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Sargaço: a maré marrom que ameaça o Caribe

Esta reportagem faz parte da série Águas Turvas, realizada com apoio da Earth Journalism Network em parceria com a agência Arestegui Notícias.

Uma década depois de as primeiras florações de sargaço terem sido identificadas no Atlântico Sul, esses gigantescos tapetes marrons de macroalgas representam uma das maiores ameaças ecológicas ao Caribe, uma região megadiversa, da qual dezenas de milhões de habitantes dependem fortemente do turismo e dos recursos naturais.

O próximo ano deverá ser particularmente ruim, prevêem os cientistas. A floração do sargaço flutuante tem mostrado crescimento acelerado desde dezembro de 2020, de acordo com os relatórios de monitoramento por satélite realizados pela Universidade do Sul da Flórida (USF) juntamente com a NASA.

“A crise está voltando novamente para as costas caribenhas”, alerta Alejandro Bravo Quesada, especialista em oceanografia marinha e Diretor do Ocean Solutions México. Enquanto isso, as possíveis causas desse aumento súbito do sargaço – incluindo o desmatamento e o aumento do uso de fertilizantes na região amazônica (veja a história), assim como as mudanças climáticas – continuam incessantes.

De acordo com os últimos relatórios, a quantidade de sargaço no mar passou de 3,2 milhões de toneladas em dezembro para 4,6 milhões de toneladas em fevereiro. Essa quantidade é quatro vezes maior do que a divulgada no mesmo período do ano passado.

Os relatórios da USF/NASA indicam que essa quantidade é comparável aos recordes observados em 2018 e 2019, quando a maré marrom de sargaço transformou completamente a costa caribenha de águas turquesa e areias brancas.

“O fenômeno do sargaço começou a mostrar alguns padrões de comportamento, desde que passamos a observá-lo com maior atenção em 2015. A época de floração começa no início do ano e tem seus picos mais altos no verão, mostrando uma queda significativa no inverno. Vemos que há períodos anuais de maior intensidade; na sequência, menor, e, em seguida, volta a subir. Esses padrões indicam que muito provavelmente este ano teremos grandes quantidades”, explica Bravo Quezada, que assessora o governo do Estado mexicano de Quintana Roo sobre o fenômeno.

Com uma extensão atual de 86 quilômetros, o cinturão de sargaço está atualmente localizado ao sul das Pequenas Antilhas, que já sofreu pequenos atracamentos. A dinâmica das correntes marítimas e a trajetória percorrida pelos tapetes flutuantes nos anos anteriores permitem aos especialistas deduzir que o sargaço provavelmente viajará para o oeste pela região do Caribe, até encontrar a costa mexicana e então seguir para o sul da Flórida.

Este gráfico mostra o acúmulo de sargaço no Atlântico nos últimos cinco anos. Fonte: Laboratório de Oceanografia Óptica da Universidade do Sul da Flórida.

Nos últimos seis anos, os turistas foram recebidos nos destinos caribenhos com a imagem da água marrom, um odor fétido, a fauna marinha morta e toneladas de algas acumuladas no litoral, especialmente durante os períodos em que o atracamento do sargaço se torna mais intenso.

Mas a vista desagradável e o mau cheiro são somente a ponta do iceberg de um “desastre ambiental” em nível regional, alerta Rosa Elisa Rodríguez, pesquisadora do Instituto de Limnologia e Ciências do Mar da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

O acúmulo de sargaço nas costas já causa impacto em outros campos de algas, nos manguezais, nos arrecifes e nas praias, além de representar uma ameaça à economia das regiões que vivem principalmente do turismo, incluindo Quintana Roo, no México; a República Dominicana; Jamaica; Belize e Aruba; entre outros países.

Embora atualmente não haja um consenso sobre o impacto econômico do sargaço no Caribe, em uma palestra proferida na University of West Indies em 2019, Edmund Bartlett, co-presidente do Global Tourism Resilience and Crisis Management Centre, disse que os governos gastaram aproximadamente US$ 120 milhões para tentar limpar as praias do Caribe.

Essa estimativa não inclui o valor alocado por cada hotel para limpar sua própria orla todos os dias, que pode chegar a US$ 60 mil ao ano para um hotel de médio porte, estimam os proprietários dos estabelecimentos. Mas esse número obviamente varia bastante, dependendo do tamanho da praia, da sua localização e da quantidade de sargaço a ser removido.

