
A foz. Estamos no palco de um encontro de duas grandes forças da natureza: o rio Amazonas e o Oceano Atlântico. Na estação chuvosa, é o rio quem avança mais para dentro do mar. Depois, na seca, é “o salgado” que começa a ganhar a batalha.
O rastro do maior rio do planeta alcança, em seu período de máximo deságue, entre fevereiro e abril, até 1000 km dentro do Atlântico. Quando esta pluma do rio chega ao mar, leva grande quantidade de nutrientes. Influenciada pela Corrente Marítima Norte Brasileira, ela se desloca em direção ao Caribe levando alimento para a profusa biodiversidade dos ambientes coralinos desta parte do Atlântico.
Neste banquete de micro-organismos e sedimentos que carrega o rio Amazonas vivem milhares de espécies e delas dependem toda uma sociedade e economia. A mistura das águas do Amazonas e do Atlântico gestou uma das mais belas regiões do planeta e uma cultura costeira que é pouco conhecida pelo mundo. Quando se fala de Amazônia, pensamos na floresta, mas não na diversidade de paisagens de seu litoral. Muito menos em seu mar de águas lamacentas.
Nesta sociedade ligada aos peixes, aos mangues e ao ritmo da maré, os pescadores, os catadores de crustáceos e a indústria da pesca são protagonistas. Mais próximos à costa estão os pescadores artesanais e aqueles que atuam na captura de camarões e caranguejos de água salobra. Um pouco mais avançadas no mar estão as embarcações industriais, que arrastam as redes para buscar o camarão rosa, a pescada amarela e os bagres migradores.
Entretanto, este balanço entre o rio, o mar, o homem e a natureza está em rápida transformação. O aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico na Amazônia, causando chuvas e secas mais extremas. O momento e a quantidade de água do Amazonas chegando ao Atlântico já não são tão regulares.

Pescador na praia do Goiabal, Osiel Barbosa Balieiro, o Bicudinho, sabe que, quando encontra na rede a pescada amarela, a sarda, a tainha e outros peixes do mar, a água salgada, de cor mais clara, está ganhando terreno. Mas quando ele e seus colegas voltam da pescaria com peixes de água doce, aqueles que se reproduzem na foz do Amazonas, como a gurijuba, a dourada ou a piramutaba, é sinal de que o rio está prevalecendo com sua coloração barrenta.
Bicudinho tem 49 anos e vive há 32 no Goiabal, uma praia no Amapá, o estado mais ao Norte do Brasil. Ele conta ter testemunhado grandes transformações ao longo desses anos: a principal foi o avanço das marés. A partir de 2013, diz, começaram, com maior frequência, as “marés lançantes”. São as marés de “água grande” que avançam sobre a costa. Casas, pousadas e outros atrativos para os turistas foram destruídos pelo mar. Muitos moradores já deixaram Goiabal, e sobraram quase só pescadores.
“O salgado vai empurrando”, diz Bicudinho.
Neste ponto da costa, os pescadores não precisam de barco para lançar redes no mar. O terreno é tão plano, que a maré faz o trabalho. Estacas de madeira com uma rede presa são fixadas na areia em pontos bem distantes da praia. Os peixes trazidos pela maré são enredados quando o mar começa a vazar.
A maré pode recuar e avançar, diariamente, de três a quatro quilômetros no Goiabal. Com 40 km de extensão, a praia é uma das poucas faixas de areia em todo Amapá. O resto da costa está praticamente coberto por manguezais.
O salgado vai empurrando.
Osiel Barbosa Balieiro, o Bicudinho
Exatamente por sua topografia extremamente plana e por estar na foz do Amazonas, a costa do Amapá é uma das mais afetadas pelo aumento do nível do mar no Brasil. Na média global, de acordo com dados do Serviço do Ambiente Marinho Copernicus, da União Européia, o mar já se encontra cerca de 20 cm mais alto do que no início do século XX e até o final deste século as projeções indicam que pode estar até 1 metro mais alto. Na região da desembocadura do grande rio, uma análise inédita realizada para esta reportagem revela que apenas em três décadas o aumento foi de 12,4 cm.
