Favelas da capital amazonense estão entre as maiores do país, e há mais de uma década a pedagoga Cristiane Sales atua por justiça climática para quem vive em áreas de risco.

Cristiane Sales é uma pedagoga que há mais de dez anos luta por justiça social na cidade de Manaus, capital do Amazonas, onde estão sete das 20 maiores favelas do país. São as pessoas que vivem nessas localidades que mais a preocupam. Com os eventos climáticos extremos, a luta por habitação segura e adequada tornou-se uma das maiores necessidades dessas populações, transformando Sales numa defensora ambiental que também busca por justiça climática.  

Um dos principais resultados alcançados por Cristiane na luta por moradia foi o conjunto habitacional Orquídeas, localizado no bairro Lagoa Azul, na zona norte de Manaus. Desde 2018, foram construídas 600 casas para atender famílias de baixa renda que antes viviam em ocupação. Resultados como esse são o que ela, enquanto coordenadora da União Nacional por Moradia Popular: Organização presente em 16 estados do país que defende o direito à casa própria. A atuação ocorre, principalmente, na áreas de favelas, cortiços, mutirões, ocupações e loteamentos., cobra do poder público em eventos como a 5º Conferência Municipal de Meio Ambiente em Manaus, entre os dias 12 e 13 de dezembro do ano passado.

Com o tema “Emergência Climática: o desafio da transformação ecológica”, o evento foi um aquecimento para a Conferência Nacional de Meio Ambiente, marcada para ocorrer entre os dias 6 e 9 de maio de 2025 em Brasília. 

Desde 2013, a reunião não era realizada no país. Foi neste mesmo período, quando o poder público nos níveis municipal, estadual e federal, deixou de ouvir a população sobre a crise climática que Cristiane iniciou seu trabalho de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica em Manaus. Na época, percebeu que os relatos estavam associados à falta de moradia. Ter onde viver era sinônimo de independência para elas. A luta pelo espaço fez Cristine ir ao encontro de vários grupos que buscam ajuda na cidade: pessoas indígenas, negras, transgêneros, migrantes amazonenses e de outros países da América do Sul. 

Na conferência de Manaus, Cristiane propôs a criação de políticas públicas para o mapeamento das áreas de risco de desabamento e alagamentos, além da estruturação de projetos de habitação e requalificação urbana.

Ela participou do grupo que discutiu ações para garantir justiça climática e reforçou que as populações indígenas, migrantes, negras, mulheres e crianças são as mais vulneráveis aos eventos extremos, e que isso também está ligado à falta de moradia. 

Um caso recente, registrado no último domingo (19), confirma o que ela diz: uma família foi soterrada após um deslizamento de terra atingir a casa onde moravam, no bairro Redenção, região de risco em Manaus. Eles viviam em área de ocupação, em moradia irregular. O pai Jeferson Araújo, 30 anos, e a filha, Ester Amorim, 8, morreram abraçados. 

“Essas famílias são invisibilizadas. Ninguém olha, ninguém sabe, ninguém vê. O poder público deveria fazer esse levantamento. Já que temos dados indicando que Manaus está entre as cidades com mais favelas no Brasil, onde está essa população?”, questionou. 

Essas famílias são invisibilizadas. Ninguém olha, ninguém sabe, ninguém vê. O poder público deveria fazer esse levantamento. Já que temos dados indicando que Manaus está entre as cidades com mais favelas no Brasil, onde está essa população? 

Cristiane Sales, coordenadora da União Nacional por Moradia Popular em Manaus

Cidade de Deus, bairro também conhecido como Alfredo Nascimento, é um dos sete em Manaus que estão entre as 20 favelas mais populosas do Brasil, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa região é a quarta da lista no país em número de moradores: são 55.821, 30% a menos populosa do que a Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro, que lidera. 

Foi em alguns desses bairros periféricos que Cristiane desenvolveu sua história de ativismo por moradia. Agora, para este ano, organiza dez conferências livres para levar aos moradores os conceitos de justiça climática e como eventos extremos impactam diretamente suas vidas e deve levar os resultados para o evento nacional em Brasília. 

“Manaus é a cidade mais populosa da Amazônia, mas parece que só somos lembrados em momentos de catástrofe”, afirmou.  

Nesta entrevista à InfoAmazonia, Cristiane explica como a luta pelo território na Amazônia urbana está associada à justiça climática e como tem promovido consciência ambiental para populações de áreas periféricas. Leia a entrevista completa.  

