
A capacidade de conhecer e reconhecer fatos do passado integra o conceito de memória. Como fazer isso quando não existem registros do que foi vivido? Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas, afirma que os gestores públicos se negam a lembrar — na Amazônia, quatro dos nove estados não possuem estrutura para os registros de sua própria história, porque não têm um arquivo estadual.
“São identidades, são memórias de um conjunto [de registros] que se perdem. E isso é impossível de recuperar. A gente vai entender um pouco como é que isso vira dramático”, conta Araújo.
Ele é presidente da Rede de Arquivos e Memórias da Amazônia (RAMA), organização independente que reúne os chefes dos arquivos públicos de cinco estados da região: Amazonas, Pará, Maranhão, Acre e Mato Grosso. Juntos, eles estão preocupados em como construir novas formas de financiamento para catalogar, analisar e tratar os arquivos que mostram as histórias dos povos indígenas, dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais da floresta.
Nesta entrevista, ele fala sobre sua preocupação com o impacto da crise climática para a memória na Amazônia, as dificuldades para constituir esses dados, as diferenças dos registros históricos em cada região do país e como essa falta nos estados do Norte causa a perda da identidade dos povos.
Leia a seguir.
InfoAmazonia – Marcelo, nós temos memória na Amazônia?
Marcelo Araújo – Tem memória porque tem pessoas, mas falando dos registros, tem pouca memória aqui. Aqui é um território com um debate forte sobre a preservação ambiental, mas não para a preservação da memória das pessoas, das comunidades. Isso tem um problema, porque nós temos uma Amazônia habitada que não liga para a memória.
Aqui é um território com um debate forte sobre a preservação ambiental, mas não para a preservação da memória das pessoas, das comunidades. Isso tem um problema, porque nós temos uma Amazônia habitada que não liga para a memória.
Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas.

Você percebe que os acervos são muito curtos ou muito maltratados. Tem poucos elementos, poucos registros. Aqui no Arquivo Público do Estado do Amazonas, por exemplo, eu fiquei surpreso quando entrei. Quase não tem acervo fotográfico.
Tem um princípio arquivístico que é a unicidade: os arquivos são únicos. Ele é sempre produzido dentro de um contexto de uma organização, ou de uma comunidade, de uma instituição. Quando você perde alguns elementos, como as fotografias, você perde o contexto, porque ele funciona como um organismo.
Tem arquivos de períodos da província [do Amazonas] que se perderam. São identidades, são memórias de um conjunto [de registros] que se perdem. Isso é impossível de recuperar. A gente vai entender um pouco como é que isso vira dramático.
Eu li que em 1945 o Arquivo Público do Estado do Amazonas sofreu um grande incêndio, mas não encontrei muitos detalhes sobre isso.
O arquivo público tem problemas para contar a sua própria história. Existem duas dissertações da UFAM [Universidade Federal do Amazonas] que retratam a história do arquivo público. Mas há um problema de documentação tão grande que a gente não consegue nem contar um pouco da nossa própria memória.

Ele, como o arquivo público, já foi arquivo da província. Então, ele foi fundado em 1897. Ele tem aí, em tese, 130 anos. É uma instituição que foi feita para preservar a memória, mas ele não consegue, em muitos períodos, contar, pelos registros, a sua própria história de fundação, de formação.
O ideal é que o arquivo pudesse contar toda a sua história, porque ele é uma salvaguarda da memória. Se ele não consegue contar a sua própria memória, como é que ele pode garantir que tenha a memória consistente das instituições inteiras que existiram no Amazonas? É um problema.
O ideal é que o arquivo pudesse contar toda a sua história, porque ele é uma salvaguarda da memória. Se ele não consegue contar a sua própria memória, como é que ele pode garantir que tenha a memória consistente das instituições inteiras que existiram no Amazonas? É um problema.
Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas.
Marcelo, você é presidente da Rama, a Rede de Arquivo e Memória da Amazônia, uma organização independente formada há pouco tempo. Qual a situação dos arquivos públicos que temos na região?
Nós temos quatro estados da Amazônia Legal que não têm nenhuma estrutura de arquivo, ou seja, nenhum patrimônio documentado. São os estados do Amapá, Tocantins, Rondônia e Roraima. A gente se questiona: onde é que está tudo isso? Pode estar nas prefeituras, em secretarias. Mas isso tudo sem tratamento, sem preparo ou diretriz. São arquivos quase perdidos.
Nós temos quatro estados da Amazônia Legal que não têm nenhuma estrutura de arquivo, ou seja, nenhum patrimônio documentado. São os estados do Amapá, Tocantins, Rondônia e Roraima. A gente se questiona: onde é que está tudo isso?
Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas.
A gente percebeu que não existia uma integração entre os estados da Amazônia, no sentido de reunir essa memória dentro dessa unicidade. O Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso e Maranhão têm arquivos públicos, mas ligados à diferentes secretarias, alguns à cultura, outros à administração. Isso mostra que não existe um padrão para se tratar a memória.
Agora, estamos discutindo os nossos próprios problemas e tentando compartilhar soluções. Porque é uma disparidade entre os arquivos da Amazônia e do restante do Brasil. O arquivo público de Minas, o arquivo de São Paulo, por exemplo, que tem uma estrutura extraordinária, é o melhor da América Latina. Eles têm um prédio de 10 andares, voltado só para armazenamento de alta qualidade. Para preservar alguma massa documental, uma grande quantidade de arquivos, é preciso que tenha uma estrutura muito resistente para aguentar todo esse material.
Aqui, ainda temos a ideia romântica de que quando você entra em um prédio antigo, você também está envolto ali na memória, está envolto nas histórias daquele lugar. É até bonito, mas eles não são feitos em nenhuma das suas estruturas arquitetônicas para esse tipo de atividade, para preservar.