Além disso, essas estimativas representam apenas os custos de limpeza, sem levar em consideração a perda de faturamento causada por um possível declínio do desembarque de turistas. Por exemplo, entre 2018 e 2019, Cancún teve uma queda na ocupação hoteleira e, em alguns casos, chegou a 15%, diz Abelardo Vara, presidente honorário da Associação de Hotéis de Cancún, Puerto Morelos e Isla Mujeres.

Ao longo do ano passado, a indústria hoteleira sofreu uma crise adicional, devido à pandemia da Covid-19, por isso o problema do sargaço não está no centro das atenções atualmente, mas, se a situação ecológica não for tratada, pode piorar muito, adverte Vara Rivera.

Os impactos ambientais e econômicos levaram a uma busca desesperada por soluções por parte da comunidade científica e dos governos em muitos países, mas ainda não resultaram em ações eficazes.

Em junho de 2019, foi realizada a primeira Convenção Internacional para tratar do problema do sargaço, em Cancún, no México.Nessa reunião, representantes de 13 países do Caribe concordaram em trabalhar juntos por meio de políticas públicas e de geração de conhecimento para lidar com esse fenômeno. O compromisso foi endossado em uma segunda reunião realizada na Ilha de Guadalupe, em outubro do mesmo ano.

No entanto,  é um problema complexo de ser abordado, começando por sua origem, diz o biólogo Adán Caballero Vázquez, do  Centro de Pesquisas Científicas de Yucatán (CICY), que há vários anos estuda a invasão dessas macroalgas e da sua fauna associada.

Um especialista em espécies invasoras da flora e fauna, Caballero Vázquez afirma que o sargaço que chega ao Caribe não provém do famoso “Mar dos Sargaços”, localizado na região do Triângulo das Bermudas, e que a composição das algas das duas regiões é muito diferente, tendo estudado isso por muitos anos.

Alguns passaram a chamar esse fenômeno relativamente novo de acumulação de sargaço entre as costas do Brasil e da África, no Atlântico Sul, de o “Novo Mar dos Sargaços”.

Alfonso Aguirre Muñoz, ex-diretor-geral do Grupo de Ecologia e Conservação das Ilhas, explica que a biomassa do sargaço se origina ao longo da costa Atlântica oriental da África e na foz do Rio Congo e é arrastada por correntes marítimas que circulam por latitudes tropicais,  passando pela foz do rio Amazonas, onde é alimentada pelo crescente escoamento de nutrientes, seguindo ao longo da costa nordeste do Brasil, finalmente chegando o mar do Caribe e continuando até a costa da Flórida pelo Golfo do México.

“Novo Mar dos Sargaços”

As hipóteses sobre a origem desse Novo Mar dos Sargaços e sua chegada ao Mar do Caribe são muitas, mas os especialistas concordam cada vez mais que se trata, provavelmente, de uma soma de vários fatores. Rosa Isela Rodríguez Martínez, uma das primeiras cientistas a estudar o comportamento dessa alga, aponta como uma das hipóteses o aumento dos nutrientes no oceano, provenientes de poluentes lançados na foz do rio Amazonas, incluindo entre os seus componentes “fertilizantes” de algas como magnésio, cálcio, fósforo e nitrogênio.

Outra história desta série produzida por jornalistas no Brasil examina mais de perto as tendências ecológicas na região amazônica, documentando como o aumento do desmatamento e da produção agrícola na última década está aumentando a sedimentação do rio e o escoamento de nutrientes para o Atlântico.

Na costa da África, enquanto isso, a poeira do Saara, que também contém alguns desses nutrientes, é expelida do deserto e depositada no Atlântico oriental, depois flui ao longo da corrente marinha ocidental em direção às Américas. Além disso, o aumento da temperatura do oceano resultante da mudança climática também beneficia o crescimento das algas, observam os especialistas. Adán Caballero Vázquez explica que o crescimento explosivo do sargaço na última década pode ser a soma de todos esses fatores.

De acordo com Caballero Vázquez, as algas do Mar dos Sargaços original são pobres em nutrientes, enquanto as do Novo Mar dos Sargaços têm altas concentrações de nutrientes e metais pesados.

As águas do Caribe são historicamente “oligotróficas”, ou seja, normalmente têm uma carga de nutrientes muito baixa, daí sua pitoresca cor azul e transparência lendária. Mas, quando as algas do sargaço chegam à costa, transformam completamente os ecossistemas e a paisagem.

Impactos visíveis e invisíveis

Em termos de impactos ambientais, o principal problema são as algas que apodrecem no mar, produzindo um odor fétido e liberando líquidos conhecidos como “lixiviados”, que carregam a água com nutrientes.

