Plataformas de comércio do setor privado ou arranjos produtivos coordenados por organizações não governamentais têm sido a nova aposta para conectar os produtos do bioma amazônico com os grandes centros consumidores.

A comercialização da produção dos povos da floresta permanece um dos gargalos principais da bioeconomia. Os moradores da Amazônia são os primeiros a levantar a bandeira da conservação, desde que tenham acesso ao crédito, à logística e, principalmente, aos mercados nacionais e do exterior.

por Eduardo Geraque

Plataformas de comércio do setor privado ou arranjos produtivos coordenados por organizações não governamentais têm sido a nova aposta para conectar os produtos do bioma amazônico com os grandes centros consumidores.

O programa Origens Brasil, criado pelas ONGs Imaflora e Instituto Socioambiental (ISA) em 2016 na região do Xingu, conecta os produtores locais às grandes empresas que atuam no Brasil. Segundo os números apresentados pelo programa, a tarefa está sendo bem sucedida.

A rede montada na Amazônia reúne 44 organizações comunitárias e 22 empresas. Aproximadamente 1.800 produtores membros são beneficiados, parte de 40 etnias indígenas, além de quilombolas e extrativistas.

As famílias estão espalhadas por 52 milhões de hectares em 35 áreas protegidas divididas em quatro territórios: Xingu, Calha Norte, Rio Negro e Solimões. O comércio de aproximadamente 40 produtos movimentou R$ 7,3 milhões nos quatro primeiros anos de programa.

“O foco é sempre encontrar parceiros comerciais que pensem em um jeito diferente de fazer negócios com os povos da floresta. De forma ética e justa, com rastreabilidade total da origem e sem atravessadores”, afirma Patrícia Cota Gomes, coordenadora do Origens Brasil.

Todos os anos, segundo a coordenadora do Imaflora, são feitas reuniões, nas próprias comunidades, entre as empresas e os produtores. Muitas vezes, os próprios CEOs dos grandes grupos é que vão aos encontros. “Esse ano ocorreu tudo de forma virtual [por causa da pandemia]”, afirma Patrícia.

“Se o Brasil tivesse, nas últimas décadas, colocado a bioeconomia como um dos pilares do seu desenvolvimento estaríamos hoje em outro patamar. Somos uma grande potência em termos de produção de alimentos, mas ainda não temos políticas públicas que incentivem essa economia da floresta. Falta crédito, isenção e investimentos em geral”, afirma Patrícia. “Existe quase um abandono do setor”, completa.

Para a gestora do Origens Brasil, o grande desafio futuro é mostrar que os modelos que estão sendo implementados na Amazônia estão no caminho certo. “Essa economia oculta da floresta costuma ser informal, feita por atravessadores e sem rastreabilidade, mas precisamos de um novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia”, diz.

Segundo ela, um dos exemplos que mostram que a iniciativa da Imaflora e do ISA está no caminho setor vem da Lush, empresa do setor de perfumaria. O grupo costuma usar a aromática semente do cumaru em sua linha de produção.

“A semente do cumaru, que lembra o cheiro da baunilha, passou a valer mais do que a madeira da árvore, ao contrário do que ocorria antes do programa. A empresa, em 2016, comprava 2% da produção de sementes que ela precisava na Amazônia. Em dois anos, esse índice saltou para 60%”, afirma Patrícia.

Superando a fase piloto

Além do investimento em tecnologia e em processos de produção inovadores, um dos gargalos que ainda precisa ser ultrapassado, avalia a especialista, é conseguir trazer mais a ciência, a pesquisa e o desenvolvimento para as cadeias de produção local. Os povos da floresta têm dificuldade, por exemplo, em beneficiar a matéria-prima em áreas onde a energia elétrica é escassa.

“A fase de projetos piloto de produção na Amazônia já passou. Agora, precisamos escalonar as iniciativas que apontam para a direção certa”, diz a especialista.

Um dos grandes programas piloto desenvolvidos para o bioma amazônico até hoje, que deixou muitos legados na região, foi o PPG7 (Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil). A sigla G7 faz referência aos sete países mais ricos do mundo em 1992, quando o programa foi apresentado durante a Eco-92.

Ele durou aproximadamente 15 anos. Entre 1994 e 2009 um total de US$ 428 milhões foram colocados em várias iniciativas na Amazônia voltadas para a conservação ambiental e o manejo sustentável. Um dos marcos do PPG7, por exemplo, foi a introdução de um marco regulatório para a pesca na região, que se mostrou fundamental para a preservação de diversas espécies, como o pirarucu.