As principais razões para a elevação, segundo o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), são o aumento da temperatura do mar e o derretimento das calotas polares, fenômenos ligados às mudanças climáticas em curso.
A erosão acelerada é um dos sinais mais visíveis da subida do mar, mas a salinização de terrenos e igarapés próximos à costa também é sentida pelos ribeirinhos e pescadores. Áreas alagadas por mais tempo e mais sal na água alteram a economia local baseada na pesca e no extrativismo.
No Goiabal vivem apenas sete famílias, 18 pessoas, a maioria homens. As esposas e filhos estão na cidade mais próxima — Calçoene —, onde há escolas e postos de saúde. Enquanto isso, os pescadores vivem em casas simples e pequenas, equipadas apenas com o suficiente para trabalhar, comer e dormir.
Dormir, na verdade, nem tanto. Como observou uma das moradoras, Elita Santos, que nos hospedou em sua pousada no Goiabal: “esse pessoal mal dorme pois acompanha as marés”. Se começar a vazar a maré no meio da madrugada, os homens saem caminhando acompanhando o mar baixando até as estacas. Chegando a elas, recolhem os peixes enredados e caminham de volta com o mar subindo no encalço.
Nas primeiras horas de uma manhã de maio, um grupo de pescadores surgia no horizonte, suas silhuetas negras quase imperceptíveis. Assim como em qualquer outro dia, eles tinham acompanhado o vai-vem da maré e caminhado seis quilômetros. O filho de Bicudinho, Antônio, e um colega, Pedro, tinham saído às quatro horas da manhã enquanto a maré recuava. Voltaram principalmente com peixes do rio: gurijuba e piramutaba.
Além da pousada de Dona Elita, um dos poucos comércios que ainda funciona na praia do Goiabal é o restaurante da família de Thiago Monteiro de Lima, 34 anos. Ele e seus pais se mudaram do garimpo do Lourenço, em Laranjal do Jari, há 12 anos com a esperança de aproveitar o turismo em uma das poucas praias do Amapá. Mas a esperança no novo negócio não se confirmou. Na frente do terraço onde são servidas as refeições, ele nos mostra o piso de sua casa. “Esse aqui nós refizemos há um ano!”. Logo à frente do pavimento de cimento estão os escombros do terraço anterior que foi destruído pelo mar .
Para esta reportagem, elaborada pela InfoAmazonia para a investigação “Águas Partidas”, coordenada pelo Centro Latino Americano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com o Instituto Serrapilheira e oito veículos da região, visitamos comunidades pesqueiras ao longo da costa do Pará e do Amapá. Escutamos como estas transformações são registradas pelo olhar do conhecimento tradicional. Também entrevistamos pesquisadores que estão dedicados a entender como estas mudanças em grande escala estão alterando a foz do rio com a maior vazão no mundo.
Osiel Barbosa Balieiro, o Bicudinho, vive há 32 anos no Goiabal e testemunhou o rápido avanço das marés.
Na praia do Goiabal, a maioria dos moradores foi embora e ficaram quase somente as casas dos pescadores.
A vida dos pescadores na foz do Amazonas segue o ciclo das marés. Na praia do Goiabal, voltam da coleta de peixes presos nas estacas com rede.
Peixes de água doce, na maioria pequenos bagres migradores, capturados na praia do Goiabal.
Thiago Monteiro de Lima é dono de um dos poucos negócios na praia do Goiabal. Ele mostra o terraço destruído pelo mar.
Águas grandes
Quando ouvimos os ribeirinhos, muitos nos contaram que as marés altas eram apenas esperadas durante os dias de lua cheia. Porém, nos últimos anos, a mudança é notável e as marés lançantes são registradas tanto nos dias de lua cheia como nos de lua nova.
A percepção dos moradores converge com o que se observa nos dados. Uma análise inédita para a região da foz do rio Amazonas entre os anos de 1995 e 2025 revela uma tendência consistente do aumento do nível do mar.
