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Na bacia do Alto Juruena, indígenas se adaptam à redução de mais da metade da superfície de água em seus territórios

Análise da InfoAmazonia aponta que as terras indígenas da bacia mato-grossense perderam 55% de sua área de corpos d’água até 2025 após avanço da agropecuária em toda a região. Na TI Tirecatinga, onde a redução chegou a 75%, indígenas resgataram alimentos tradicionais por meio da agricultura familiar e mapearam as principais mudanças no território, para cobrar políticas públicas e enfrentar a insegurança alimentar e hídrica.

O verão na Terra Indígena (TI) Tirecatinga, no oeste de Mato Grosso, nos últimos cinco anos, é mais marcado por tempestades com ventos mais fortes e chuvas carregadas de raios, que podem provocar incêndios. Falta o sereno da alvorada e fica quente demais para caçar. A desova dos peixes atrasou, afetando a pesca. O calor também trouxe mais mosquitos e, por consequência, aumentaram os casos de dengue. 

Já o inverno está mais seco, mais curto e sem geada. Com a falta de chuva nesse período, lagoas nas cabeceiras secaram e nascentes migraram. A estiagem adiou o plantio da roça de setembro para dezembro, além de atrasar a maturação de frutos silvestres, como jabuticaba e bacaba.

Em dezembro de 2024, ao final do ano mais quente já registrado no Brasil – e no mundo –, os povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti, da TI Tirecatinga, reuniram-se para mapear os impactos climáticos e ambientais, identificar como afetam seus modos de vida e pensar em soluções.

O diagnóstico resultou no Calendário Ecológico de Tirecatinga, publicado em setembro passado e realizado pela Thutalinãnsu, a associação de mulheres do território, com apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan) e da Rede Juruena Vivo. Ele servirá de base para a elaboração do novo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da terra indígena e para a busca por políticas públicas de adaptação e mitigação.

“Quem sofre principalmente com a mudança climática? Somos nós”, disse Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu, no lançamento do calendário na aldeia Serra Azul. “Quando vem aquela chuva forte, aquele vento forte arregaçando as casas, quem está aqui somos nós. Quando vem aquele sol quente queimando nossas plantas, nosso alimento, somos nós que estamos aqui. Quem está destruindo? Somos nós? Não somos”. 

Quando vem aquela chuva forte, aquele vento forte arregaçando as casas, quem está aqui somos nós. Quando vem aquele sol quente queimando nossas plantas, nosso alimento, somos nós que estamos aqui. Quem está destruindo? Somos nós? Não somos.

Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu
Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Tirecatinga é casa para 244 indígenas e protege 131 mil hectares no município de Sapezal, no Cerrado mato-grossense, em uma região de transição para o bioma Amazônia. O território fica na bacia do Alto Juruena, com cabeceiras e nascentes que alimentam esta importante sub-bacia do rio Tapajós. 

“A gente observou como estão as ações que acontecem na natureza, como os animais estão vivendo, os rios, os peixes, os pássaros e como, através disso, a gente vai conseguir sobreviver”, conta Cleide. “A gente criou um instrumento para enfrentar esse grande momento das mudanças climáticas”.

Junto às terras indígenas Utiariti e Paresi, a Tirecatinga forma um corredor de 1 milhão de hectares de florestas, savanas e campos preservados na Chapada dos Parecis. O entorno, no entanto, é dominado por monoculturas de soja, milho, algodão e pastagens.

Vista aérea do rio Verde, na divisa da Terra Indígena Utiariti. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

A agropecuária avançou sobre metade da vegetação nativa da bacia do Alto Juruena de 1985 a 2024, transformando 2,2 milhões de hectares em pastagens e áreas agrícolas, de acordo com análise da InfoAmazonia a partir de dados da plataforma MapBiomas. A combinação da crise climática com as mudanças na cobertura e no uso do solo contribui para um cenário de insegurança hídrica e alimentar.

Na beira do cristalino e veloz rio Buriti, na aldeia Serra Azul, Suyani Terena, filha de Cleide e vice-presidente da Thutalinãnsu, afirma que “o Cerrado é resistência”, “um bioma onde o fogo chega, pega, mas ele ressurge no outro ano, com muito mais flores, mais frutos”. Mas ela considera que essa resiliência está sendo colocada em xeque, diante de “muitos desafios e ameaças externas que vêm para o território”.

