Postado emReportagem Especial / Água

Destruição da Amazônia alimenta maior cinturão de algas do planeta

Esta história é parte da série Águas Turvas, produzida pelo InfoAmazonia com apoio da Earth Journalism Network (EJN) e em parceria com a Earthrise Media.

Cientistas estão investigando porque os bancos de sargaço no Atlântico proliferaram tão rápido durante a última década, sujando o mar do Caribe e se estendendo até a costa da África. Há cada vez mais evidências que as descargas crescentes de poluentes orgânicos do rio Amazonas são uma das principais causas.

Durante séculos uma visão familiar para navegadores do Atlântico, bancos flutuantes de algas se expandiram durante a última década no Mar do Caribe, deixando praias turísticas inundadas com tapetes de plantas em decomposição. Os cientistas acreditam que os sedimentos do desmatamento, dos garimpos e a poluição agrícola levados ao mar pelos grandes rios, particularmente o Amazonas, são as principais causas deste inchaço da “maré marrom”.

Cristóvão Colombo fez o primeiro registro da enorme quantidade de algas em sua primeira viagem, em Setembro de 1492.

Quando Cristóvão Colombo fez suas quatro travessias do Atlântico entre 1492 e 1504, ele não apenas confirmou a posição do continente americano para a coroa espanhola, mas fez o primeiro registro de uma imensa massa de algas mantida por correntes oceânicas a leste dos Estados Unidos e ao norte de Cuba. 

Desde então, o Mar de Sargaços figura nas cartas náuticas usadas por quem se aventura naquelas águas tropicais.

Entretanto, desde o início da última década, o sargaço – que se aglomera para formar grandes esteiras flutuantes de vida vegetal – proliferou enormemente para o sul do local original observado por Colombo. Em meados de 2018, eles já haviam formado uma ponte viva de quase 9.000 km entre o mar caribenho e a costa africana. Nas costas inundadas e praias tomadas, a vegetação afasta os turistas, mancha as águas lendárias do Caribe de uma cor marrom-amarelada doente e altera muito os ecossistemas costeiros.

As últimas pesquisas identificaram como a principal causa pelo crescimento do sargaço a descarga de nutrientes e poluentes de rios Amazonas no Brasil e o Orinoco na Venezuela, pois as correntes oceânicas predominantes – que estão sendo alteradas pela mudança climática – varrem o efluente para o norte, em direção ao Caribe (veja gráfico).

Embora haja poucos dados disponíveis sobre as cargas de nutrientes que chegam à foz do rio Amazonas – que lança uma média de 209.000 metros cúbicos de água no oceano a cada segundo, mais do que a vazão combinada dos próximos 7 maiores rios do mundo – acredita-se que ela esteja crescendo rapidamente. “Uma comparação das concentrações de nutrientes superficiais medidas na região da pluma amazônica na primavera de 2010 e na primavera de 2018 fornece observação direta para o aumento da descarga de nitrato e fosfato no Atlântico Centro-Oeste”, aponta um artigo publicado na Science por Mengqiu Wang e Chuanmin Hu da Universidade do Sul da Flórida. A amostragem no Atlântico Centro-Oeste mostra que o nível de nitratos, em particular, aumentou acentuadamente durante esses oito anos.

Os nutrientes do sargaço – tais como nitrogênio, fósforo e carbono – provêm de fontes múltiplas.

“Não podemos citar um gatilho específico, mas a contribuição do território brasileiro é fundamental. Com o desmatamento da Amazônia, a água lava o solo e os elementos químicos nos rios. O nitrogênio é um nutriente do sargaço, e suas principais fontes são a agricultura, as indústrias e os esgotos sem tratamento”, disse Carlos Noriega, do Laboratório de Oceanografia Física Estuarina e Costeira da Universidade Federal de Pernambuco e um dos autores de um estudo sobre a expansão do sargaço.

A contribuição do território brasileiro é fundamental. Com o desmatamento da Amazônia, a água lava o solo e os elementos químicos nos rios. O nitrogênio é um nutriente do sargaço, e suas principais fontes são a agricultura, as indústrias e os esgotos sem tratamento

disse o pesquisador Carlos Noriega, da Universidade Federal de Pernambuco.

De acordo com a iniciativa One Shared Ocean (Um Oceano Compartilhado), realizada pelas Nações Unidas e pela União Européia, no ano 2000 o nível de nitrogênio encontrado na água ao longo da Plataforma do Norte do Brasil – como é conhecido este Grande Ecossistema Marinho (Large Marine Ecosystem – LME) – já era considerado muito alto, e de acordo com a mesma metodologia, o grupo prevê que este nível permanecerá elevado nas próximas décadas. O motivo que eles citam? A rápida expansão do uso de fertilizantes agrícolas no Brasil.