Utilizando um modelo do Copernicus que combina simulação numérica com observações de satélite, o pesquisador Guilherme Couto, mestre em Modelagem Computacional pela Universidade Federal de Juiz de Fora, produziu uma análise que indica que, nas últimas três décadas, houve um aumento médio de 4,13 mm por ano. Em 31 anos, isso equivale a um crescimento acumulado de 12,4 cm no nível do mar, em média, na região, segundo o modelo.
Entre 1995 e 2025, mais da metade dos anos tiveram altura do nível do mar superior à média histórica, segundo a análise de Couto, que faz parte do programa de formação em ecologia quantitativa do Instituto Serrapilheira. Em 2025, por exemplo, durante todo o período, o mar na região da foz do rio Amazonas ficou acima desse limiar. Ou seja, mesmo a altura mais baixa de 2025 seguiu sendo mais alta do que o nível mais alto de anos antes de 2010.
Os dados reforçam o que é relatado pelas comunidades costeiras na Amazônia. De que as marés altas não são somente mais constantes como mais duradouras.
Olhando-se o calendário de inundações na região, é possível visualizar como ocorreram estas transformações.
“Os quadrados vermelhos alertam que, naquele mês, a média mensal do nível das águas cruzou e superou a altura dos 10% piores meses do período de referência. O padrão visual comprova a mudança climática na região: os primeiros quinze anos do gráfico são quase inteiramente azuis, enquanto a última década se transforma em um bloco vermelho quase contínuo”, descreveu Guilherme Couto na nota metodológica que detalha as análises feitas sobre o aumento do nível do mar.
Outro parâmetro observado pela análise de Couto é a duração e a severidade destas inundações causadas pelo mar. Os gráficos mostram que os anos recentes estão passando até 12 meses ininterruptos cruzando a linha de risco. O tempo de inundação crítica costeira cresce 3,8 meses a cada década.
“O painel inferior (em vermelho sombreado) é a severidade. Ele responde à seguinte pergunta: nos meses em que a água passou da linha de risco, o quão acima ela foi? A rampa crescente prova que a inundação não apenas dura mais tempo, como está cada vez mais volumosa sobre o litoral”, apontou.
Um ambiente, muitos ecossistemas
O Amazonas realiza a maior descarga de água doce no oceano em todo o planeta. Quase um quinto de toda a água que se mistura ao mar vem deste enorme rio, 17% para ser mais exato. Por isso, quando as suas águas se encontram com o Atlântico, o destino de milhares de seres vivos é determinado. Essa dinâmica da pluma em conjunto com as correntes marítimas e ventos, acabaram por criar um ambiente muito propício para a vida.
Ao longo da costa amazônica brasileira, que se estende do estado do Amapá ao Maranhão, se encontra uma inigualável biodiversidade marinha, uma das maiores faixas de manguezais contínuas em todo o mundo. Somente na Amazônia estão concentrados 80% da extensão de mangues de todo o Brasil. Essa explosão de vida também está intimamente conectada com o bem viver das comunidades de pescadores artesanais e também com o desempenho da pesca industrial.
“A pluma do rio Amazonas é um dos maiores fenômenos produtivos do mundo”, diz o ecólogo marinho Eduardo Tavares Paes, da Universidade Federal Rural do Pará, que vem há quinze anos dedicado a estudar o que ele chama de ‘mar amazônico’. Ele diz que sua dedicação tem sido, além de pesquisas no ambiente da foz, fazer uma síntese de muitos estudos, “juntando as peças”, como ele mesmo diz.

Paes explica que essa qualidade única do ambiente marinho da foz do rio Amazonas se deve à relação entre diferentes ecossistemas – os manguezais, os recifes de coral e a própria pluma do rio. Por isso, este mar amazônico pode ser considerado um metaecossistema, ou seja um ecossistema que só existe graças a interação de outros ecossistemas. “A pluma, entre estes ecossistemas, talvez seja o mais importante, com seus nutrientes, é um ecossistema em si. E por sua magnitude é provavelmente o principal modulador da salinidade do Atlântico”, diz o pesquisador.