InfoAmazonia – Na conferência, você levou uma proposta relacionando a luta da moradia com a justiça climática, pode explicar o que você propôs? 
Cristiane Sales – Manaus é uma cidade com profunda desigualdade social. Onde está essa desigualdade? Ela está nas favelas. Na periferia, há pessoas que moram sobre os igarapés de Manaus. Elas não moram lá porque querem, mas porque não têm para onde ir. São pessoas sem emprego, sem condições de sustentar suas famílias, vivendo em extrema vulnerabilidade.  

Na última pesquisa do IBGE, se não me engano, foi constatado que Manaus está entre as sete cidades do Brasil com maior número de favelas. Algumas delas estão no [bairro] Terra Nova, no [bairro] Santa Etelvina, no [bairro] Grande Vitória e no [bairro] Cidade de Deus. À primeira vista, pode parecer que está tudo bem, mas, ao visitar esses locais, você encontra 300 famílias morando em casas feitas de palafitas, de compensado. É algo muito impactante.  

Temos a oportunidade de conviver com essas famílias, e, quando chove, como agora, elas entram em pânico porque tudo alaga. As crianças adoecem com infecções intestinais, febre, e sofrem muito. É uma vida de sofrimento, especialmente para as mulheres, que muitas vezes cuidam sozinhas da casa e dos filhos, sem um companheiro. 

Conferência Municipal de Meio Ambiente ocorreu em Manaus nos dias 12 e 13 de dezembro de 2024 (Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia)

Vocês não têm acesso a nenhum tipo de mapeamento?
Essas famílias são invisibilizadas. Ninguém olha, ninguém sabe, ninguém vê. O poder público deveria fazer esse levantamento. Já que temos dados indicando que Manaus está entre as cidades com mais favelas no Brasil, onde está essa população? Quem são? Quantos são? Existe uma política de atendimento para essas pessoas?  

Nessas áreas, a água é obtida de forma improvisada. Eles puxam água da rede, fazem suas próprias conexões, porque precisam sobreviver. O mesmo acontece com a energia elétrica, mas isso resulta em tragédias, como pessoas morrendo ao tentar fazer ligações clandestinas.  

Além disso, não há saneamento básico. Muitas pessoas ainda utilizam buracos e latrinas para fazer suas necessidades. Há um índice elevado de doenças como hepatite em Manaus. Essa população é composta por indígenas, venezuelanos, brasileiros de diversos estados e interioranos. As alagações, como as que ocorreram recentemente, levam muitas pessoas de Barreirinha e Parintins para a capital. A seca também traz pessoas para Manaus, buscando escapar da estiagem do ano seguinte.  

Essas pessoas chegam sem nada e vão para áreas onde conseguem se estabelecer, mesmo em condições precárias. Não conseguimos atender a todos, mas tentamos ao menos visitá-los, dar apoio, dizer “oi” e oferecer um abraço. Não somos poder público, então nossas possibilidades de ajuda são limitadas.  

Como os eventos extremos estão afetando essas populações?
A estiagem leva o povo do interior para Manaus. A gente vê Manaus aqui [na zona urbana], mas Manaus não é só isso. Quando se desce ali na Marina do Davi, existem dez comunidades e eles estão isolados. Não conseguem trazer seus produtos. Ficam presos. A vida deles é muito impactada. 

As crianças adoecem e morrem por causa da água. Acredito que existe, sim, uma preocupação do estado e do governo federal. O problema é que, às vezes, a ajuda não chega. Ou, se chega, depois é esquecida.

Eles estão na lama agora. Começou a chover, e não é que está tudo bem — piora. Porque eles não estão nem na água nem em terra seca: estão na lama. Eles afundam. Não têm mais água potável nem alimentos. Então, isso é Manaus. E fora o resto do estado do Amazonas, onde a situação dessas populações é gravíssima.

Em Manaus, quando a água sobe, sempre há mortes, desmoronamentos, deslizamentos, porque essas pessoas moram nessas áreas que chamamos de risco. São essas pessoas, vivendo nessas condições, que acabam sendo vitimizadas e morrendo. A cada evento, como uma alagação, a situação das famílias mais empobrecidas, principalmente das mulheres, piora ainda mais.

De que forma vocês estão buscando conscientizar sobre a crise climática nas periferias de Manaus?
Nós estamos, com a União Nacional por Moradia Popular, tentando levar esse debate para a população periférica, especialmente na Zona Norte e na Zona Leste. Estamos trabalhando em projetos de habitação do governo federal, buscando nos inserir nesses programas.  

Estamos organizando as conferências livres sobre o meio ambiente, justamente para discutirmos a questão ambiental. A fumaça incomoda muito a população, prejudicando principalmente idosos e crianças. Percebemos que Manaus e o Amazonas, uma das regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas, não estão promovendo esse tipo de discussão com a devida amplitude. O debate fica muito restrito à academia, entre pessoas que estão preocupadas, mas que não levam a discussão para quem mais sofre com esses problemas.  

