: Porque olhar para a Amazônia durante a pandemia

Porque olhar para a Amazônia durante a pandemia

qua, 03 de junho de 2020

Dos cinco estados com maior número de casos por 100 mil habitantes, quatro estão na Amazônia. O topo da lista é ocupado pelo Amapá. Amazonas e Pará são os com maior taxa de óbito por habitantes no Brasil todo. Imagem de abertura: mapa com a progressão dos casos de Covid-19 mostra a doença se deslocando para o interior da Amazônia.

Erika Berenguer (análise de dados e texto), Juliana Mori (mapas e gráficos)

Em 04 de março foi registrado o primeiro caso de COVID-19 no Brasil. Agora, praticamente três meses depois, passamos do meio milhão de casos confirmados e 30 mil mortes. O estado com mais casos é São Paulo, que já passou dos 100 mil. Em segundo lugar vem o Rio, com menos da metade do número de casos. Mas então por que se preocupar com a Amazônia, se o Sudeste parece ser a região mais afetada pela pandemia? Porque a Amazônia concentra o maior número de casos quando os dados são padronizados por 100 mil habitantes.

Essa transformação de dados pode parecer estranha. Ora, se São Paulo tem mais de 100 mil casos e o Amazonas apenas 40 mil, logo São Paulo encontra-se duas vezes e meia pior do que o Amazonas, certo? Não necessariamente. O estado de São Paulo tem uma população de cerca de 45 milhões de habitantes, enquanto que o Amazonas tem apenas um décimo desse número de pessoas. Logo, é esperado que em São Paulo, por ser um estado mais populoso, haja mais casos, afinal há mais pessoas possíveis de serem contaminadas. Por isso é necessário padronizar tanto o número de casos quanto o de óbitos pela população de cada unidade geográfica que esteja sendo avaliada, seja uma cidade, um estado, um país ou até mesmo um continente.

E é aí que a Amazônia se destaca: dos cinco estados com maior número de casos por 100 mil habitantes, quatro estão na Amazônia. O topo da lista é ocupado pelo Amapá, com 27 vezes mais casos por 100 mil habitantes do que o último estado da lista, o Paraná. Para o número de óbitos, o cenário muda um pouco, com estados amazônicos aparecendo somente nas duas primeiras posições – mas isso não significa que as coisas vão bem: o Amazonas (1º lugar dessa trágica lista) tem 49.5 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o Espírito Santo (10º posição) tem apenas 15.

 

Só estas comparações já seriam suficientes pra mostrar o quanto se deve focar na Amazônia nessa pandemia, mas a situação fica pior.

Deserto hospitalar

A Amazônia é o que é chamado de ‘deserto hospitalar’, ou seja, uma região com pouca ou nenhuma infraestrutura médica. Por exemplo, dos nove estados da Amazônia Legal, quatro só possuem leitos de UTIs em suas capitais.

A melhor representação de um deserto hospitalar é o estado do Amazonas – o maior estado da federação, com território maior que o de certos países vizinhos como Bolívia, Colômbia, Peru e Venezuela, só possui leitos de UTI em Manaus.

Com a doença se deslocando pro interior dos estados, fica cada vez mais difícil de conseguir acesso a um leito, afinal as distâncias na Amazônia não se medem em horas de viagem, mas em dias.

Quando comparada aos outros estados, a condição de deserto hospitalar da Amazônia Legal só fica mais evidenciada: dos cinco estados com menor número de leitos de UTI, quatro são amazônicos, mesmo quando combinando os leitos da rede pública e privada. A situação é a mesma em números de respiradores, quatro estados amazônicos ocupam as cinco últimas posições em número desses equipamentos por 100 mil habitantes. A falta de infraestrutura médico-hospitalar é generalizada.

Olhar para a Amazônia durante essa pandemia se mostra então não só importante, mas uma questão fundamental para evitar um número de mortes desproporcional dos habitantes dessa parte do país. A região com maior número de casos, é também aquela com a menor condição adequada para lidar com a pandemia. Aqui, encontra-se escancarado um paradoxo: a maior floresta tropical do mundo, abriga dentro de si um grande deserto.

Fontes: todos os dados de casos e óbitos analisados foram obtidos em 01/06/2020 do Brasil.IO, que tem como fonte primária os boletins das Secretarias Estaduais de Saúde. Já os dados de leitos de UTIs e respiradores existentes foram extraídos do Tabnet do DataSUS/Ministério da Saúde em 31/05, e se referem à última atualização disponível (abril de 2020).

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