A pluma, entre estes ecossistemas, talvez seja o mais importante, com seus nutrientes, é um ecossistema em si. E por sua magnitude é provavelmente o principal modulador da salinidade do Atlântico.
Eduardo Tavares Paes, ecólogo marinho
A pluma, ou a pegada de água doce e nutrientes, entra até 1000 km dentro do mar, nos períodos de maior descarga – geralmente de fevereiro a abril de cada ano. Ela traz grande quantidade de nitrogênio e carbono dissolvido, garantindo que exista ali uma camada de matéria orgânica ideal para o sucesso de milhares de espécies, como a piramutaba e a pescada amarela, ambas capturadas em grande quantidade pelos barcos industriais com redes de arrasto.
Um estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas da Biodiversidade Marinha da Região Norte (Cepnor) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), publicado em 2025 identificou 3.286 espécies que habitam a foz, sendo muitas delas espécies migratórias. Considerando o status de conservação das espécies, 67 delas estão ameaçadas em algum nível de acordo com a lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil, principalmente peixes cartilaginosos (40%), peixes ósseos (31%) e aves marinhas (11%). Entre os peixes ameaçados está, por exemplo, a dourada, espécie que realiza a maior migração de água doce em todo o mundo. Leia reportagem especial sobre ela aqui.
Paes aponta que pouco conhecemos do mar amazônico, um ambiente do qual dependem milhares de comunidades que vivem nas costas. Apenas no chamado Salgado Paraense, 40 mil famílias retiram sustento dos manguezais preservados e da pesca na foz. O estudo do Cepnor afirma que “as pescarias geram mais de 3.500 empregos na região, criando um mercado para mais de 330 empresas formais e 2.796 pequenas empresas, que geram mais de US$ 82 milhões por ano, somente em exportações.”
Ao longo dos anos, o pargo e o camarão rosa têm sido os principais produtos exportados desta região, enquanto espécies como a dourada e a piramutaba, que são bagres migradores com ciclos de vida entre o rio e o mar, servem mais ao mercado doméstico.
“Conhecemos muito mais sobre a floresta e o que ocorre na parte continental da Amazônia. São anos de pesquisa sobre as questões terrestres da Amazônia e poucos recursos dedicados às questões marinhas”, pontua o pesquisador.

Intensificação do ciclo hidrológico
Alguns cientistas, como o próprio Paes e colegas seus do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), têm chamado atenção para o que classificam como uma intensificação do ciclo hidrológico na Amazônia. Ou seja, estações úmidas e secas magnificadas. De acordo com pesquisas publicadas com medições de estações pluviométricas e fluviométricas, a intensidade das chuvas aumentou nas últimas décadas. Esse volume também foi captado na vazão do Amazonas.
Existe um “efeito sinérgico” entre o maior volume de água doce chegando na foz e o aquecimento das águas do Atlântico. O aumento da temperatura do oceano leva mais vapor para a atmosfera e com isso eleva a intensidade do período chuvoso. Essa maior quantidade de água faz com que o rio tenha mais força contra o mar, mas, na verdade, o período subsequente, o da seca, também é mais intenso, exatamente pelo calor gerado com a quantidade de umidade na atmosfera.
O pesquisador Nelson Gouveia, colaborador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e atualmente vinculado à Universidade de Victoria no Canadá, tem se dedicado a investigar como as mudanças climáticas e o desmatamento podem estar afetando o ambiente da foz do Amazonas. Foi ele, junto com colegas do INPE, quem publicou em 2019 um artigo descrevendo a intensificação do ciclo hidrológico e como isso se relaciona com o desmatamento que ocorre na Amazônia.
“A gente está desmatando a Amazônia. Isso faz com que a água que precipita fique menos tempo na bacia. Ou seja: chove e a água já vai escorrendo pela foz e já vai caindo no mar. Isso altera a resiliência ali da bacia, a água vai logo embora. Então aquele processo de evapotranspiração, formação dos rios voadores, vai sendo impactado”, explica Gouveia.
