Quando voltou de uma viagem à cidade do Rio de Janeiro, em abril de 2020, o antropólogo e artista indígena Jaime Diakara sentiu os primeiros sintomas da Covid-19. Teve febre, indisposição e dor de cabeça. Pelo que viu na televisão, ele deduziu que fora contaminado pela doença. Sem testagem e com os hospitais da cidade colapsados, ele e toda a família, que também foi infectada, tiveram que se tratar em casa. “Usamos chás de plantas e benzimento”, conta.

Consciente de que vivia um momento importante, Jaime resolveu usar a arte – linguagem com a qual tem mais afinidade – para registrar o que passava. “Comecei a rascunhar no papel tudo o que eu sentia e foi assim que fiz este desenho”, relembra, mostrando uma das primeiras pinturas que produziu durante a pandemia.

Izabel Santos / Ojo Público/InfoAmazonia
PROCESSO CRIATIVO. Os desenhos feitos por Jaime Diakara representam os sintomas de Covid-19 no seu corpo.

À medida que o novo coronavírus avançava no corpo de Jaime e debilitava a sua saúde, ele produzia. “A partir disso, criei desenhos e grafismos. Transformei esse trabalho no meu tratamento e chamei a produção de ‘arte de cura’. Foi como se eu estivesse colocando a doença para fora, através da minha ancestralidade Desana”, explica.

O povo ao qual Jaime pertence, o Desana, é um dos grupos indígenas da família Tukano Oriental que habitam a região da fronteira entre Brasil e Colômbia, no município de São Gabriel da Cachoeira, no estado brasileiro do Amazonas. Jaime se mudou para Manaus, a capital do estado, há mais de dez anos para estudar. O indígena faz parte da parcela de 36% dos 896,9 mil indígenas do Brasil que vivem em áreas urbanas, de acordo com o Censo de 2010.

Jaime Diakara também é um dos pesquisadores do Núcleo de Antropologia Indígena da Universidade Federal do Amazonas. Desde o início da pandemia, eles vêm coletando relatos em texto, áudio e manifestações artísticas sobre os diversos impactos provocados pela Covid-19 nos povos indígenas do Amazonas.

Manaus foi uma das cidades mais impactadas pelas duas ondas do novo coronavírus no Brasil. Em abril de 2020, o sistema de saúde colapsou e as imagens de pessoas morrendo sem ar nas portas dos hospitais e em casa correram o mundo. Na segunda onda, faltou oxigênio nos hospitais para tratar os doentes, em um dos episódios mais dramáticos da pandemia no país.

“A chegada da pandemia impactou muito a vida dos indígenas. Na cidade e nas comunidades, deixamos de sair e de praticar os nossos rituais coletivos, que foi uma das piores coisas que a doença nos trouxe. O indígena, em qualquer lugar, precisa circular para trabalhar e comprar alimentos. E muitos de nós trabalhamos como autônomos, vendemos artesanato, fazemos rituais de dança, outros precisam ir até a cidade para fazer trocas. Com a necessidade de isolamento social, ficamos muito limitados”, avalia Jaime.
Com acesso limitado aos serviços de saúde, muitos indígenas em contexto urbano infectados pelo SARS-CoV-2 recorreram aos seus conhecimentos ancestrais e se trataram em casa. “Me curei usando bahsese [equivalente a benzimento] e usando folhas, cipós e frutas de sabor amargo”, lembra Jaime.

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EXPLORAR. Consciente do que estava passando, Jaime Diakara usou a linguagem da arte para registrar a luta do seu corpo contra a doença.

“Aplicamos o bahsese no líquido dessas plantas, chamando o vírus pelo nome para matá-lo, e fazemos nossa proteção e nossa cura”. Na tradição Desana, três elementos são importantes para a proteção contra enfermidades: breu (resina extraída de uma árvore), cigarro e líquido (infusão de folhas).

No Brasil, os povos indígenas estão entre os grupos prioritários para receber a vacina, que começou a chegar aos seus braços em janeiro deste ano. Mas inicialmente o Ministério da Saúde excluiu dos grupos aqueles que, como os Jaime, não vivem em terras indígenas. Após uma longa espera, o artista indígena conseguiu ser vacinado há algumas semanas.

Como é que a pandemia teve impacto na visão do mundo indígena? O trabalho de Jaime Diakara para esta série jornalística “Visões do Coronavírus” retrata o impacto da pandemia no seu povo. O resultado é a tela “Wanani Goãmū”, ou “O proprietário das plantas medicinais” em wanni, a língua falada pelo seu povo.

A imagem que o artista coloca representa o confronto do corpo contra o novo coronavírus através da oposição entre a luz e a sombra – sol nascente e poente – apoiada pela “cabaça do mundo”, que sustenta o universo de acordo com a cosmologia de Desana. “Os seres invisíveis que causam Covid-19 atacam-nos do lado onde não há luz, o lado esquerdo. É por isso que usamos grafismos de proteção nesta parte do corpo”, explica Jaime.

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LUTA CONTÍNUA. A tela “Wanani Goãmū”, de Jaime Diakara, representa o impacto que a pandemia de Covid-19 tem sobre seu povo, os Desana.

Jaime Diakara tem 41 anos de idade e passou a sua infância e adolescência ouvindo histórias sobre os rituais da sua comunidade Cucura Igarapé. Mudou-se então para a cidade para estudar e está fazendo um doutorado em antropologia na Universidade Federal do Amazonas. 

O artista diz que a maior ameaça à existência dos povos indígenas do Brasil não é a doença, mas a falta de políticas e ações públicas para o seu bem-estar. “Os povos indígenas que vivem no interior do estado têm de deixar as suas comunidades e ir à capital em busca de ajuda, comida, assistência, tudo, porque aqueles que deveriam oferecer isto não o fazem. As comunidades indígenas fecharam-se em si mesmas. Mas a fome e a necessidade não respeitam o isolamento social. Eles entram nas nossas vidas, nas nossas comunidades, sem pedir autorização”, diz ele. 

A pandemia não afetou apenas os povos indígenas que vivem nas suas comunidades, mas também os que vivem na cidade. “Mudou a minha maneira de viver. Mudou totalmente a forma como nos relacionamos uns com os outros. Hoje já não podemos nos sentar juntos, falar e discutir as nossas necessidades. Diria mesmo que a nossa forma de pensar mudou, e isto vai mudar a nossa forma de viver”, explica Diakara. 

Os números oficiais da pandemia no Brasil contabilizam mais de 547.000 mortes de Covid-19 em julho de 2021. Deste total, mais de 34.000 pessoas vivem em territórios indígenas, de acordo com dados da Rede Eclesial Pan-Amazoniana. Durante os meses da emergência sanitária, a violação dos direitos humanos dos povos indígenas foi acentuada no país.


Esta reportagem foi publicada em parceria com o Ojo Público e faz parte do especial “Visões do Coronavírus”, que reuniu depoimentos e representações sobre o impacto da pandemia na cosmovisão e nas práticas comunitárias dos povos amazônicos de quatro países.

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