“As mudanças climáticas chegaram muito próximas da gente e o Cerrado vem se modificando aos poucos. Nossa preocupação é saber até quando vai continuar florescendo e sendo resistente, porque é onde nasce a água, a vida”, diz Suyani.

Rios sob pressão do clima e do agronegócio

O Alto Juruena perdeu 14% (3.193 hectares) da superfície d’água média de 1985 a 2025 – de 23.460 para 20.267 ha, conforme a análise da InfoAmazonia. O cenário é mais crítico dentro das terras indígenas da bacia hidrográfica: redução de 55% (3.932 hectares) da área de corpos hídricos no período, de 7.175 para 3.233 ha. A queda foi mais acentuada a partir de 2000, período que coincide com o boom das commodities e o avanço mais expressivo da soja em Mato Grosso desde meados dos anos 1990.

Com duas mil nascentes mapeadas, a bacia do Juruena se estende por 19 milhões de hectares. O rio principal percorre 1.080 quilômetros do Cerrado à Amazônia e contribui com mais de 60% da água que drena para o rio Tapajós, sendo seu principal formador. As terras indígenas, por sua vez, resguardam as maiores áreas de vegetação nativa na bacia, uma barreira ao avanço do agronegócio.

Rodrigo Marcelino, analista socioambiental do Instituto Centro de Vida (ICV), uma organização da sociedade civil que apoia povos indígenas no estado, observa que importantes rios da Bacia Amazônica, como Juruena, Teles Pires e Xingu, nascem no Cerrado mato-grossense e atravessam algumas das maiores áreas de produção de commodities do estado, onde são afetados pela irrigação, por barragens hidrelétricas e pelo uso de agrotóxicos. Assim, chegam aos territórios indígenas já impactados.

“É onde se está jogando água para o espaço sem parar, tanto para as lavouras, que extraem muito dessa água, como para os processos de degradação do solo, em que a perda de umidade é gigantesca”, diz Marcelino. “No período da seca, que está ficando extremo, perdemos tanta umidade que o solo fica completamente exposto e as florestas totalmente suscetíveis aos grandes incêndios”.

Na TI Tirecatinga, houve redução de 75% da superfície d’água de 1985 a 2025, uma redução de 283 hectares. Foi a quinta terra indígena mais impactada na bacia do Alto Juruena, tanto em área absoluta como proporcional, atrás das TIs Paresi (-95%), Juininha (-93%), Utiariti (-86%) e Ponte de Pedra (-80%). Os rios Buriti e Papagaio nascem fora do território e atravessam áreas de monoculturas de soja, milho e algodão em Sapezal – o terceiro município com maior valor de produção agropecuária do Brasil (R$ 7,5 milhões), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Vista aérea do rio Buriti e da vegetação do Cerrado na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Natanael Nambikwara se mudou para a aldeia Cabeceira do Jabuti em junho de 2018, uma região da TI Tirecatinga com sete nascentes que alimentam o córrego que dá nome ao local e deságua no rio Buriti.

“Dizem os mais velhos que onde tem lagoa, tem sucuri. Ela é a guardiã do córrego, da nascente”, diz Natanael, enquanto caminhamos pela mata em direção à cabeceira principal. “Quando a sucuri muda de lugar, aquela lagoa vai secar. Eu não acreditava, mas realmente é verdade. Não vimos mais sucuri.”

Com quatro anos de extremas desde 2020, as cabeceiras do córrego do Jabuti começaram a baixar, as lagoas secaram e não se recuperaram mais, enquanto algumas nascentes migraram centenas de metros abaixo. “Era água bem corrente mesmo. Pior que até na época da chuva não está mais [corrente]”, conta Natanael.

Natanael Nambikwara, morador da aldeia Cabeceira do Jabuti, na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Segundo a medição do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), de junho a agosto de 2024 não choveu em Sapezal; em setembro, caiu apenas 1,8 mm. Nos 12 meses daquele ano, a precipitação total do município foi de 1.392,2 mm, abaixo da média de 2.000 mm observada em anos sem seca extrema (2018, 2019 e 2025). Ao longo de 2024, Sapezal registrou 281 dias com temperatura média acima de 30 ºC. A chuva “está vindo aos pedaços” e localizada. “Agora, chove só para baixar a poeira mesmo. Não vem mais aquela chuva que segura a umidade”, diz Natanael.