Outra linha de estudo que está se aprofundando busca os impactos do desmatamento sobre o comportamento da pluma da Amazônia no futuro. Em um artigo ainda não publicado e sob revisão, Gouveia e pesquisadores do INPE modelaram qual será o impacto caso o desmatamento volte a crescer pelos próximos anos. Uma projeção de perda de 45% da vegetação da Amazônia mostra que poderia ocorrer uma redução de 50% na descarga dos rios tributários ao sul da Bacia do Amazonas. Ou seja, embora a mudança climática possa estar gerando um aumento na precipitação, no longo prazo, a tendência é a redução da quantidade de água, apontam os pesquisadores.
Ciência cidadã para entender as mudanças
Para acompanhar as transformações trazidas pelo aumento do nível do mar, como a erosão e o problema de intrusão salina, pesquisadores da Universidade Estadual do Amapá (UEAP) junto com o IEPA, o instituto de pesquisas do estado, criaram o Observatório Popular do Mar (OMARA), em aliança com as comunidades ribeirinhas e costeiras.
O observatório já fez medições em 72 localidades em 11 comunidades desde 2022. O projeto, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), promove o uso da ciência cidadã em investigações sobre os impactos das mudanças climáticas. A metodologia consiste em realizar pesquisas com apoio de membros das comunidades na coleta e interpretação dos dados.

Em maio, este repórter e o fotógrafo da InfoAmazonia acompanharam uma missão do projeto OMARA às comunidades do Baixo Amazonas, a cerca de 100 km de Macapá, a capital do Amapá. Essas comunidades, apesar de estarem a dezenas de quilômetros do encontro do Amazonas com o Atlântico, sofrem influência direta das altas e baixas marés. Na comunidade de Bacaba, no rio do mesmo nome, a pesquisadora Janaína Freitas Calado recrutou, na ocasião da visita, um jovem comunitário para medir a taxa de erosão causada pelas marés altas.
Janaína trabalha na mobilização das comunidades e mostrava ao novo pesquisador-cidadão, Diogo Araújo da Costa, de 16 anos, como posicionar um celular em uma estação de metal fixa próxima à borda do rio. As fotos coletadas são enviadas pelos monitores em um grupo de Whatsapp junto com as informações sobre as mudanças na topografia causadas pela erosão das marés. O estudante, que cursa o 9º ano, também deverá registrar em uma ficha do projeto a frequência das marés-lançantes.

Em Bacaba, Nelito Corrêa da Costa foi o pioneiro da comunidade ao herdar as terras de seu avô. Quando a nossa equipe de reportagem chegou à vila habitada por 33 famílias, os restos de uma grande festa em comemoração aos 70 anos de seu Nelito ainda se espalhavam pelo centro comunitário. Eles celebraram a história da comunidade, viva na memória do patriarca. Em uma conversa na cozinha de sua casa, onde o neto de apenas um ano de um ano deliciava-se com açaí, ele nos apontava os impactos das mudanças no clima durante sua vida.
Na sua percepção, “está muito mais quente” e a frequência das marés altas, muito maior. “Isso aqui agora é direto”, diz mostrando a água por baixo das tábuas suspensas de sua casa. Por isso diz apoiar o projeto de ciência cidadã promovido pela universidade. “É muito importante entender o que está mudando”, afirma.
Por um lado, Corrêa se preocupa com essa intensidade da maré. Por outro, ele e seus parentes têm visto um crescimento na produção de açaí, cujo a variedade presente nesta parte do Amazonas, depende de terrenos alagados para dar o fruto, hoje valorizado internacionalmente. Como a maré tem permanecido mais alta por mais longo tempo, a colheita do açaí é melhor.
