
“A terra é o útero do tempo”, diz Carlos “Tijolo” Augusto da Silva, arqueólogo indígena dos povos Munduruku e Apurinã, ilustrando com sabedoria ancestral a mudança constante das paisagens. “A floresta é um livro aberto. Vale olhar para ela, fazendo um esforço para lê-la e compreendê-la”. A Amazônia, que cobre nove países e ocupa 60% do território brasileiro, sofreu um processo de construção ao longo de milhares de anos. E o protagonista foi o fogo.
Desde a era do Australopithecus: Australopithecus é um gênero de hominíneos (parentes próximos dos seres humanos) que viveu na África entre 4 milhões e 2 milhões de anos atrás., explica o arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), o uso do fogo se tornou alicerce para as civilizações. “Somos o que somos, como espécie biológica, graças ao fogo”. Por séculos, o fogo modificou a floresta sem destruí-la e foi decisivo para a formação da cultura local como agente de práticas coletivas de cultivo.
Precisa-se considerar o fato de que, há milênios, os indígenas manejam o fogo de forma adaptada, respeitando uma série de técnicas desenvolvidas por eles através das gerações. Caroline Caromano, arqueóloga e cientista do Naturalis Biodiversity Center, centro de pesquisa na Holanda, reitera que além do controle sobre o fazer, existe uma relação de absoluto respeito. “Fogo, plantas, animais, tudo tem dono (que são seres não visíveis) para os indígenas. Ao interagir, é necessário pedir licença”, afirma.


De acordo com as narrativas míticas da etnia Asurini, residente à margem direita do rio Xingu, no Pará, há que se solicitar autorização ao “dono do fogo” antes de realizar a queima de um roçado. “É um fogo bonito, restrito, aceso em local adequado que eles sabem qual é por já terem feito um estudo prévio, levando em consideração a época do ano, a direção e velocidade do vento, a temperatura do dia, a umidade, etc”, prossegue Caroline.




Fogo cruzado
Hoje, contudo, há um outro tipo de fogo, que destrói com intensidade e frequência maiores. Bem distinto das práticas ancestrais, seu rastro de devastação está associado ao desmatamento, que sistematicamente transforma florestas em pastos ou áreas de monocultura. Um processo que começa com a invasão de terras para extração de madeiras nobres, derrubada da vegetação restante e queimada para limpeza do campo.
Esses focos de fogo criminoso começam fora das terras indígenas e avançam para dentro delas. “Vários grupos organizam brigadas para lutar contra os incêndios provocados propositalmente com o intuito de destruir. A Ka’apor, no Maranhão, é uma das brigadas empenhadas na contenção das chamas, que representam uma ameaça recorrente ao seu território”, enfatiza Caroline.
Em 2024, o bioma amazônico foi o que mais queimou no Brasil. Segundo o Monitor do Fogo, do MapBiomas – rede de ONGs, cientistas e empresas – os 17,9 milhões de hectares atingidos correspondem a mais da metade (58%) de toda a área afetada naquele ano, uma extensão maior do que o total registrado no país em 2023.
“A Amazônia não queima sozinha. As forças que estão por trás do fogo destruidor são muito poderosas. O impacto ambiental causado por elas é imenso. Esse é o grande dilema do Brasil hoje”, diz o arqueólogo Eduardo Neves.

Entre os nove países que formam a Amazônia, o Brasil aparece como o que, percentualmente, mais devasta a floresta. Segundo dados do Relatório Anual de Desmatamento (RAD) 2024, lançado em maio do ano passado, pelo MapBiomas, 436 dos 559 municípios pertencentes ao bioma registraram algum desmate em 2023, ou seja, 78% do total.
Embora indicativos oficiais, como os fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apresentem alta nos focos de incêndio nos últimos anos, durante o governo de Lula, o comparativo mostra que há um aumento ainda mais substancial no histórico dos anos anteriores: “o governo Bolsonaro [2019-2022], de forma proativa, atacava quem defendia a floresta, que foi largada à própria sorte. Havia uma parceria entre o governo e o crime ambiental porque no fundo eles compunham o mesmo quadro de interesses”, ressalta Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, coalizão de organizações da sociedade civil.
Em outubro de 2024, as queimadas se intensificaram no país, e pela primeira vez, desde 2019, alerta o MapBiomas, “a área de formação florestal queimada no bioma Amazônia superou a área de pastagens atingidas, revelando um avanço preocupante da destruição em regiões naturalmente preservadas”. O fato de as áreas preservadas serem atingidas fez expoentes do agronegócio tentarem associar os incêndios aos povos originários.
“Tal discurso vai além do desconhecimento. É uma estratégia de ataque que tenta criar uma visão bastante deturpada para apoiar ações danosas como o marco temporal, que está ameaçando o direito à terra. É um conjunto de falácias elaborado para alimentar práticas tenebrosas, colocando os indígenas em uma situação de vulnerabilidade”, esclarece Caroline.
De um lado, a pulsão da vida resiste junto aos povos semeadores da floresta. Do outro, a combinação dos modelos de ocupação predatórios com a crise do clima escancara os agentes do atraso, do caos, da violência e da destruição. De acordo com os números indicados pelo Inpe, todos os estados e o Distrito Federal arderam em chamas na primeira quinzena de setembro de 2024. Cerca de 150 mil focos de incêndio em quase todos os biomas – um aumento de mais de 100% em relação a 2023.
Os rios voadores: Massas de ar carregadas de água, responsáveis por irrigar grande parte do Brasil e da América do Sul, e que só têm condições de existir com a manutenção da floresta em pé., que ascendem da transpiração das árvores da maior floresta tropical do planeta, transportando uma verdadeira “bacia hidrográfica aérea” (a chuva) da Amazônia para regiões distantes, como as sudeste e sul, converteram-se em corredores de fumaça.
Análises do sistema de alarmes do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contabilizaram 10 milhões de hectares consumidos pelo fogo na região amazônica em 2024, área maior do que o estado de Santa Catarina. O pior ano com incidência de queimadas desde 2012. A maioria dos focos foi provocada pela ação humana. Um crime ambiental sem precedentes.







A devastação atingiu picos nos últimos anos antes de começar a apresentar índices melhores. Em 2025, dados do Mapbiomas apontam uma queda de 67,5% na área queimada até setembro em relação ao mesmo período de 2024, enquanto a redução do desmatamento foi de 11,08%.
Entre as iniciativas em trâmite no Congresso Nacional, o PL 2933/2023 criminaliza o ecocídio no Brasil. Sua aprovação garantiria a proteção mais efetiva do meio ambiente, punindo os responsáveis pela destruição massiva de ecossistemas no país. O projeto de lei – construído de forma coletiva a partir do Ecoe Brasil, organização que reúne juristas e movimentos sociais – conta com o apoio de campanhas internacionais, como as Stop Ecocide International (Pare o Ecocídio Internacional, em tradução livre) e Climate Counsel (Conselho Climático).
“A aprovação do PL é crucial, sobretudo no combate à crise climática. Não podemos falar em preservar as nossas florestas enquanto derrubamos direitos, como os dos povos indígenas. Com o ecocídio tipificado, o marco temporal seria considerado crime contra a humanidade e a natureza. A inclusão do crime de ecocídio na legislação brasileira fortalece os compromissos internacionais do Brasil, como o Acordo de Paris e a Convenção sobre Diversidade Biológica. Além disso, é um passo fundamental para a consolidação da luta pelo reconhecimento dos direitos da natureza como entidade jurídica”, assegura a deputada federal Célia Xakriabá, uma das autoras do projeto de lei.
O passado é a prova de que o manejo promovido pelos povos tradicionais estimulou a convivência harmônica entre humanos e floresta. “O fogo é a base do conhecimento ancestral indígena. Tanto que um dos principais trabalhos de antropologia sobre os povos indígenas, as Mitológicas (Mythologiques, em francês), do Claude Lévi-Strauss, é uma obra que gira em torno dos meios a partir dos quais as pessoas adquiriram o fogo, isto é, de como elas domesticaram o elemento”, conta Caroline Caromano.
Donos da terra
Neste novo contexto de emergência climática, e com a ação predatória dos não indígenas sobre o meio ambiente, as respostas para um futuro de conservação estão lá dentro, com os povos da floresta, os quais raramente são ouvidos ou consultados.

Eles detêm um arcabouço científico que permite se certificar sobre a hora ou não de queimar. “O fogo, quando bem utilizado, é um grande parceiro. Tratá-lo com cuidado é fundamental. É preciso aplicar conhecimento ao iniciar uma queima para que não se alastre”, explica Cleocimara Reis Gomes, da etnia Piratapuya, coordenadora do Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN).
“Em sítios arqueológicos, como o da Caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará, há muito carvão datado em mais de 11 mil anos. Algumas camadas são associadas à presença do fogo”, relata Eduardo Neves. Há pelo menos 2 mil anos, intensificou-se seu uso para o manejo da terra, um processo que levou à alteração da composição da flora original e à formação de matas antropogênicas.
“O fogo indígena é pensado para construir paisagens. O ato de acender tem um significado diferente para eles, é algo solene, realizado somente por pessoas que sabem o que têm de fazer”, pondera Caroline.
O fogo indígena é pensado para construir paisagens. O ato de acender tem um significado diferente para eles, é algo solene, realizado somente por pessoas que sabem o que têm de fazer.
Caroline Caromano, arqueóloga e cientista
As Terras Pretas de Índio (TPI) são o exemplo mais contundente do impacto da experiência humana no controle do fogo. Elas surgiram a partir do processo centenário de manejo do solo, do assentamento das sociedades pré-colombianas na Amazônia e ocupavam, sobretudo, áreas de queimadas frequentes associadas a antigas práticas agrícolas. “São terras extraordinariamente férteis e servem hoje como substrato para a horticultura doméstica e a agricultura de coivara”, complementa a arqueóloga.
Pesquisas sobre as Terras Pretas trazem evidências da presença das espécies hiperdominantes da floresta, entre elas açaí, patauá, castanha-do-brasil, murumuru, breu-branco, bacaba, buriti, seringueira e tucumã. Atualmente, estima-se que cerca de 85% de todas as espécies amazônicas são, de alguma forma, utilizadas pelas populações locais. O manejo adaptado do fogo pelos indígenas, quilombolas e ribeirinhos corrobora para a formação de policulturas agroflorestais.

Se há uma queimada controlada e, depois de décadas, o mesmo lugar é queimado de novo, o efeito será benéfico. “O fogo selecionará alguns tipos de plantas e revigorará aquele ambiente. Agora, quando essas queimadas acontecem o tempo inteiro, elas produzem cinzas e não carvões. O efeito é catastrófico porque extermina toda a biota, não só os corpos vegetais e animais que vemos a olho nu, mas os microscópicos, como bactérias e fungos”, analisa Neves.
Na busca de soluções para o enfrentamento dos desafios para a bioeconomia inclusiva, moradores de diversas localidades amazônicas estão se mobilizando em defesa da natureza. Entre as prioridades das comunidades tradicionais está a conquista da autonomia financeira das famílias por meio da manutenção da floresta em pé. “Nós discutimos, há décadas, sobre como proteger as florestas e essas populações. Mas, na prática, são elas que protegem as matas desde sempre. Devemos aprender com elas”, afirma Marcio Astrini.


O futuro da Amazônia, sentencia Eduardo Neves, não pode ser projetado sem incorporar a participação intelectual sofisticada das populações originárias e tradicionais. “A floresta deve ser considerada um patrimônio de diversidade biológica e cultural.”
A reportagem integra o projeto “Amazônia: fogo contra fogo” e foi produzida com o apoio do fundo para o jornalismo voltado a Florestas Tropicais, em parceria com o Pulitzer Center.