De um projeto de geojornalismo lançado na Rio+20 a uma rede de jornalistas amazônicos e transfronteiriços, celebramos 14 anos reafirmando nosso compromisso com o jornalismo da Amazônia, para a Amazônia e pela Amazônia.
Em vários momentos da história da InfoAmazonia, uma piadinha de duplo sentido (para não dizer infame) apareceu nos feeds de nossos editores e repórteres: “trabalhando em rede”, “importante trabalhar em rede”. Na imagem, alguém da equipe aparecia alegre, deitado em uma boa rede, celular à mão, em algum território amazônico ou viajando em barco regional.

O que era só uma brincadeira, no entanto, nunca fez tanto sentido quanto agora. Ao completar 14 anos, neste 17 de junho, celebramos o que fazemos com mais amor: trabalhar em rede. Reforçamos nossa aposta em uma rede de colaboradores e meios de comunicação em todos os estados da Amazônia brasileira e nos demais países amazônicos.
A InfoAmazonia surgiu em 2012, lançada durante a Rio+20 como um projeto especial do site ((o))eco dedicado a integrar mapas, informações públicas e reportagens sobre a Amazônia. Desde aquele momento, a ideia era conectar dados geográficos e histórias dos países amazônicos para ampliar a compreensão sobre a região e seus desafios.
O projeto cresceu. Em 2020, nós – Gustavo, Juliana e Stefano – decidimos fundar uma associação própria e formar uma equipe permanente dedicada à produção de conteúdo para o site. A partir dali, a InfoAmazonia deixou de ser uma plataforma de dados e reportagens para se consolidar também como uma organização jornalística sobre a Amazônia.
Pouco depois, em 2021, nasceu a Rede Cidadã, uma aliança de meios jornalísticos da região voltada à colaboração na cobertura socioambiental. Foi dessa articulação que surgiram investigações premiadas, como a reportagem feita em parceria com o site Vocativo que revelou como garimpeiros desviavam remédios do SUS destinados aos Yanomami. Também nasceram desta aliança uma série sobre a Amazônia Quilombola e outra que mapeou a população mais vulnerável a eventos climáticos extremos na região.
Um dos pontos mais marcantes dessa trajetória foi a Casa do Jornalismo Socioambiental, durante a COP30, em Belém. Ali, realizamos o sonho de cobrir de forma colaborativa um momento histórico, em que todos os olhos do mundo estavam voltados para a Amazônia – e em que jornalistas da própria região puderam disputar espaço, contexto e protagonismo na cobertura global sobre o evento.

Ainda no ano passado, lançamos o Até a Última Gota, uma investigação construída entre quatro veículos de países amazônicos ao longo de mais de um ano. O projeto traçou um panorama dos impactos ambientais e sociais da exploração de petróleo na Amazônia em países que já exploram combustíveis fósseis há décadas, justamente no momento em que o governo do Brasil tentava liberar a exploração na foz do rio Amazonas.
Meses depois, como parte de uma aliança global que deu origem à série Fueling Ecocide, revelamos o único bloco de gás natural ativo em uma área protegida da Amazônia Legal. O esforço colaborativo e transfronteiriço alcançou diferentes públicos ao redor do mundo e gerou impactos objetivos: recentemente a empresa responsável pelo bloco sobre o território indígena revelado pela nossa investigação desistiu da exploração.
Nosso trabalho em rede também passa pela formação. Entre cursos e oficinas, capacitamos – e aprendemos com – centenas de jornalistas; só em 2024, 359 concluíram nosso curso de 40 horas sobre jornalismo investigativo ambiental e geojornalismo.
Quando a primeira versão de nosso site foi lançada, em 2012, havia certo otimismo no ar. O desmatamento na Amazônia estava em um dos menores níveis da série histórica, e a Rio+20 reforçava a expectativa de que dados abertos, transparência e cooperação internacional poderiam fortalecer a democracia e a proteção ambiental.
De lá para cá, as coisas mudaram bastante. A política ambiental sofreu retrocessos no Brasil e em outros países. Um desprezo pela democracia leva a mais guerras, autoritarismo e desinformação. A lentidão no enfrentamento da crise climática tornou o cenário mais duro. A própria COP30, que para nós foi um marco de colaboração entre jornalistas da Amazônia, ficou aquém da urgência que a crise climática exige.
Ainda assim, decidimos celebrar. Não por ignorar os desafios, mas porque completar 14 anos também é reafirmar o nosso compromisso com o jornalismo da Amazônia para a Amazônia e pela Amazônia.
Celebramos porque seguimos convencidos de que muitos dos caminhos para um mundo melhor surgirão daqui. Dos rios, das florestas, das cidades e dos territórios amazônicos. É na Amazônia que a história está se fazendo a cada dia.
Para isso, como sempre dizemos, não vai bastar só uma reportagem, ou só um repórter. Vamos precisar colecionar muitas histórias, dados, vozes e olhares neste mapa vivo que é a InfoAmazonia.
Um mapa vivo em que as pessoas por trás dele vão se ligando por linhas finas, mas fortes, de colaboração. Linhas que atravessam rios, fronteiras, redações, comunidades e territórios e tecem uma rede: uma rede de jornalismo, uma rede que balança no balanço da Amazônia, uma rede boa de trabalhar.