Na comunidade Nossa Senhora de Nazaré, a cerca de 10 quilômetros de Bacaba, está o encontro do rio Macacoari com o Amazonas. Ali, Aldemir Santos Corrêa conta que, nos últimos anos, algumas casas tiveram de ser removidas por causa da erosão. Enquanto ele conversava com a InfoAmazonia, a maré estava enchendo debaixo das tábuas da própria casa. Uma das filhas de Aldemir, de 9 anos, escutava assustada ao que o pai nos contava: “em 15 anos, essa parte do território já não vai existir”. Na escola em que ela estuda, os pesquisadores do Omara instalaram uma régua para acompanhar o ciclo das marés, uma forma de envolver as gerações mais novas no esforço de entender como o seu território está em completa transformação.
O pai de Aldemir, Paulo Edilson Corrêa, conhecido como seu Martinho é o mais antigo na comunidade. Ele confirma a percepção de que as chuvas, cheias e secas já não respeitam uma regularidade. “Estamos no final de maio e temos uma água imensa”, ele observa. Assim como os primos da comunidade de Bacaba, ele aponta que agora tem sido possível colher açaí o ano inteiro. “O verão é mais curto”.






A geógrafa Valdenira Ferreira Santos, pesquisadora do IEPA, é uma das fundadoras do OMARA e uma das estudiosas mais antigas das transformações em curso na foz do Amazonas e em especial na costa do Amapá. “O que podemos observar é que existem ciclos, que se relacionam com os ciclos de El Niño e La Niña. Mas a intensidade desses ciclos está aumentando”, ela pontua ao descrever as cheias e as secas extremas sendo enfrentadas na Amazônia.
Ela enfatiza a importância de seguir medindo para saber o que poderá acontecer com as comunidades, as atividades econômicas e a biodiversidade na região. “Com as medições, a gente comprova o que os antigos estão relatando. “Nosso trabalho é para tornar visível este conhecimento”, disse.
Os impactos sobre a pesca
A transformação da foz representa mudanças para um dos setores mais importantes da economia da Amazônia brasileira: a pesca. O Pará é o segundo estado com maior atividade pesqueira em todo o país, perdendo apenas para Santa Catarina. O estado não apenas tem um forte consumo regional, como exporta peixes a outros estados e subprodutos como a bexiga natatória, conhecida como grude, altamente valorizada por empresas estrangeiras, especialmente chinesas.
No Pará, três espécies centrais para o setor de pesca estão ligadas ao ritmo das marés: a piramutaba, a pescada amarela e a dourada. Isso sem falar em outras espécies como os camarões rosa e o regional de água doce, que estão muito presentes na culinária e desempenham grande papel no faturamento de empresas pesqueiras do estado.
A professora Bianca Bentes, da Universidade Federal do Pará (UFPA), conta que, apesar da falta de dados, muito provavelmente há um declínio na maioria das espécies pesqueiras exploradas na foz do Amazonas. Ela lembra que há cerca de 20 anos, quando fazia a sua tese de mestrado, ainda era possível encontrar o camarão regional nos igarapés de Belém, até mesmo os que estão dentro do campus da federal paraense. Hoje em dia, não mais.
“Inclusive, alguns municípios nessa área, que tinha o festival do camarão, não têm mais porque não há camarão. Qual é a nossa hipótese? De que está havendo uma salinização. Ou eles estão desaparecendo, morrendo mesmo, ou eles estão indo para outros locais”, disse Bentes em uma entrevista no campus da UFPA, em Belém.
A pesquisadora acredita que alguns fatos recentes revelam que os peixes e crustáceos têm respondido a alterações do ambiente. A safra recorde da piramutada em 2025 foi um dos exemplos citados por ela. Para Bentes, a indústria da pesca na foz obteve esse bom resultado por conta da seca extrema ocorrida em toda a bacia Amazônica no ano anterior. Como peixes migradores se guiam pelo pulso do rio para deixar a foz e seguir rio acima, as piramutabas teriam interrompido sua migração devido à seca.
