicos servis, calados frente à barbárie. Porque muitos em seu silêncio tornaram-se cúmplices, como na ditadura.

Mas ao mesmo tempo nada, porque os militares da ditadura ao menos tinham um projeto nacional, enquanto os atuais tem uma postura servil e vergonhosa diante dos Estados Unidos. Nada porque nunca um presidente brasileiro na ditadura seria subserviente a ponto de bater continência para a bandeira de uma potência estrangeira. Nada porque os atuais mandatários são completamente destituídos de qualquer pensamento sobre o Brasil, envoltos num anti-comunismo doentio e sem sintonia com a realidade.

Porque se tiverem a chance venderão todo o patrimônio do país. Os militares de hoje são muito piores do que os do passado, mas ao mesmo tempo são o fruto mais torpe do fracasso moral e ideológico que foi a ditadura.

Eles são a consequência direta de nosso processo capenga e incompleto de redemocratização, que não possibilitou aos militares refletirem e responderem por seus erros e não tocou na estrutura das forças armadas. Eles são o fruto de nosso fracasso.