Com os cursos d’água mais secos, animais importantes na dieta dos indígenas afastaram-se da aldeia de 19 habitantes. “Porcões, pombas, veados, emas, jaó – a gente via direto, e sumiram”, observa Natanael. “Faz falta, porque nós sobrevivíamos disso. Agora, tem que andar longe atrás de caça”.

O resgate dos alimentos tradicionais

Em meio às secas, durante a pandemia da Covid-19, os povos da TI Tirecatinga perceberam o quanto estavam dependentes da cidade de Sapezal, a 60 quilômetros da aldeia mais próxima, para adquirir alimentos.

“Os mercados fecharam as portas e foi um grande desespero. Naquele momento, a gente sentou para discutir como desenvolver a agricultura familiar, para ter segurança alimentar aqui dentro”, lembra Cleide Terena.

O território Tirecatinga se formou quando, nos anos 1940, missionários jesuítas se instalaram na região e atraíram indígenas de diversos povos em Mato Grosso. Ao final da missão, no começo dos anos 1970, muitos não conseguiram retornar às terras originárias, pois já tinham sido ocupadas por colonos sulistas. A terra indígena foi delimitada em 1983, e o trabalho nas fazendas vizinhas se tornou a única fonte de renda para as famílias.

“Na época dos meus avós, todo mundo tinha sua roça. Depois, ninguém se interessou mais em plantar frutas, araruta, feijão-fava, cará-roxo, os feijões, o milho-fofo, inhame”, lembra Cleide.

Ela também conta que as estações secas mais quentes e as chuvas irregulares prejudicam o cultivo: “Os nossos alimentos não estavam conseguindo sobreviver. Plantamos a mandioca, e ela cozinhou dentro da terra porque estava muito quente”.

Em 2024, a Thutalinãnsu integrou o projeto Ancestralidades, do ICV e da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), com o objetivo de resgatar os alimentos tradicionais por meio da agricultura familiar. 

Então, receberam mudas das principais espécies para a cultura dos povos e contaram com assistência técnica da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), vinculada ao governo estadual, para adaptar os plantios das roças coletivas e dos quintais ao novo calendário climático.

“A gente trouxe a araruta de volta para o território. Duas aldeias plantaram. Foi emocionante o dia em que conseguimos colher”, destaca Suyani, que até então só ouvira falar do tubérculo nas histórias que sua mãe, Cleide, contava sobre as roças tradicionais dos avós. “A gente traz batata e cana que eram dos nossos ancestrais. Agora, está atrás dos milhos tradicionais. Hoje em dia, a gente busca plantar esses alimentos bem perto das nossas aldeias, para cuidar, regar”.

Suyani Terena às margens do rio Buriti, na aldeia Serra Azul, Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Rodrigo Marcelino, do ICV, observa que o resgate dos alimentos tradicionais é uma forma de , ao transformar roças em sistemas agroflorestais: “É um resgate das formas de pensar a roça coletiva ou individual, para que seja biodiversa, sustentável, gere renda e alimente a família que produz, mas também enriqueça o solo e cuide da água”.

Atualmente, 13 das 17 aldeias do território trabalham com agricultura familiar, sendo nove no projeto Ancestralidades, segundo Cleide. Quinze mulheres estão no Cadastro da Agricultura Familiar, com acesso a crédito rural e aptas a comercializar a produção. Elas ainda não conseguiram um excedente para vender em grande quantidade, porque as condições climáticas ainda afetam a produção, mas foi o suficiente para escoar nas feiras da cidade e, principalmente, garantir a segurança alimentar.

“A agricultura familiar tem um equilíbrio muito bom com a natureza e temos uma base alimentar saudável. É um trabalho que não exige várias pessoas, máquinas grandes. Não exige produtos químicos que podem afetar o território”, considera Cleide.

Os povos de Tirecatinga também cultivam frutas silvestres que, por conta do clima mais quente e das chuvas irregulares, estão ficando mais escassas ou cuja maturação ficou desregulada.

Durante uma colheita em uma mata na beira da estrada, Cleide observa que o cajuzinho-do-cerrado deu em 2025, mas caiu muito rápido por causa do calor e da “chuva do caju” fora de época – era em agosto, mas só tem chegado em setembro. Frutas como o birici e a goiabinha desapareceram do território.