O presidente do sindicato da indústria da pesca no Pará (Sinpesca), Apoliano Oliveira do Nascimento, discorda da hipótese levantada pela professora Bianca Bentes. Segundo ele, as pescarias do setor seguem reduzindo de tamanho e não seria possível dizer que as variações estão sendo causadas por mudanças no clima. Para ele, os custos de combustível e mão de obra são a principal causa da redução do setor. Mudanças na regulação para a exportação de camarão ao mercado americano e japonês, segundo ele, também afetaram diretamente o setor.
Considerado um dos principais empresários da pesca no Pará, Nascimento é dono de 24 embarcações, das quais, ele afirma, metade estão fora de funcionamento nos últimos dois anos. “Um barco para operar hoje em dia custa R$ 300 mil reais. Esse é o custo para passar 50 dias no mar. O habitat pesqueiro de camarão na costa norte é imenso. […] O preço do nosso produto não acompanhou o custo da operação,” diz o presidente do Sinpesca.
No famoso Mercado Ver-o-Peso de Belém, um dos principais entrepostos de peixes de todo o Brasil, outro empresário, conhecido como Gil da Pesca, reclama das condições de trabalho, mas relata mudanças na sazonalidade. Seu negócio é a venda da pescada amarela, uma das espécies mais apreciadas e que pode ser encontrada em alto-mar, por quase toda a costa amazônica, do Maranhão ao Amapá. Por anos, a temporada para sua pesca concentrava-se nos períodos mais secos, a partir de maio. Agora, não apenas a pescada amarela aparece fora de época como é difícil encontrar as grandes como se via no passado, explicou o empresário durante um encontro na Pedra do Peixe, o ponto tradicional de chegada das embarcações pesqueiras em Belém.





A forma como ele trabalha é fornecendo recursos financeiros para os barcos pesqueiros. Por isso, os empresários que equipam as frotas são chamados de armadores. No caso da pescada amarela, os empresário financiam barcos médios que passam semanas em alto mar e depois compartilham os ganhos da captura. É um negócio de risco, pois a quantidade pescada pode não compensar o capital investido. Assim como Apoliano Nascimento, Gil se queixa dos custos para operar um grande número de barcos. Com a quantidade menor de peixes e os preços do combustível e alimentação em alta, a conta não fecha.
Ainda existem muitas dúvidas sobre como as transformações que ocorrem na foz do Amazonas, ou como o aumento do nível do mar e as mudanças climáticas afetam o dia-a-dia dos pescadores artesanais, como os que visitamos no Goiabal, e dos empresários e armadores como Apoliano e Gil.
Muitas das questões sem resposta também impulsionam pesquisadores a estudar e alertar sobre os impactos destas transformações. Elas são reais e parecem chegar cada vez mais perto da vida das comunidades e da economia que depende da interação entre o Amazonas e o Oceano Atlântico.
Referências científicas
1. Serviço do Meio Marinho Copernicus
(Consultado em julho de 2026)
2. Contribution of the Amazon River Discharge to Regional Sea Level in the Tropical Atlantic Ocean
Por Pierrick Giffard et al. (2019)
3. Ramsar Sites Information Service – Amazon Estuary and its Mangroves
(Consultado em agosto de 2026)
4. Expedição científica registra megadunas submarinas, cânions gigantes e enorme biodiversidade no fundo do mar – Site UFRA
(consultado em julho de 2026)
5. Meta-ecosystems: a theoretical framework for a spatial ecosystem ecology
Por Michel Loreau et al (2003)
6. The Role of the Amazon River Plume on the Intensification of the Hydrological Cycle
Por N. A. Gouveia el al (2019)
7. Biodiversity hotspots and threatened species under human influence in the Amazon continental shelf
Por Alex Klautau et al (2025)
8 – Intensification of the Amazon hydrological cycle over the last two decades
Por M Gloor et al (2013)
9 – Projected Amazon forest loss alters tropical Atlantic circulation and surface heat exchange through reduced freshwater input
Por N.A. Gouvea et al (Pre-print – 2026)

Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente. E esta reportagem também foi produzida com o apoio da Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia.