Estudos liderados por cientistas brasileiras reforçam a hipótese que a derrubada da vegetação natural se tornou a maior fonte das queimadas que ameaçam o presente e o futuro da Amazônia no Brasil e na América Latina. 

No Acre, por exemplo, os incêndios ficarão cada vez mais frequentes se não houver uma mudança na matriz econômica, hoje baseada na derrubada de árvores. O alerta é da pesquisadora Sonaira da Silva, do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama) da Universidade Federal do Acre, líder de um estudo publicado em maio no Journal of Environmental Management. As queimadas ocorridas entre 2019 e 2020 no estado foram as maiores dos últimos 15 anos, e o estudo revela que o clima não foi o motor da queima recorde.

“O fogo se deve sobretudo ao desmate ilegal para extração de madeira e formação de pastos em terras públicas griladas. A soja também tem entrado nos últimos anos. Isso preocupa muito porque o estado abriga nascentes e rios de cabeceira importantes da Amazônia”, explica Silva.

O fogo se deve sobretudo ao desmate ilegal para extração de madeira e formação de pastos em terras públicas griladas

Sonaira Silva, cientista da Universidade Federal do Acre.

Para descobrir as principais causas do fogo no estado, os pesquisadores liderados por Silva mapearam as cicatrizes de queimadas em áreas já desmatadas e florestas intactas com base em imagens de satélite analisadas entre 2016 e 2019. As queimadas identificadas em áreas anteriormente desmatadas totalizaram mais de 550 mil hectares, onde houve maior contribuição de áreas acima de 50 hectares em terras públicas sem designação, o que indica grilagem. A análise mostrou uma alta correlação entre fogo e desmatamento.

O fenômeno é comum em toda a Amazônia, uma floresta úmida que não deveria pegar fogo tão facilmente. Outra pesquisa, publicada pela Nature em fevereiro, avaliou a situação da maior floresta tropical do mundo entre 2003 e 2019 e reforçou que o desmatamento foi o principal motor dos incêndios regionais. 

Mapa do LabGama mostra relação entre áreas queimadas e desmatamento no Acre em 2019. Credit: LabGama

“Não encontramos evidências de que as secas do século 21 estejam exacerbando cada vez mais as temporadas das queimadas na bacia Amazônica. Mas o desmatamento aumenta novamente na região, particularmente na metade central e norte, onde florestas intactas são cada vez mais perturbadas”, destaca a pesquisa liderada pela coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Renata Libonati. No estudo, os pesquisadores reavaliaram dados sobre os fatores que modulam as queimadas (como clima e atividade humana) para avaliar o peso de cada um. A conclusão mostrou uma participação maior da desflorestação nas queimadas, contrariando a hipótese anterior que dava importância maior às secas severas. 

Não encontramos evidências de que as secas do século 21 estejam exacerbando cada vez mais as temporadas das queimadas na bacia Amazônica

Trecho do estudo conduzido no Lasa/UFRJ

O fogo é um dos modificadores mais poderosos dos ambientes amazônicos. Dados do MapBiomas mostram que mais de 1,6 milhão de km2 foram queimados ao menos uma vez no país de 1985 a 2020, área superior a do estado do Amazonas. Desse total, a grande maioria atingiu vegetação nativa, sobretudo na Amazônia e no Cerrado. Quase metade da Amazônia (48%) queimou três vezes no período. 

Tamanha e contínua destruição converteu áreas da floresta de sumidouros em fontes de carbono, principal gás que amplia o efeito estufa responsável pelo aumento da temperatura média do planeta. As maiores emissões brasileiras do gás vêm hoje da destruição da vegetação nativa, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, uma iniciativa do Observatório do Clima.

Já o grupo de pesquisa da cientista Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), investigou a Amazônia por nove anos e constatou que as derrubadas e queimadas tornaram a floresta tropical numa grande emissora de carbono para a atmosfera. A análise pioneira foi publicada em julho, também na revista Nature

O trabalho revelou que as regiões mais desmatadas emitiram 10 vezes mais carbono do que áreas com desflorestamento inferior a 20%. Essas mesmas áreas também tiveram uma redução de chuva proporcional à perda florestal e um aumento significativo da temperatura. Para o estudo, a equipe de Gatti conduziu 590 medições de concentrações inferiores de dióxido de carbono e monóxido de carbono em quatro locais na Amazônia entre 2010 e 2018.

“Quem desmata, espera três meses para secar e tacar fogo. A falta de chuvas e as temperaturas mais altas levam a uma maior mortalidade de árvores e ressecam o que não foi derrubado. Assim, o fogo acaba entrando onde não foi desmatado, o que leva a mais emissões de carbono do que o previsto”, explica Luciana Gatti.

Reforçar as políticas públicas, responsáveis por encolher o desmatamento na Amazônia no passado, é a saída apontada pelas pesquisadoras. A redução nas derrubadas verificada desde 2004 se deveu sobretudo à aplicação da legislação ambiental e à queda dos preços das commodities para exportação. 

Temos de parar de desmatar e tacar fogo porque o Brasil e o mundo precisam da Amazônia. Ela é a nossa garantia climática. Estamos transformando uma grande vantagem num acelerador de mudanças climáticas e de redução de chuvas.

Luciana Gatti, cientista do Inpe

“Elas são cruciais e não devem ser enfraquecidas”, diz Gatti. “Estamos acabando com o equilíbrio da Amazônia, plantando secas e colhendo mudanças graves que já estão nos afetando. Temos de parar de desmatar e de tacar fogo porque o Brasil e o mundo precisam da Amazônia. Ela é nossa garantia climática. Estamos transformando uma grande vantagem num acelerador das mudanças climáticas e de redução de chuvas.”


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

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