Eu sei que vocês estão muito preocupados também com as mudanças climáticas e o impacto disso para essa preservação histórica. Há uma ameaça?
A gente tem um caso brasileiro recentíssimo, inclusive, do Arquivo Público do Rio Grande do Sul [que foi afetado pelas enchentes]. São estruturas que tinham documentos, secretarias que tinham documentos, de valor histórico. Então, muita coisa foi perdida. Eles recuperaram documentos que foram danificados pela água. A arquivologia de hoje é uma arquivologia impressionante do ponto de vista da ciência, eles rapidamente conseguiram atuar na recuperação de vários acervos.
A gente tem o dado de que a Amazônia é uma das regiões que mais sofrem com eventos climáticos extremos. A gente tem que pensar como que a gente enfrenta isso. O Arquivo Público do Amazonas, onde estamos hoje, fica numa região central da cidade. Estamos próximos à orla, próximos ao rio. Estamos preparados para isso?

A gente tem o dado de que a Amazônia é uma das regiões que mais sofrem com eventos climáticos extremos. A gente tem que pensar como que a gente enfrenta isso. O Arquivo Público do Amazonas, onde estamos hoje, fica numa região central da cidade. Estamos próximos à orla, próximos ao rio. Estamos preparados para isso?
Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas.
Não, não estamos preparados para isso. A gente precisa pensar que até o documento digital, ele fica em algum lugar. As pessoas acham que eles ficam nas nuvens em cima, assim, flutuando, mas eles estão em algum lugar. Se você não protege essas unidades, elas também estão suscetíveis a esses eventos climáticos externos.
Então, o que essa realidade mostra é que a gente está muito fragilizado e pode perder tudo a qualquer momento. Lembra que eu falei que o documento é único e uma vez que você perde, não há volta? Você fica talvez com uma cópia dele, mas não o documento original, no suporte que ele foi produzido, com a tecnologia da época.
O tipo de papel de um documento que era feito em 1905 tem elementos químicos completamente diferentes do que é feito hoje em dia. Então, o conjunto de técnicas que eu aplico em 1800 é um conjunto de técnicas diferentes que eu aplico em documentos de hoje.

Ele é a identidade de todo um período, além das informações que ele traz. A gente pode perder isso tudo por não conseguir observar que isso pode impactar os acervos. Nós, da Rama, estamos tentando alertar os estados sobre essas mudanças, porque isso vai afetar o campo da memória.
Houve algum avanço em políticas para a memória considerando o que éramos e o que somos hoje?
Os intelectuais do passado estavam mais preocupados com a manutenção e preservação da memória. Claro que hoje temos uma sociedade com mais violências, mais complexidades, mas eu observo que não há o interesse de conhecer a importância da arquivologia para a construção dessa memória coletiva. A gente tem registros de governadores e intelectuais debatendo como deixar os arquivos protegidos, como deixar isso para as futuras gerações. Então, quando eu entrei aqui, eu montei um programa de visibilidade para o arquivo.
Hoje, os estados têm mais dificuldade de investimento no campo da memória. A gente [da Rama] tem procurado entender por quais motivos nós, enquanto estado, não queremos lembrar. Se você valoriza tanto os povos indígenas, os quilombolas e todos os povos que ajudaram a construir a Amazônia, como é que eu conto a história da floresta se não conto a história das pessoas que preservaram esse espaço?
Se você valoriza tanto os povos indígenas, os quilombolas e todos os povos que ajudaram a construir a Amazônia, como é que eu conto a história da floresta se não conto a história das pessoas que preservaram esse espaço?
Marcelo Araújo, chefe do Arquivo Público do Estado do Amazonas.
Como é que o estado encara a forma de financiamento para manter e preservar essa memória?
Os políticos antigamente viajavam muito para fora, em um contexto de exploração da borracha, Belle Époque. Lá fora, eles já percebiam, na França, em outros lugares da Europa, a preocupação com a memória, como o europeu vê a questão da memória. Lá tem outros elementos também. Lá na Europa a memória é turística, ela serve ao turismo. Quando você vai lá, você vai no Museu do Holocausto, do Louvre, tem uma relação direta com a economia.
Aqui, não há essa relação, a não ser no campo específico dos museus. Mas muitas vezes nem os museus cobram entrada. Isso fica exclusivamente como atividade que o Estado tem que fornecer.

Aí é uma visão que eu tenho, que é diferente de outros colegas. Eles acham que o governo tem basicamente a obrigação de manter isso aqui o tempo inteiro. A gente tem vários campos aqui que o governo tem que lidar. Coisas que são dramáticas. Segurança pública, saúde, educação, assistência social. Aqui tem a cultura e a memória. Por esse contexto, eu entendo que é necessário desenvolver atividades remuneradas, projetos que possam captar recursos externos, de estímulo aos setores empresariais, para compreender a manutenção disso.
O governo federal não tem responsabilidade sobre os arquivos públicos estaduais. É a carga das unidades federativas mesmo. A gente tem muita crítica com o arquivo nacional. O arquivo nacional é uma salvaguarda da memória e, dentro da lei de arquivos, ele atua com o Conselho Nacional Nacional de Arquivos, que deveria implementar o que é a Política Nacional de Arquivos.
Ele [conselho] não consegue fazer isso, porque é uma política que não tem dinheiro. Como é que se está fazendo uma política que não tem dinheiro? Ele espera que os Estados possam investir.