Esses lixiviados escoam para o mar e formam o que chamamos de ‘maré marrom’ [quando a água fica turva]. Nesse ponto já existe um importante crescimento bacteriano no sargaço e, nessa ‘maré marrom’, os níveis de concentração de oxigênio caem muito

explica Rosa Rodríguez.

Em zonas marinhas com altas concentrações de sargaço e com o efeito da maré marrom, os prados de relvas marinhas tendem a morrer, observou a acadêmica, uma vez que precisam de oxigênio e luz para sobreviver.

Os pastos marinhos são muito importantes para a costa, porque servem de refúgio, habitat e alimento para centenas de espécies marinhas. Além disso, protegem a costa da erosão, reduzem a força do mar durante as tempestades e os furacões e servem como um valioso escoadouro para armazenar carbono.

Em 2018, continua Rodríguez, cientistas começaram a registrar o aumento do número total de espécies marinhas mortas – peixes, crustáceos, polvos e pepinos do mar – em zonas com altas concentrações de sargaço nas praias. Um estudo liderado por essa cientista mostrou que foram encontrados cadáveres de 76 espécies diferentes de animais no sargaço acumulado ao longo das praias de Quintana Roo.

Gonzalo Merendiz Alonso, Diretor Executivo dos Amigos de Sian Ka’an, explica que o sargaço também está afetando as florestas de mangue, refúgios e habitats da vida selvagem e área de procriação de centenas de espécies de peixes.

Desde 2015, alguns países do Caribe tomaram medidas para mitigar os efeitos do sargaço nas costas. No México, a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat) emitiu uma série de diretrizes para o tratamento das algas, que se converteram em padrões não formais. Por exemplo, enterrar sargaço na areia – uma prática recorrente até 2018 – é proibido. A coleta de sargaço deve ser executada com um maquinário específico, para não provocar danos às tartarugas marinhas, e as algas devem ser encaminhadas a um local adequado de descarte de resíduos. No entanto, as costas já apresentam impactos visíveis.

A hidrogeóloga Guadalupe Velazquez, do Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento Sustentável (Cides, na sigla em espanhol), indica que as praias na cidade de Puerto Morelos, em Quintana Roo, sofreram grave erosão e compactação, porque no processo de remoção das algas, muitos quilos de areia também são retirados, além da pressão causada pela contínua passagem do maquinário.

“Quando ocorrem fenômenos meteorológicos, percebe-se como o mar está ganhando cada vez mais espaço no litoral”, acrescenta a especialista.

Os problemas gerados pelo atracamento excessivo do sargaço não acabam com  sua retirada da praia, pois até o momento apenas um município, Puerto Morelos, instalou um local de descarte final, com geomembrana para evitar a poluição do solo por lixiviados. Outros municípios, no melhor dos casos, depositam o sargaço em locais específicos para esse tipo de lixo orgânico, em locais distantes das zonas urbanas.

Alejandro López Tamayo, presidente da organização Sentinelas da Água, explica que a região da Península de Yucatán, no México, possui um sistema de solo cársico poroso, com um aquífero de poucos metros de profundidade. Sem o tratamento adequado, os lixiviados liberados durante a decomposição do sargaço se infiltram facilmente no lençol freático e aquífero, poluindo o solo e as águas, explica López Tamayo.

Outro estudo conduzido pela acadêmica Rosa Rodríguez Martínez também mostra a presença de elementos poluentes no sargaço, como arsênico, cobre, manganês e molibdênio, que em altas concentrações podem ser prejudiciais aos seres humanos, à flora e à fauna locais.

Cientistas alertam que, no longo prazo, os efeitos do sargaço nos principais ecossistemas costeiros podem produzir impactos devastadores no mar do Caribe e nas economias da região, altamente dependentes dos seus recursos naturais.

Tentativa do México de lidar com o sargaço

Durante cinco anos o governo mexicano fracassou para conter ou minimizar o problema. No início, os municípios e os hotéis no governo de Quintana Roo eram os responsáveis pelo trabalho de limpeza da praia. Isso implicou investimentos de vários milhões de pesos para construir barreiras, comprar maquinários, pagar trabalhadores e transportar e descartar o lixo.

Em 2019, Quintana Roo criou um Conselho Consultivo Governamental para gerenciar o sargaço, em conjunto com membros da comunidade científica e proprietários de negócios. Várias iniciativas de gestão integrada do sargaço foram tomadas desde seu monitoramento e coleta do mar e das praias, seu descarte final e até sua industrialização (transformando os resíduos orgânicos em subprodutos úteis). Os projetos propostos seriam financiados com contribuições conjuntas dos três níveis de governo.

