Com salários abaixo da média nacional, populações da região Norte têm menos condições de enfrentar secas, enchentes e calor extremo. Especialistas defendem que a adaptação climática priorize o combate à pobreza e ao acesso a serviços básicos.

Quando a desigualdade social e econômica dita a vida nas cidades, também é desigual a forma como os eventos extremos atingem cada comunidade. Igualmente desiguais serão as medidas de adaptação e a capacidade de cada população se recuperar dos prejuízos causados por uma seca, um alagamento ou uma semana de calor extremo.

O Parque das Tribos, primeiro bairro indígena de Manaus, por exemplo, tem habitantes de um espaço ocupado em 2014, com ruas sem asfaltamento, saneamento básico e transporte coletivo. Ao todo, são 38 povos vivendo em condições completamente distintas do que em outros bairros nobres da capital do Amazonas. 

No Brasil, outros bairros, comunidades e favelas também vivem versões similares dessa história. O que muda em relação à região Norte, segundo dados apresentados no relatório “Encruzilhada Climática”, da Oxfam Brasil, é que os cidadãos vivem com renda salarial inferior à do restante do país. A média nacional é de R$ 1.848,  enquanto os moradores do Norte recebem R$ 1,3 mil por mês. 

“As regiões que concentram maior pobreza são aquelas que concentram os maiores riscos quando a gente pensa nos extremos climáticos. Mesmo as regiões que não concentram pobreza, as populações que possuem menor renda são aquelas que estão mais vulneráveis às consequências dos extremos climáticos”, explica Viviana Santiago, diretora da Oxfam. 

As regiões que concentram maior pobreza são aquelas que concentram os maiores riscos quando a gente pensa nos extremos climáticos. Mesmo as regiões que não concentram pobreza, as populações que possuem menor renda são aquelas que estão mais vulneráveis às consequências dos extremos climáticos

Viviana Santiago, diretora da Oxfam.

Eliane de Souza, indígena do povo Kanamari, é moradora do Parque das Tribos. Ela é dona de casa, trabalha como doméstica e tem uma impressora para vender cópias e xerox. Por mês, recebe cerca de R$ 900. Aos 34 anos, convive com o diagnóstico de uma hérnia e outras doenças, o que a impede de trabalhar mais e em outros serviços. Tem dois filhos adolescentes. 

Uma rachadura na parede do banheiro da casa de Eliane surgiu após tempestades, desde o final do ano passado. A estrutura começou a cair: “a gente queria derrubar o banheiro para construir de novo, pra ficar mais forte, mas não tem como. Vivemos agora com ele ali. Tenho muito medo, quando começa a chover o que eu penso é que vai cair”, diz. 

As chuvas e o vento também impactaram diretamente na fonte de renda da casa. Eliane perdeu o telhado e o aparelho de internet, item importante para o serviço de xerox. Esse dispositivo já foi trocado três vezes, com um custo de R$ 60 em cada uma delas, por causa da chuva. 

Com tempestade de vento e chuvas, o banheiro da casa de Eliane rachou e está caindo; o medo é constante Foto: Luiz André Nacimento/InfoAmazonia

A resiliência aos eventos extremos dos moradores do Parque das Tribos é baixa. Para proteger as casas, seria necessário asfaltar a rua, porque a água vai invadindo as moradias por cima, a partir das goteiras e do destelhamento, e por baixo, com inundações. A falta de serviços básicos já compromete a pouca renda de quem vive por ali: não há transporte público, e eles precisam pagar motorista de aplicativo ou comprar um veículo próprio. Quando um telhado cai, um banheiro racha, como o caso de Eliane, não há mais recurso para remanejar. 

Esse déficit financeiro prejudica qualquer medida de adaptação. Mesmo a Eliane entendendo que é necessário reconstruir o banheiro com estruturas mais fortes, ela não tem condições de fazer isso. Além disso, outras necessidades básicas se sobrepõem aos danos climáticos. Pagar a alimentação, o transporte dos filhos para o colégio, os remédios mensais. 

Luiz Antonio de Souza é sociólogo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pesquisador no Núcleo de Socioeconomia (NUSEC), no Grupo de Pesquisa Planejamento e Gestão do Território na Amazônia. Ele explica que um morador de Manaus que ganha R$ 200 por mês e alguém do Alto Rio Negro que recebe os mesmos R$ 200 não vivem em condições semelhantes de pobreza.

“Embora os grupos tenham a mesma renda, os que moram no rio Negro são infinitamente mais pobres. Quem está em Manaus gasta muito com transporte público, com energia. Quem está no rio Negro não tem onde gastar dinheiro, mas não tem atividade econômica monetária e também não tem comida. O rio Negro é muito pobre do ponto de vista nutricional. Já no Solimões ou no Purus ou no Amazonas, há uma fartura gigantesca de peixe, caça e frutas. Percebe? Cada um pode ter a mesma renda, mas há uma enorme discrepância nas condições objetivas de vida”, explica. 