“As atividades humanas nas bacias hidrográficas estão afetando os nutrientes transportados pelos rios para os LMEs. Grandes quantidades de nutrientes (em particular a carga de nitrogênio) que entram nas águas costeiras dos LMEs podem resultar em alta floração de algas, levando a condições hipóxicas ou anóxicas [quando as águas ficam desprovidas de oxigênio], aumento da turbidez e mudanças na composição da comunidade, entre outros efeitos”, diz a avaliação sobre a saúde da Plataforma do Norte do Brasil.

Enquanto isso, o trabalho publicado pelos pequisadores da Universidade do Sul da Flórida mostrou que o uso de fertilizantes agrícolas no Brasil cresceu 67% entre 2011 e 2016 (ver gráfico). O uso permanece elevado para apoiar a crescente produção de soja, milho, cana-de-açúcar e café.

O crescimento explosivo das macroalgas também poderia ser considerado um sinal de alerta sobre o aumento do desmatamento na bacia amazônica. Após atingir seu nível mais baixo de 4.600 km² por ano em 2012, o desmatamento cresceu 30%, para 11.100 km² somente no ano passado, causando mais erosão e sedimentos que correm para os rios, eventualmente para o mar.

Ao todo, cerca de 17% da porção brasileira da floresta tropical amazônica já foi perdida, em grande parte devido à agricultura e pecuária nos estados do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. Desde 1985, segundo o MapBiomas, esta atividade consumiu 445.000 km² da floresta tropical, uma área maior do que o estado da Califórnia. 

Rios com saúde, oceano saudável

Os cientistas ainda estão debatendo a real dimensão da carga sedimentar que chega ao oceano através do rio Amazonas e a contribuição das atividades humanas para a carga de nutrientes, especialmente o nitrogênio. Mas o estudo do LME estima que a descarga de nitrogênio por grandes rios continuará a alimentar a proliferação de algas ao longo das costas venezuelana e brasileira durante as próximas três décadas.

Em 2010, o pesquisador Emilio Mayorga, da Universidade Estadual de Washington, publicou o modelo NEWS (Nutrient Exports from Watersheds), uma ferramenta para medir o nitrogênio dissolvido em bacias hidrográficas. A metodologia está sendo adotada agora em estudos de larga escala – como o que determinou a alta concentração de nitrogênio em 2000 ao largo da costa norte da América do Sul.

De acordo com o estudo de Mayorga publicado em 2016 em parceria com pesquisadores da Universidade da Califórnia, a maior parte do nitrogênio encontrado hoje nas águas sul-americanas provém de esterco e esgoto, ao contrário de áreas na Ásia onde a origem é predominantemente fertilizantes. No entanto, este mesmo estudo prevê que a carga de nitrogênio crescerá 45% até 2050, principalmente devido ao aumento do uso de fertilizantes.

A região amazônica no Brasil tem os piores indicadors nacionais para saneamento básico, e faz o mínimo para coletar e descartar adequadamente o esgoto urbano e rural. Os rios que correm pelas cidades carregam lixo e esgoto para o Amazonas e muitos outros rios.

Além de aproveitar os “alimentos” trazidos pelas grandes fontes ao longo dos rios, o crescimento do sargaço é estimulado pelas águas aquecidas pela mudança climática. As mudanças na temperatura global também alteram as correntes marinhas, espalhando algas para novas regiões. No outro lado do Atlântico, as descargas do rio Congo e da areia do Saara transportadas pelos ventos também podem aumentar o crescimento de algas.

“Entre os dados sobre sargaço que precisam de mais investigação estão a contribuição para o fenômeno decorrente da deposição real de poeira nos mares e oceanos, a disponibilidade de nutrientes nas águas superficiais, e como a planta responde a esses vários fatores associados”, explica Chuanmin Hu, um dos pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida.

Entre os dados sobre sargaço que precisam de mais investigação estão a contribuição para o fenômeno decorrente da deposição real de poeira nos mares e oceanos, a disponibilidade de nutrientes nas águas superficiais, e como a planta responde a esses vários fatores associados

explica o pesquisador Chuanmin Hu, da Universidade do Sul da Flórida.

Ele é co-autor de um estudo sobre o florescimento de macroalgas marinhas publicado na Science em julho de 2019. Avaliando 19 anos de imagens de satélite da NASA, esta pesquisa confirma que a proliferação do sargaço vem ganhando força desde 2011 e que suas principais fontes nutritivas são, no oeste, grandes rios como o Amazonas e o Orinoco, e, no leste, a ressurgência de águas profundas e mais salgadas ao largo da costa africana.

Crédito das imagens: University of South Florida Optical Oceanography Lab (Prof. Chuanmin Hu).

Algas globalizadas

Este fenômeno de poluição que brota dos rios e causa o florescimento de algas, condições anóxicas e outros impactos, ocorre em muitas outras regiões. O fluxo de sedimentos e nutrientes do rio Mississippi, é um dos exemplos mais famosos: criou uma área de 17.000 quilômetros quadrados de “zona morta” no Golfo do México.