Cleide Terena coleta frutos de cajuzinho-do-cerrado, também conhecido como cajuí (Anacardium humile), na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Os povos de Tirecatinga têm se queixado principalmente da escassez do pequi, um fruto nativo do Cerrado e “riquíssimo em diversas culinárias no território”, diz Suyani. É consumido principalmente com carne e arroz ou como chicha, uma bebida fermentada. “A gente saía em um grupo de mulheres para catar pequi. Só que cada ano tem uma diminuição muito grande. Alguns não estão florescendo, dando fruto. Ele não consegue segurar as flores. Quando cai a chuva, derruba tudo.”

“Nesses últimos tempos, o Cerrado não está dando com muita força. A gente se preocupa em perder nossos alimentos tradicionais pelas mudanças climáticas e por muita degradação da natureza”, acrescenta Cleide. “Com essa preocupação, a gente está trabalhando os calendários e trazendo nossos alimentos para cuidar ao nosso redor.”

Em busca de políticas públicas

Desde setembro de 2025, Cleide e Suyani viajam pela Amazônia Legal para apresentar o calendário. Participaram, por exemplo, da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em novembro passado em Belém (PA), e de uma oficina de gestão territorial e ambiental dos territórios em Cuiabá (MT), organizada pelo Ministério dos Povos Indígenas. A Thutalinãnsu, por sua vez, agora integra o Fórum de Mudanças Climáticas de Mato Grosso. Segundo elas, povos como os Kurâ-Bakairi, os Rikbaktsa e os Manoki já demonstraram interesse em adotar este instrumento nos próprios territórios.

“Trazer o eixo da adaptação climática para os planos de gestão é crucial, porque os impactos nos territórios estão latentes. Não é mais superficial. É uma percepção entre todos os povos, que querem encontrar soluções e colocar em prática”, observa Marcelino.

Andreia Fanzeres, da Opan, considera que o calendário ecológico de Tirecatinga é “vanguardista”: “o que elas conseguiram foi o desenvolvimento de um instrumento novo, que poucos povos têm, ainda mais no Cerrado, e que pode ser exemplo para outras iniciativas”.

Em sua tese de mestrado, Fanzeres estudou a presença do componente climático nos instrumentos de gestão territorial e ambiental de terras indígenas no Brasil. Para ela, uma importante estratégia de adaptação e mitigação dos impactos consiste em “identificar o que é papel do município, do estado, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e construir políticas públicas e incidir para que sejam implementadas”.

Em maio deste ano, a Thutalinãnsu apresentou o calendário em um evento na Câmara Municipal de Sapezal. Além de entregar o material a políticos locais e a professores de escolas não indígenas, apresentaram ao poder público as propostas prioritárias para o território.

Entre as demandas estão a construção de casas mais resistentes às tempestades e a perfuração de poços artesianos para garantir acesso à água potável, medida fundamental diante da projeção de mais um ano de seca extrema, devido ao El Niño. Por enquanto, conseguiram uma vaga de agente de saneamento básico para o território e desenvolvem uma parceria com universidades federais para analisar o valor nutricional das frutas silvestres.

“Se está muito quente, não vamos conseguir plantar nossa mandioca, mas a gente busca uma política pública para irrigar. Nossas casas não vão suportar [as tempestades], mas a gente busca melhorias”, observa Cleide. “A gente está aqui para buscar uma condição que vai fortalecer a cultura, mas também trazer uma adaptação ao que está ocorrendo ao nosso redor”.

COMO ANALISAMOS A SITUAÇÃO DA BACIA DO ALTO JURUENA?

. Nesta reportagem, analisamos dados mensais e anuais de volume d’água da Bacia do Alto Juruena, disponibilizados pelo MapBiomas Água. Também foram utilizados dados de cobertura e uso da terra para entender a evolução na região de 1985 a 2024.

. Recortes geográficos adicionais foram feitos a partir dos dados de bacias hidrográficas da Agência Nacional de Águas (ANA) e polígonos de terras indígenas da Funai.

. Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dados nesta pasta.


Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira.

Texto: Kevin Damásio
Análise de dados: Renata Hirota
Visualização de dados: Carolina Passos
Edição: Carolina Dantas
Direção editorial: Juliana Mori

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Kevin Damásio

Repórter na InfoAmazonia. Jornalista e documentarista, desde 2014 focado em questões socioambientais, ciência, emergência climática e direitos humanos, com publicações na National Geographic Brasil,...

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