: Onde é impossível seguir a OMS

Onde é impossível seguir a OMS

qui, 02 de julho de 2020

Indicadores sociais mostram que os estados da Amazônia Legal têm dificuldade em seguir recomendações básicas da OMS para evitar o contágio pelo novo coronavírus. Foto de abertura: palafitas da Glória, Manaus, Amazonas (Marandueira)

Erika Berenguer (análise de dados e texto), Juliana Mori (gráficos e mapa)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara – para evitar o contágio da COVID-19 deve-se:

1 – lavar as mãos frequentemente com água e sabão;
2 – evitar locais cheios;
3 – manter pelo menos um metro de distância de outras pessoas;
4 – fazer autoisolamento quando houver quaisquer sintomas de COVID, mesmo que leves.

Medidas simples, mas muitas vezes impossíveis de serem postas em prática na realidade brasileira e, principalmente, na amazônica. Por mais paradoxal que pareça, a região com mais água doce do mundo é também aquela com a maior proporção de domicílios sem acesso à água canalizada. Dentre todos os estados do Brasil, Acre, Pará e Maranhão possuem mais de 20% de domicílios cujas famílias precisam sair de seus terrenos para ir atrás de água, um número muito acima da média nacional que é de apenas 6%.

Já evitar locais cheios é difícil para aqueles que não têm renda, e precisam constantemente procurar bicos, ou para aqueles que dependem de benefícios governamentais como aposentadorias, Bolsa Família e o Auxílio Emergencial, gerando deslocamentos massivos e concentração de pessoas nas sedes dos municípios onde ficam os bancos. Nessa situação, novamente a Amazônia ocupa um lugar de destaque, que antecede a pandemia: Acre, Maranhão, Pará e Amazonas aparecem entre os cinco estados com, proporcionalmente, maior número de famílias sem qualquer tipo de proventos ou dependente de benefícios.

A última perna desse tripé que torna impraticável adotar as medidas estipuladas pela OMS é o autoisolamento. Como se isolar, ou mesmo manter-se a mais de um metro de distância, quando se mora numa casa em que há mais habitantes do que cômodos? E isso é especialmente complicado na realidade amazônica – Amazonas, Amapá, Pará e Acre possuem mais de 30% dos domicílios com mais pessoas do que cômodos, sendo seguidos de perto por Roraima (29%) e Maranhão (21%). Índices altamente contrastantes com aqueles do Sudeste do país, onde todos os estados têm menos de 10% de seus domicílios com tamanha concentração de habitantes.

A impossibilidade de lavar as mãos constantemente, a necessidade de sair de casa atrás de dinheiro e habitações com muitos moradores não são fatores isolados, são altamente correlacionados (famílias sem renda são, provavelmente, também aquelas que moram em casas cheias e sem acesso à água canalizada). Dentre esses três fatores, a grande densidade de pessoas em um domicílio é a que tem um peso mais forte, explicando, em um modelo estatístico, 59% da variação que observamos no número de casos de Covid-19 entre todos os estados brasileiros.

Entre os municípios de cada estado amazônico, a incidência de Covid não pode ser explicada apenas pela alta quantidade de moradores por domicílio – há outros fatores municipais que entram em cena para determinar a quantidade de casos, muitos deles ainda desconhecidos.


Clique sobre as áreas do mapa para ver a proporção de domícilios com mais moradores do que cômodos e sobre os pontos para ver os casos confirmados de Covid em cada município da Amazônia Legal.

Um desses fatores pode ser a ligação de cada município com os demais através do transporte fluvial, uma via que leva pessoas, mercadorias e o vírus para o interior amazônico. Ainda há muitas descobertas a serem feitas, mas uma já foi estabelecida: a desigualdade entre os estados brasileiros alimenta a pandemia.

Fontes: número de casos de Covid-19 foram obtidos em 29/06/2020 do Brasil.IO, que tem como fonte primária os boletins das Secretarias Estaduais de Saúde. As porcentagens de domicílios sem acesso à água canalizada, com mais de um moradores por cômodo e de famílias sem renda foram calculadas a partir dos dados do IBGE do último censo disponível, o Censo 2010. Nos gráficos por estado, os dados do Maranhão se referem ao estado inteiro, incluindo a parte leste que está fora dos limites da Amazônia Legal.

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