É como se o povo, que sente na pele as consequências, fosse ignorado ou visto como incapaz de participar. Queremos mudar isso, levando o debate para a periferia. Nosso objetivo é realizar pelo menos dez conferências livres sobre o meio ambiente, para que a população possa discutir e expressar o que pensa e sente sobre as queimadas, a fumaça, o calor escaldante, as secas e as enxurradas.  

Queremos saber: o que as pessoas pensam disso? Como elas se enxergam nessa realidade? Manaus é a cidade mais populosa da Amazônia, mas parece que só somos lembrados em momentos de catástrofe. Não concordamos com isso.  

A questão do lixo, por exemplo, é muito importante. O descarte inadequado e a falta de reciclagem são problemas graves. Precisamos levar essa conscientização para todas as comunidades de Manaus.  

Contudo, reconhecemos que nosso esforço é como um grão de areia na praia. Não temos recursos suficientes, nem a convicção generalizada de que isso precisa ser feito. Ainda assim, vamos continuar promovendo as conferências livres, inclusive em áreas que sofrem alagamentos e com as mudanças climáticas de forma mais intensa, já que essas comunidades enfrentam condições de vida extremamente difíceis. 

Participantes do eixo de justiça climática apresentaram propostas para populações vulneráveis (Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia)

Vocês estão prevendo outros projetos de habitação na cidade?
Em Manaus, temos quatro projetos urbanos e um em Humaitá. Quando o novo edital [do Minha Casa, Minha Vida] for lançado, esperamos aprovar pelo menos mais sete projetos. Queremos dar um olhar especial para as pessoas em situação de rua. É importante lembrar que o morador de rua não está apenas no centro de Manaus; ele também vive nos bairros, nas periferias e nas comunidades.  

Esperamos, com o apoio de Deus, iniciar um novo projeto em abril, envolvendo 60 a 70 entidades, com 500 unidades habitacionais para Manaus e o restante para o interior.  

Como mulher, me sinto muito realizada. Sou pedagoga e estou me aposentando, mas continuo atuando no movimento social em prol das famílias que mais precisam. Temos um prédio na rua Quintino Bocaiúva, no centro, que ocupamos em 2016. Esse prédio será o primeiro retrofit de Manaus. 

Como você iniciou no movimento por moradia?
A gente começou atuando num movimento que atendia mulheres vítimas de violência. Nós fazíamos formações sobre a Lei Maria da Penha e, então, estendemos isso às mulheres aqui da Zona Norte, em Santa Etelvina e Terra Nova.

Mas aí, as mulheres começaram a trazer a questão da moradia. Elas estavam em áreas de invasão e corriam o risco de reintegração de posse. Então, por termos um certo nível de estudo e conhecimento, começamos a explicar que medida judicial não se discute, se cumpre. Assim, antes que chegasse a reintegração, às famílias precisavam sempre procurar se defender, buscar a justiça e comprovar que aquela terra era delas, para que as decisões não atendessem apenas a um lado — muitas vezes de um grileiro, uma pessoa rica, gente que muitas vezes também não tinha documentação legítima.

Foi nessa caminhada, nesse início, que conseguimos firmar a ocupação na Portelinha, lá em São José, e também estabelecer uma comunidade aqui em Santa Etelvina, chamada Bom Jesus e Deus é Fiel. A ocupação Deus é Fiel, na verdade, foi um processo mais intenso, com conflitos e litígios. Na época, o Mário Frota, que estava junto com o prefeito Serafim Corrêa, desapropriou a área em favor dos ocupantes. Esse episódio estava dentro de um contexto nacional de luta por moradia, que depois resultou no Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, um programa federal onde as pessoas não pagavam pela casa, mas a recebiam por meio do fundo. 

Setenta e cinco famílias foram contempladas, e nós participamos ativamente. Eu participei, como mulher, sem homens à frente. Naquele momento, não tínhamos um movimento formal; éramos um grupo de mulheres. Conseguimos consolidar a ocupação Bom Jardim, além da Portelinha, em São José. Foi um processo violento, mas as famílias permaneceram lá. 

Sobre o autor

Jullie Pereira

Repórter na InfoAmazonia, Jullie nasceu e vive em Manaus, no Amazonas, Brasil, onde seu trabalho se concentra na cobertura socioambiental e de direitos humanos. Anteriormente, trabalhou para a agência...

Ainda não há comentários. Deixe um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article