No entanto, divergências entre os investidores e a indignação decorrente da suspeita da interferência de um funcionário público na elaboração dos contratos – cuja conexão com o suposto escândalo não foi verificada – fizeram com que o projeto principal apelidado de “Escudo do Caribe” fosse descartado.

Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, ordenou que a Secretaria se encarregasse do assunto, dizendo ter sido  “herdado de outros governos” e “ampliado” para criticar seu governo.

Após a decisão anunciada em junho de 2019, a Secretaria da Marinha (Semar) assumiu a liderança na coordenação da estratégia com a Secretaria de Ecologia e Meio Ambiente de Quintana Roo (SEMA) e os municípios costeiros.

Uma das primeiras estratégias implementadas pela Semar foi a coleta do sargaço em mar aberto, seguindo as recomendações do Conselho Consultivo. Cinco navios de grande calado foram encarregados de realizar essa tarefa.

No entanto, o financiamento da agência federal é mínimo e os custos operacionais são elevados. De 2019 a setembro de 2020, a Semar relatou a  coleta de 304 toneladas de sargaço do mar, apenas 1,6 por cento das 18.317 toneladas coletadas nas praias públicas pelas prefeituras dos municípios de Quintana Roo.

Durante as temporadas de surto de sargaço, no início do amanhecer centenas de trabalhadores temporários contratados pelas prefeituras e hotéis recolhem toneladas de algas úmidas, para tentar evitar que apodreçam na praia. “Quando o turista vem à praia, precisa ver tudo limpo”, grita um chefe da equipe para instruir seus trabalhadores.

O sargaço representa uma séria ameaça à indústria do turismo mexicano no Caribe, a mais poderosa da América Latina. “Se não buscar uma solução rápida para o problema, as consequências no futuro poderiam ser fatais”, alerta Rodríguez Martínez.

Apenas Quintana Roo recebe anualmente 14 milhões de visitantes (em um ano típico anterior à Covid), com uma contribuição para o Produto Interno Bruto nacional de mais de 60 bilhões de pesos (aproximadamente 2,8 bilhões de dólares), de acordo com relatórios da Secretaria de Turismo (Sectur).

Destinos como Cancún, Playa del Carmen, Tulum e Cozumel oferecem a beleza das suas praias como principal atração para liderar o mercado turístico latino americano. Mas em praias com alta concentração de sargaço, especialmente nas baías e lagoas de recifes, onde as algas ficam estagnadas, a cor da água mudou de turquesa para marrom, alterando completamente a paisagem, mesmo quando não é a temporada do sargaço. Exemplos desse fenômeno podem ser encontrados no litoral de Puerto Morelos e Xcalak, bem como nas baías de Sian Ka’an. Além dos problemas ambientais que isso representa, as águas marrons, como um rio poluído, não são atraentes para os turistas.

Soluções ainda incertas

Atualmente, há várias propostas para a coleta e o processamento do sargaço no Caribe, uma medida que poderia solucionar parte do problema, transformando a alga em um recurso com valor comercial, segundo os financiadores.

Um dos projetos mais avançados é o da empresa Dianco Mexico, que iniciará as operações em Cancún em meados de abril para transformar o sargaço em biofertilizante. Outro produto que planejam produzir é a celulose.

Héctor Romero, CEO da empresa, afirma que a fábrica terá capacidade para processar até 600 toneladas de algas diariamente.

Outras propostas sugerem o uso das algas na indústria de alimentos para o gado, na  indústria cosmética e para a geração de biocombustível.

Para Adán Caballero, a pesquisa disponível atualmente sobre as algas do Novo Mar dos Sargaços não é suficiente para estabelecer seu potencial uso, pois os contaminantes contidos nela podem representar um risco à saúde pública.

“O Mar dos Sargaços original tem várias indústrias associadas e estudos abrangentes que apóiam o uso das suas algas, mas os estudos que temos sobre o sargaço que afeta o Caribe ainda estão surgindo”, diz ele.


Essa história foi produzida com o apoio da Internews’ Earth Journalism Network.  Foi traduzida por Jerusa Rodrigues e editada por James Fahn.

Imagem de abertura: Durante a temporada de verão de 2019 em Cancún, homem nada entre o sargaço no mar. Crédito: Arquivo/Paola Chiomonte

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  1. I hope everybody becomes aware of that. Every single step we take with our waste at home,in our offices,factories, etc…impact the whole world terribly. This is all OUR FAULT!

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