Proposta é formular estratégias de adaptação nos territórios indígenas do Maranhão. Projeto também busca incluir o saber indígena nas políticas climáticas internacionais.

No Maranhão, mulheres indígenas vão monitorar alterações no clima, como mudanças no regime de chuvas e nos ciclos de plantio, para definir estratégias de adaptação climática. Conduzido pela Articulação de Mulheres Indígenas do Maranhão (Amima): Organização político-organizativa formada por mulheres indígenas do Maranhão que busca fortalecer presença feminina nos espaços de decisão, incidência política e defesa de direitos., o projeto combina o debate sobre decisões de conferências climáticas com experiências locais, reunindo lideranças de diferentes povos para construir diagnósticos sobre impactos na produção de alimentos, no acesso à água e na saúde das mulheres.

A iniciativa aposta no compartilhamento de vivência, formações e escutas coletivas para preparar mulheres como lideranças climáticas e incidir nos espaços de decisão. A iniciativa tem início no segundo semestre deste ano e segue até 2029.

“Como nós vamos nos fortalecer como mulher nos territórios e como a gente vai lidar com esses impactos diretamente nele?”, questiona a líder indígena Diolina Krikati, uma das coordenadoras do projeto. A formação parte justamente dessa pergunta e do princípio de que, antes de propor soluções, é necessário ouvir as populações indígenas.

A proposta é promover a troca de experiências entre os povos do estado, fortalecendo redes de apoio até 2029. Ao longo dos encontros, a iniciativa também deve contribuir para identificar impactos e construir respostas específicas para cada território.

O projeto das mulheres indígenas do Maranhão foi aprovado pelo Fundo Indígena da Amazônia Brasileira (Podáali), que apoia iniciativas voltadas à autodeterminação e ao protagonismo dos povos originários, com foco na valorização cultural, sustentabilidade e gestão autônoma dos territórios. O Podáali é organizado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e, nesta chamada, contou com o financiamento de diferentes organizações internacionais e nacionais.

Esta foi a terceira chamada de apoio a projetos e nesta selecionou 42 iniciativas, somente de mulheres, voltados para a discussão do clima. Ela reforça que as mudanças no clima têm afetado diretamente os roçados, as sementes usadas no artesanato, a alimentação, os rios e os próprios corpos das mulheres indígenas.

“Recebemos 204 inscrições de organizações de mulheres de toda a Amazônia, o que revela não apenas um alto nível de mobilização, mas também a potência das iniciativas que vêm sendo construídas nos territórios. Essas propostas expressam respostas concretas às violações de direitos e aos impactos da emergência climática, a partir das realidades vividas pelas próprias comunidades”, diz Valéria Paye, diretora-executiva do Podáali. 

A preocupação com os impactos, segundo Krikati, surgiu durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), no final do ano passado. Em Belém, elas se articularam com outras organizações da Amazônia, levando suas pautas para o debate global. 

“Ano passado, veio o anúncio da COP, e a gente começou a se perguntar ‘por que não pensar em clima?’ e passamos a compartilhar nossas vivências. A gente, que é mulher, percebe os impactos todos os dias”, afirmou. 

Mais do que reagir à crise climática, iniciativas como as da Amima apontam para uma mudança no papel das mulheres, que ainda têm uma baixa participação nos espaços formais de poder no país. De acordo com dados da da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres, o Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de participação política feminina e o último lugar na América Latina. 

Impacto das mudanças climáticas para as mulheres

Entre os impactos relatados, estão mudanças nos ciclos agrícolas. Plantios feitos em períodos tradicionalmente certos deixam de produzir por falta de chuva ou por secas prolongadas. “A pessoa faz o plantio no período que era acostumada e não vem chuva”, relata Diolina. A consequência é a perda de alimentos, a insegurança alimentar e uma mudança na rotina das comunidades.

Os efeitos relatados vão além da produção. Entre os temas discutidos entre mulheres de diferentes povos, segundo ela, está a percepção de mudanças no próprio corpo, especialmente no ciclo menstrual. “A gente percebeu muito que afetou o ciclo menstrual da mulher. Porque nosso psicológico e nosso corpo estão ligados à forma como lidamos com nosso território. Então, se tem que recolher a mandioca, é porque está perto da menstruação vir, mas se não dá pra recolher, isso atrapalha os nossos pensamentos”, conta a líder indígena. 

Nosso psicológico e nosso corpo estão ligados à forma como lidamos com nosso território. Então, se tem que recolher a mandioca, é porque está perto da menstruação vir, mas se não dá pra recolher, isso atrapalha os nossos pensamento.

Diolina Krikati, líder indígena e coordenadora do projeto

Essas mudanças são percebidas a partir de modos de vida, como os ciclos da lua e os sinais do próprio corpo. “Às vezes não vem ou vem muito antes”, explica. 

Para ela, fatores como estresse, insegurança alimentar e mudanças no cotidiano podem estar relacionados a essas alterações. Uma solução apontada pelas mulheres da Amima é retomar a construção de um calendário agrícola próprio, adaptado às mudanças sentidas nos últimos anos.

