O apelo assinado por 300 organizações do mundo é endereçado à COP26. Segundo o documento, usinas aumentam emissões de gases do efeito estufa e exaurem recursos naturais. Na Amazônia, Belo Monte desmatou uma área maior que a da cidade de São Paulo. Obras de 12 hidrelétricas podem levar ao desmate de 9.500 km² na bacia do rio Tapajós.

Um manifesto já assinado por 300 organizações civis, indígenas, científicas e conservacionistas de 69 países pede a governantes que cortem os investimentos em hidrelétricas para frear o aquecimento global e a acelerada perda de biodiversidade. O apelo mira sobretudo as delegações nacionais que participarão da 26ª Conferência do Clima, em novembro, em Glasgow (Escócia).

O documento publicado esta semana sustenta que incentivar e expandir esse modelo para geração de energia agravará a crise climática, pois as usinas aumentam as emissões de gases de efeito estufa, como o metano, e exaurem recursos que deveriam ser usados em soluções mais efetivas para os impactos da crise global do clima.

“A hidroeletricidade não é uma energia limpa. Não podemos perder tempo financiando com recursos escassos soluções falsas que nos distraem do que é realmente necessário para enfrentar a tripla ameaça de uma crise climática, da perda de biodiversidade em larga escala e de uma pandemia global”, disse Chris Wilke, da Waterkeeper Alliance.

Uma reportagem especial do InfoAmazonia mostrou que, até 2027, a produção de eletricidade no Brasil pode saltar 40%, passando dos atuais 156 gigawatts para 216 gigawatts. Mesmo com licenciamento e financiamento cada vez mais complexos e caros, novas usinas seguem nos planos oficiais, inclusive na Amazônia.

Na região já operam 221 hidrelétricas – 27 delas de grande porte, 102 médias e pequenas e 92 microgeradoras (veja no mapa abaixo). Outras 35 estão em construção ou em obras. Há desde gigantes como Belo Monte a uma profusão de médias e pequenas usinas.

O risco à biodiversidade cresce junto com o desmatamento e com a urbanização provocados pelas obras e a operação das hidrelétricas. No entorno de Belo Monte, pelo menos 1.800 km2 foram desmatados, uma área maior que os 1.521 km2 do município de São Paulo. As perdas foram 40% superiores ao que o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) estimou para a região sem a usina.

Projeções do Imazon estimam que 12 novas usinas podem
levar ao desmatamento de uma área de 9.500 km2 na Bacia do Rio Tapajós.

Enquanto isso, obras de 12 hidrelétricas podem levar ao desmate de outros 9.500 km2 nas próximas duas décadas em regiões da Bacia do Rio Tapajós. As projeções do Imazon apontam que 700 milhões de primatas, aves e árvores serão prejudicados por desflorestamento e alagamento provocados pelas barragens. Além disso, o risco de desmatamento aumentaria em 44 das 53 áreas protegidas na região.

No país todo, a vida selvagem também sofre com a redução da superfície de água disponível. Dados do MapBiomas mostram que as manchas de rios, lagos e outros reservatórios naturais encolheram 15,7% entre o início dos anos 1990 e 2020, caindo de 200 mil km2 para 166 mil km2. Barragens de hidrelétricas influenciaram as perdas, que afetam a biodiversidade e a dinâmica dos rios.

Reduzir prejuízos como esses dependem da manutenção de rios livres de hidrelétricas e outras barragens. Conforme o manifesto endereçado à próxima reunião global sobre clima, as usinas estão entre as maiores responsáveis pelo declínio de 84% das populações de espécies de água doce desde a década de 1970.

Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real
Barragem de Belo Monte, Rio Xingu.

Mas a construção de hidrelétricas tem igualmente um longo histórico de violações de direitos de povos indígenas e outras comunidades. A Comissão Mundial de Barragens estimou, há mais de 20 anos, que as barragens tinham desalojado quase 80 milhões de pessoas ao redor do mundo. No Brasil, 1 milhão de pessoas foram afetadas pela construção e operação dessas estruturas, apenas entre os anos 1970 e 2012, segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens.

“Quando eu era criança, testemunhei a angústia das famílias quando as barragens eram construídas no rio Biobío [na região centro-sul do Chile]. Hoje, vejo o sofrimento, a dor e a frustração das mesmas famílias que lutaram para defender o rio e nossas terras ancestrais, inundadas pelos reservatórios. As represas devastaram nossa cultura”, disse Fernanda Purrán, da tribo Mapuche-Pehuenche e diretora da Ríos to Rivers, no Chile, na divulgação do manifesto.


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

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