Em 2021, o InfoAmazonia localizou, por imagem de satélites, mais de uma dúzia de afluentes derramando sedimentos dos garimpos no Tapajós, conhecido por suas águas cristalinas.

O rio Tapajós é um dos maiores rios de águas claras da Amazônia. Sua transparência dá um efeito verde-azulado que o colocou há décadas como principal destino turístico da Amazônia brasileira. Porém, no início deste ano, durante a alta temporada turística, um tom amarronzado tingiu o fluxo tapajônico. A diferença de cor tem chamado a atenção dos visitantes e moradores do município de Santarém (PA) e de Alter do Chão, vila conhecida como “caribe Amazônico” justamente pela tonalidade de suas águas.  

À esquerda, as águas com coloração amarronzadas do rio Tapajós se diferem da cor tradicional sem sedimentos do Lago Verde, no lado direito do vídeo.

A suspeita para a mudança de cor no Tapajós não é de origem natural.

Ambientalistas denunciam que a nova coloração pode estar relacionada aos sedimentos de garimpos ilegais no médio Tapajós.

Em abril de 2021, o InfoAmazonia realizou um levantamento inédito, em parceria com a Earthrise Media, e revelou que a mancha de poluição dos garimpos de ouro na bacia do Tapajós já se estendia por 500 quilômetros rio abaixo, entre os municípios de Jacareacanga e Santarém. As imagens de satélite expõem que a atividade garimpeira no rio disparou 70% nos últimos cinco anos.

Organizações não governamentais estimavam cerca de 60 mil garimpeiros, mais de duas mil dragas ilegais e 850 garimpos legalizados ao longo do rio Tapajós e seus afluentes. As atividades de garimpo de barranco praticadas no Tapajós desmatam e esburacam a terra com bombas d’água, intensificando a erosão nas margens do rio. 

O InfoAmazonia localizou, por imagem de satélites, mais de uma dúzia de afluentes derramando sedimentos dos garimpos no Tapajós em 2020. Em 1984, eram apenas quatro.

A bióloga Heloisa Meneses, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), avalia que embora não haja estudos mais aprofundados para comprovar a atual conexão entre a alteração da cor do rio e o garimpo, a hipótese, levantada por populações tradicionais que vivem nas margens do Tapajós, é válida. “Que a cor do rio vem mudando é fato, o que se precisa é comprovar a causa desta mudança. Na minha opinião, isso é consequência de um conjunto de fatores, no qual o garimpo e o desmatamento têm um papel importante por serem dois potenciais poluidores ambiental”, avalia Meneses.

No entanto, a bióloga ressalta que uma série de fatores, além do garimpo, devem ser considerados,  “estamos passando por um momento de grandes alterações climáticas e isso tem consequências no meio ambiente. O crescente aumento de atividades antrópicas prejudica ainda mais a situação”.

Meneses explica que além de liberar resíduos na água, a atividade garimpeira promove a “movimentação do solo”. “Tudo isso altera a dinâmica dos rios, do ponto de vista químico-físico e biológico. A mudança na cor da água pode ser uma das consequências desta alteração”, afirma Meneses. 

A pesquisadora destaca que, além de causar uma alteração visível na cor do rio, a atividade garimpeira ilegal impacta a composição biótica da água, o funcionamento das cadeias alimentares e, consequentemente, os ecossistemas aquáticos. “Existem mudanças na composição da água que não são visíveis mas que sabemos que ocorrem, visto os altos níveis de mercúrio encontrados nas populações que se alimentam de peixes no rio Tapajós”, conclui. 

O MERCÚRIO

Meneses é professora do Instituto de Saúde Coletivo da Ufopa e coordenou uma pesquisa que indicou altos níveis de mercúrio no sangue da população de Santarém, acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O resultado pode estar atrelado ao uso do mercúrio para aglutinação do ouro nos garimpos ilegais. O estudo analisou amostras de sangue de cerca de 500 pessoas.

Além da mudança na coloração do Tapajós, Meneses afirma que outras mudanças vêm sendo observadas nos últimos anos, como o aumento da floração de algas, o aumento das chuvas e o consequente desequilíbrio entre a cheia e a seca, que são alterações que poderiam estar interligadas.

Sobre o autor

Julia Dolce

Repórter e fotógrafa do InfoAmazonia em parceria com o Report for the World, que aproxima redações locais com jornalistas para reportar assuntos pouco cobertos em todo o mundo. Atua na cobertura socioambiental...

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