Diante desse cenário, a ideia também é iniciar um monitoramento a partir de dados que já estão sendo apresentados por cientistas. Os resultados e relatórios apresentados na COP30 e informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são documentos que pretendem estudar. É a partir dessa estratégia que desejam fomentar soluções para seus territórios.

No momento, estão em fase de planejamento das formações. “A gente vai voltar o nosso conhecimento tradicional e juntar também o conhecimento do não indígena”, explica Diolina. 

Fundo de clima para mulheres indígenas 

A terceira chamada do Fundo Podáali surgiu de um processo coletivo, construído a partir de escutas realizadas durante a IV Marcha das Mulheres Indígenas, em agosto, em Brasília, e de uma articulação com a União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), que atua na defesa dos direitos das mulheres na região. A proposta também passou pelo Conselho Deliberativo do fundo, consolidando o tema “Guardiãs da Amazônia: Mulheres Indígenas que Defendem as Vidas e a Justiça Climática”.

As propostas denunciam violações como a dificuldade de manter a saúde mental de jovens e adultos, a insegurança alimentar e a falta de mulheres na política e apresentam respostas concretas à crise, como o fortalecimento de redes de apoio indígenas, iniciativas de empreendedorismo e incidências em espaços de poder. Nesse cenário, o papel das mulheres indígenas vai além da liderança. “São líderes, parteiras, brigadistas, pajés, educadoras, mães e cuidadoras, que sustentam o bem viver em seus territórios”, afirma Paye. 

Organizações lideradas por mulheres no Acampamento Terra Livre 2026. Foto: Karina Pinheiro/ Podáali

Apesar de avanços no reconhecimento internacional do papel dos povos indígenas no combate à crise climática, a diretora-executiva aponta que o “reconhecimento ainda é, muitas vezes, mais presente no discurso do que na prática”.

Entre os principais desafios estão a participação efetiva em espaços de decisão, o acesso direto a financiamento e o reconhecimento da demarcação de terras indígenas como política climática essencial. Para o Podáali, apoiar iniciativas baseadas em conhecimentos ancestrais é uma forma concreta de enfrentar esses obstáculos.

“Para nós, o território é sagrado. É ele que sustenta a vida, alimenta os povos e mantém viva a conexão com nossos ancestrais. É fundamental que a sociedade não indígena compreenda que o meio ambiente e os territórios e os direitos indígenas têm um valor inegociável”, conclui. 

Para nós, o território é sagrado. É ele que sustenta a vida, alimenta os povos e mantém viva a conexão com nossos ancestrais. É fundamental que a sociedade não indígena compreenda que o meio ambiente e os territórios e os direitos indígenas têm um valor inegociável.

Valéria Paye, diretora-executiva do Podáali

Política climática para mulheres indígenas

Além de iniciativas próprias de organizações e coletivos indígenas, o governo federal incorporou a perspectiva de gênero na política climática. Em março deste ano, com o lançamento do Plano Clima, a chamada Estratégia Transversal Mulheres e Clima também foi incluída e, dentro dela, um reconhecimento explícito do papel e da vulnerabilidade das mulheres indígenas. 

Na construção do plano, mais de 250 mulheres indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais participaram de escutas realizadas pelo governo, contribuindo diretamente para a formulação das diretrizes.

Mulheres indígenas em marcha na Zona Azul da  30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) Foto: Bruno Peres/ Agência Brasil

Como ponto de partida, o documento reconhece que a emergência climática não impacta todas as pessoas da mesma forma. Mulheres e meninas, especialmente indígenas, estão entre as mais impactadas por eventos extremos, insegurança alimentar e perda de território.

Apesar dos avanços, o documento indica que o desafio está na implementação. O plano voltado às mulheres prevê 64 metas distribuídas até 2035, mas depende de articulação entre diferentes níveis de governo, ou seja, principalmente do interesse político.

Ao mesmo tempo, o plano reconhece essas mulheres como protagonistas. O texto afirma que elas, em sua diversidade, sustentam a resiliência das comunidades e desenvolvem práticas concretas de enfrentamento à crise, como sistemas agroecológicos, manejo de recursos naturais e redes de cuidado.

A estratégia incorpora princípios internacionais, como o direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). No contexto climático, esse instrumento é apontado como fundamental para assegurar a participação efetiva de mulheres indígenas nas decisões sobre seus territórios e recursos naturais.

O plano dialoga com normas internacionais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) e declarações adotadas na Quarta Conferência Mundial sobre a Mulheres, que destacam como a mudança do clima afeta diretamente seus direitos territoriais, culturais e sociais. A resposta, segundo o documento, passa por garantir protagonismo político e acesso a processos de decisão.

A estratégia também incorpora a ideia de justiça climática feminista, baseada em quatro pilares: reconhecimento, redistribuição, representação e reparação. Isso inclui reconhecer os saberes tradicionais das mulheres indígenas e redistribuir recursos para apoiar suas iniciativas.


Imagem de abertura: Mulheres indígenas do Maranhão em reunião para definir coordenadoras, em 2023 Foto: Genilson Guajajara/Coiab

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Jullie Pereira

Repórter na InfoAmazonia, Jullie nasceu e vive em Manaus, no Amazonas, Brasil, onde seu trabalho se concentra na cobertura socioambiental e de direitos humanos. Anteriormente, trabalhou para a agência...

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