Sargaço e outros tipos de algas, flutuantes ou presas ao fundo do mar, proliferaram em muitas partes do planeta. Tapetes flutuantes também apareceram ao longo das costas dos Estados Unidos, China, Índia e França. Em 2008, uma explosão de algas verdes afetou as competições nas Olimpíadas de Pequim.

Os maiores impactos econômicos deste fenômeno estão nos danos que vem causando ao turismo em países caribenhos como México, Jamaica, Belize e República Dominicana. O sargaço apodrece nas praias, ilhas e resorts da região. Cancún foi fechada durante meses no ano passado devido à pandemia da COVID-19, mas há preocupações de que as algas que infestam o balneário mexicano da moda também estejam causando um declínio na chegada do turismo.

Cáncun é anunciada como um litoral de areia branca e mar azul-turquesa. Mas com a chegada do sargaço, os habitantes locais falam de uma “maré marrom”.

Outra história desta série, do jornalista mexicano Alejandro Castro, do estado de Quintana Roo, onde fica Cancún, mostra que em 2018 e 2019 o acúmulo de algas nas praias do resort teve um sério impacto econômico. O impacto pode crescer em 2021, pois a quantidade de macroalgas observada neste mês de janeiro foi três vezes maior do que em janeiro de 2019.

No próprio Brasil, o sargaço começou a tomar as costas dos estados do norte e nordeste. Em 2015, a profusão de macroalgas fechou as praias durante várias semanas no arquipélago de Fernando de Noronha. No ano anterior, um cinturão de 800 quilômetros de comprimento de outra espécie de algas tingia as costas de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro de preto e verde. A floração foi registrada pela NASA.

O fenômeno do sargaço não pode ser simplificado porque há grandes responsáveis distribuídos em várias regiões do globo, como países eliminando suas florestas e as mudanças do clima. Problemas como esses criam as condições favoráveis para a explosão das populações de algas em todo o planeta

ressaltou Paulo Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina. 

O outro lado da moeda

Flutuando nos mares e oceanos apoiados por pequenas bexigas cheias de ar, como se fossem bóias naturais, o sargaço ainda não encontrou com predadores iguais a sua incrível capacidade de propagação. Em ilhas caribenhas como Barbados, o peso do sargaço enterrou tartarugas e outras espécies marinhas.

Tartaruga marinha afogada devido ao sargaço em Barbados. Crédito: Carla Daniel.

Mas estas plantas também servem de abrigo e alimento para vários habitantes permanentes ou temporários. Peixes, aves, lagostas, camarões e outros seres vivos são apoiados por este ecossistema. O tamboril ou peixe-rã (Histrio histrio) imita as cores e formas do sargaço. As flores de algas nos Estados Unidos têm sido um habitat essencial para os peixes desde 2003.

O peixe-rã imita as cores e formas do sargassum. Crédito: Shane Gross/Greenpeace. Crédito: Shane Gross/Greenpeace.

O sargaço serve como uma “ponte entre continentes” para espécies migratórias, como tartarugas e peixes. Ele pode fertilizar as dunas e manter a estabilidade do litoral. É utilizado em chás e sopas, como combustível, e é uma possível fonte de insumos farmacêuticos. Além disso, como outras plantas, absorve o carbono que remove da atmosfera através da fotossíntese para alimentação e crescimento.

Se a grande quantidade de biomassa produzida pelas algas acabar no mar profundo, uma grande quantidade de carbono ficará presa lá, sem retornar à atmosfera, ajudando assim a combater a crise climática”. Entretanto, a relação entre o sargaço e a mudança climática global precisa de mais estudos”, diz Maria Teresa Széchy, doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Esclarecer o mistério da proliferação e desenhar outros usos para o sargaço depende não só de mais estudos científicos, mas também de políticas públicas que façam o desenvolvimento econômico caminhar sempre junto da proteção ambiental. Por isso, o pesquisador Carlos Noriega defende maior controle sobre o desmatamento, a redução no uso de fertilizantes e mais tratamento de esgotos, especialmente na Bacia Amazônica.

“Se não forem tomadas medidas imediatas, a proliferação dos sargaços pode se tornar constante. Tudo está interligado e todos, cientistas, políticos e público em geral, são responsáveis pelo bem estar do planeta. Somente com mais apoio do governo, a conscientização das pessoas e o olhar atento de jornalistas e cientistas evitaremos outros fenômenos como esse”, ressaltou o especialista do Laboratório de Oceanografia Física Estuarina e Costeira da Universidade Federal de Pernambuco.


Esta história foi produzida pelo InfoAmazonia com o apoio da Earth Journalism Network (Rede de Jornalismo da Terra), da Internews. Editada por James Fahn e Gustavo Faleiros.

Imagem de abertura: Peter Cross / Greenpeace

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