Monitor do desmatamento apresentado na COP26 mostra que mais de 1 mil árvores tombam por dia. A derrubada da floresta interfere no regime de chuvas e aumenta emissões de gases de efeito estufa.

Entre 31 de outubro e 5 de novembro, nos primeiros seis dias da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow (Escócia), mais de 9 milhões de árvores foram ao chão na Amazônia brasileira.

O total derrubado, até agora, é de mais de 470 milhões de árvores desde 1º de janeiro. O balanço dos 11 meses aponta que 1.539.970 árvores tombaram a cada dia, o que significa 1.059 árvores por minuto ou 17 árvores por segundo.

Contador do PlenaMata traz estimativa em tempo real de árvores derrubadas na Amazônia Legal. Na publicação desta reportagem, em 5 de novembro, marcava 470 milhões de árvores derrubadas por desmatamento em 2021.

O desmate na Amazônia Legal detectado em 2021 já se aproxima de 800 mil hectares (8 mil km²), segundo os alertas do sistema DETER: Ferramenta do governo federal que gera alertas rápidos para evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia e no Cerrado[+]do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A área derrubada equivale à da cidade de São Paulo e Região Metropolitana, que reúne 39 municípios.

Os números são do monitor de desmatamento do PlenaMata, uma iniciativa de MapBiomas, InfoAmazonia, Natura&Co e Hacklab pela conservação e fim da derrubada de árvores na Amazônia. A ferramenta usa como base os alertas diários sobre área desmatada do INPE, multiplica pela quantidade de árvores estimada pela ciência para cada hectare de floresta e inclui uma estimativa em tempo real de quantas árvores estão caindo até o presente momento.

ilustração: Julia Lima/PlenaMata
Os números do contador sofrem alterações de acordo com a data de alertas detectados. Nesta ilustração, estimativas de árvores derrubadas em 05 de novembro de 2021.

“A referência é de que existem, em média, 565 árvores em cada hectare na Bacia Amazônica. O dado vem de um dos mais amplos estudos feitos sobre as árvores na floresta tropical sul-americana”, detalhou Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

O trabalho citado pelo especialista foi realizado por mais de uma centena de cientistas brasileiros e estrangeiros e publicado na revista Science, em outubro de 2013. O balanço estimou a quantidade de árvores por hectare e mapeou 16 mil diferentes tipos de espécies na Amazônia. Desse total, 227 tipos de plantas respondem por metade de todas as árvores da floresta sul-americana.

As árvores em pé são vitais para deter as mudanças climáticas e garantir chuvas e o abastecimento de água para a população. “Cada árvore lança por dia em média 500 litros de água na atmosfera. Quase 500 milhões de árvores derrubadas na Amazônia este ano significa 250 bilhões de litros que não são evapotranspirados, e isso fará chover menos em outras regiões do Brasil”, lembrou Tasso Azevedo em entrevista ao ClimaInfo no Brazil Climate Hub, na COP26. O Brasil enfrentou uma intensa seca neste ano, conforme dados do Cemaden.

Ilustração: Julia Lima/PlenaMata
250 bilhões de litros de água deixaram de ser lançados na atmosfera pelas 500 milhões de árvores derrubadas na Amazônia em 2021, o que faz chover menos em todo o Brasil.

Um estudo veiculado na Nature Climate Change, em setembro de 2019, estimou que o desmatamento e alterações climáticas poderão eliminar até 58% das espécies arbóreas da Amazônia até 2050. Do total, 49% correm risco de extinção. O estudo também avaliou que metade da floresta amazônica original pode sobreviver no período, enquanto que o restante pode ser altamente fragmentado, onde restariam apenas 30% da vegetação nativa.

As milhões de árvores derrubadas contabilizadas no monitoramento do PlenaMata engrossam as contas brasileiras de emissões de gases de efeito estufa. O Brasil é o quarto país que mais contribui para o aumento da temperatura média global desde 1850, conforme uma análise da Carbon Brief. Desmate e agropecuária respondem hoje por quase 70% de suas emissões atuais. 

“Precisamos de desmatamento zero já, tanto ilegal quanto legalizado. Não só em 2028. Todo o Brasil está sofrendo com a falta de chuvas e outros impactos provocados pelo desmate da Amazônia. É preciso preservá-la para o bem do país e do planeta”, ressaltou Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE. 

Precisamos de desmatamento zero já, tanto ilegal quanto legalizado. Não só em 2028. Todo o Brasil está sofrendo com a falta de chuvas e outros impactos provocados pelo desmate da Amazônia. 

Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE

Um trabalho liderado pela pesquisadora descobriu que derrubadas e queimadas fizeram a floresta amazônica deixar de absorver carbono e se tornar uma fonte emissora de gases de efeito estufa. As regiões mais desmatadas da floresta emitiram 10 vezes mais carbono do que áreas com desflorestamento inferior a 20%. Aquelas áreas também tiveram uma redução de chuva proporcional à perda florestal e um aumento significativo da temperatura.

Mas é possível reverter a tendência de alta do desmatamento na Amazônia e impedir que ele comprometa os esforços mundiais para manutenção do equilíbrio climático. “Zerar todo o desmatamento e permitir a regeneração da floresta compensariam as emissões do setor agropecuário. O principal uso da terra hoje no Brasil são pastagens. Se forem melhor manejadas, essas áreas podem absorver carbono. Medidas como essas ajudariam o país a neutralizar suas emissões em curto prazo”, avalia o coordenador-geral do MapBiomas. 


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

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