No total, os recursos vindos dos países ricos ajudaram 70 mil produtores, segundo os dados oficiais do programa, em suas atividades econômicas produtivas. O PPG7 e suas dezenas de subprogramas também ajudaram a demarcar 2,1 milhões de hectares de terras indígenas e financiar 110 estudos sobre os ecossistemas florestais.

Iniciativas se multiplicam

Depois da fase dos projetos-piloto, agora, os modelos como os moldados pelas ONGs Imaflora e ISA para conectar os produtores da floresta aos grandes mercados consumidores de uma forma que procura ser justa, começam a se replicar. Há outras iniciativas que também focam na floresta em pé.

O programa de aceleração da plataforma Parceiros Pela Amazônia, em seu primeiro ano de funcionamento, 2019, selecionou 15 negócios sustentáveis com grande potencial de crescimento. De acordo com os números divulgados pelos coordenadores da iniciativa, um total de R$ 1,1 milhão, obtidos por meio de rodadas de negócio, foram investidos em quatro startups da floresta.

E outros R$ 60 mil foram distribuídos entre mais quatro negócios selecionados por meio do Prêmio Empreendedor PPA. Um total de 873 mil hectares de floresta amazônica foram conservados, sendo que 128 mil estão sob manejo e produção sustentável.

No total, pelos cálculos apresentados pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), instituição que coordena a iniciativa, 110 comunidades foram impactadas positivamente pelos negócios da plataforma e 1.667 famílias atuam como fornecedores sustentáveis de matéria-prima.

Obstáculos persistentes

Se de um lado as iniciativas que miram a construção de pontes entre os produtores locais e as grandes empresas se desenvolvem, do outro há ainda também muitos gargalos para serem vencidos, segundo especialistas da área que convivem há muito tempo com a produção quase oculta da floresta.

“Ainda falta investimento e cadeias de negócios mais estruturadas. A economia da floresta é muito incipiente. Uma das necessidades, por exemplo, é um investimento maior em inovações tecnológicas. Muitas vezes, no caso dos indígenas, falta também capital de giro”, afirma Helcio de Souza, Gerente da Estratégia de Povos Indígenas da ONG TNC.

A instituição desde 2015 se debruça sobre a elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental, os chamados PGTAs, em quatro terras indígenas da Amazônia. Um dos pilares mais robustos do plano é incentivar os povos Xikrin e Parakanã, do Pará, e Wajãpi, Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi-Kali’na, do Amapá, a gerir de forma sustentável os territórios que eles ocupam.

Segundo Helcio, os indígenas são parceiros essenciais para a conservação da natureza e, por isso, a autonomia para a gestão das terras, incluindo o uso sustentável e a proteção dos recursos naturais, é fundamental.

As terras indígenas ocupam por volta de 115 milhões de hectares no Brasil e 99% desses territórios estão na Amazônia. O mapa do desmatamento mostra que as parcelas mais bem preservadas da floresta costumam estar nos territórios indígenas.

Terceira via amazônica

O desenvolvimento socioambiental da Amazônia é um objetivo comum entre os povos da região, ambientalistas, cientistas e parte de integrantes do poder público. Nesse contexto, uma das iniciativas mais recentes apresentadas com o objetivo de mudar paradigmas no bioma amazônico é o conceito da Amazônia 4.0, que vem sendo gestado pelo cientista Carlos Nobre e vários colaboradores desde 2018.

Na visão do grupo de pesquisadores, é importante que exista uma espécie de terceira via para as políticas públicas da região. Se de um lado existe a preocupação com a conservação e de outro políticas públicas destrutivas, há também o caminho do meio.

Um dos exemplos usado por Nobre em suas palestras é o do açai. Segundo o cientista, a maior parte dos produtos derivados do açaí foram desenvolvidos nos Estados Unidos porque a indústria da transformação é praticamente inexistente na Amazônia apesar da quantidade gigantesca de produtos que podem ser gerados a partir da biodiversidade.

“Pela primeira vez na história, a tecnologia deixou de ser um entrave. No caso da indústria do açaí, que tem nos Estados Unidos seu maior importador e transformador, há geração de mais de US$ 15 bilhões no mundo, sendo que desse total, apenas 10% volta para a Amazônia. A Amazônia 4.0 pretende, portanto, trazer essas tecnologias para as cadeias produtivas amazônicas”, afirmou Nobre durante uma palestra na Unicamp em setembro de 2020.

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