Embora os grupos tenham a mesma renda, os que moram no rio Negro são infinitamente mais pobres. Quem está em Manaus gasta muito com transporte público, com energia. Quem está no rio Negro não tem onde gastar dinheiro, mas não tem atividade econômica monetária e também não tem comida. O rio Negro é muito pobre do ponto de vista nutricional.

Luiz Antonio de Souza, pesquisador no Núcleo de Socioeconomia (NUSEC).

O sociólogo apresenta mais uma camada do problema: a região amazônica tem estruturas trabalhistas diferentes do restante do país. “Você tem trabalhadores em São Paulo nas mesmas condições que os trabalhadores rurais do Amazonas ou do Acre, mas lá eles tiveram acesso à organização sindical, tiveram acesso a organizações de grupos, de associações e cooperativas. O camarada consegue ter uma formação técnica e política para conseguir acessar as políticas de crédito. Aqui, as pessoas não acessam o crédito, porque elas não têm conhecimento”, explica. 

O relatório da Oxfam detalha essa disparidade de renda de acordo com as regiões do país. Enquanto no Sudeste (R$ 2.237), no Centro-Oeste (R$ 2.202) e no Sul (R$ 2.167) estão concentradas as maiores rendas médias per capita, as regiões Nordeste (R$ 1.146) e Norte (R$ 1.302) vivem com as menores. 

Esses dados se refletem também nos dados de segurança alimentar, que constam no documento. Nas regiões Sul (83%), Sudeste (77%) e Centro-Oeste (76%), os domicílios têm as maiores porcentagens de moradores vivendo com segurança alimentar. No Norte (60%) e no Nordeste (61%), a realidade é outra.   

A hierarquia racial e de gênero também é clara, segundo o relatório: homens brancos ganham até o dobro das mulheres pretas e pardas, principalmente no Norte. 

A agenda de adaptação 

O país aprovou o Plano Clima em dezembro de 2025, documento que detalha como o país pretende cumprir a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), a estratégia para redução dos gases de efeito estufa. O plano tem duas áreas: mitigação, as medidas para o corte de emissões, e adaptação, para diminuir os danos já sentidos devido aos eventos climáticos. 

As diretrizes previstas pelo governo têm recortes raciais e de gênero, mas não determinam como cada cidade brasileira deve trabalhar. Essa é uma tarefa das secretarias municipais, que compartilham a responsabilidade junto com a esfera federal. Dos 5.569 municípios do país, 581 (10%) estão trabalhando em conjunto com o Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) na iniciativa do AdaptaCidades, que está formando secretários para a criação de planos municipais. Desses 581, a proposta é que 35% tenham planos até 2035. 

“A agenda de adaptação à mudança do clima é uma agenda de enfrentamento à pobreza, de combate às desigualdades sociais, de desenvolvimento social, de redução de vulnerabilidades socioambientais. Então, uma coisa está muito relacionada à outra. Nós entendemos que parte dessa vulnerabilidade é em decorrência do aumento da frequência e da intensidade dos desastres. A outra parte é também decorrente da ausência e da insuficiência históricas de políticas públicas de saneamento, de moradia, de alimentação, de saúde”, afirma Inamara Melo, coordenadora geral de Adaptação na Secretaria Nacional de Mudança do Clima, no MMA. 

A agenda de adaptação à mudança do clima é uma agenda de enfrentamento à pobreza, de combate às desigualdades sociais, de desenvolvimento social, de redução de vulnerabilidades socioambientais. Então, uma coisa está muito relacionada à outra.

Inamara Melo, coordenadora geral de Adaptação na Secretaria Nacional de Mudança do Clima, no MMA.

Na Amazônia Legal, dos 772 municípios, 96 (12%) fazem parte do projeto. Os critérios incluíram uma análise de risco de registros de desastres como deslizamento, seca, enxurrada e inundação. Também consideraram a densidade demográfica e número de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família. 

Eliane vive na cidade de Manaus, que ainda não tem plano de adaptação climática Foto: Luiz André Nascimento/InfoAmazonia 

São os planos municipais que podem ditar a política econômica diferenciada para apoiar a população mais vulnerável aos eventos extremos. Inamara Melo explica que as formações e orientações do programa AdaptaCidades focam nesse viés. Apesar disso, cada documento será feito pelos municípios, que devem ter liberdade para determinar quais medidas podem ser mais eficazes. 

“Na hora que você define a agenda de adaptação à mudança do clima, os pobres vão ser certamente ou desproporcionalmente os mais afetados pelas consequências adversas das alterações climáticas. Essas pessoas vão ter menos acesso a opções de adaptação. Então, tem uma relação direta entre pessoas mais pobres e grupos expostos aos impactos climáticos”, explica.


Imagem de abertura: Eliane de Souza é indígena do povo Kanamari e vive no Parque das Tribos, em Manaus Foto: Luiz André Nascimento/InfoAmazonia


Esta reportagem foi produzida com o apoio da Oxfam Brasil.

Sobre o autor

Jullie Pereira

Repórter na InfoAmazonia, Jullie nasceu e vive em Manaus, no Amazonas, Brasil, onde seu trabalho se concentra na cobertura socioambiental e de direitos humanos. Anteriormente, trabalhou para a agência...

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