As chamadas Áreas Importantes para a Conservação das Aves (IBAs), identificadas como essenciais para a preservação da biodiversidade, perderam mais de 1,8 mil km² de florestas no bioma entre 2023 e 2025, segundo análise da InfoAmazonia. A perda de vegetação ameaça espécies raras e compromete funções fundamentais da floresta, como a dispersão de sementes e o equilíbrio da cadeia alimentar.

O gavião-real é uma águia rara, uma das maiores de rapina das Américas, e gosta de fazer o ninho no topo das árvores. Conhecido cientificamente como Harpia harpyja, pode ter asas com mais de dois metros de envergadura. As garras são comparadas às de um urso, podendo ser ainda maiores e mais grossas. Para sobreviver, alimenta-se principalmente de mamíferos como preguiças e macacos, além de outros vertebrados de médio porte. Caçando no alto das copas, ele depende de grandes árvores e extensas áreas intactas de floresta para encontrar alimento.

A espécie habita uma das 58 Áreas Importantes para a Conservação das Aves na : a Caxiuanã/Portel, no Pará. Esses territórios, conhecidos em inglês como Important Bird Areas (IBAs), são resultado de uma iniciativa global, criada na década de 80 pela rede britânica BirdLife International, para identificar e proteger os habitats considerados indispensáveis para a sobrevivência das aves e da biodiversidade no planeta.  

Nível de proteção das 58 IBAS da Amazônia brasileira

.9 estão totalmente sobrepostas a áreas protegidas (15%)

.29 estão parcialmente sobrepostas a áreas protegidas (50%)

.20 estão sem sobreposição a áreas protegidas (35%)

No entanto, as localizações das IBAs foram definidas pela ciência e não fazem parte do ordenamento jurídico de conservação do país, como ocorre com as (UCs). Assim, apenas 15% delas (9 áreas) estão protegidas, ou seja, têm todo o seu território dentro de uma área protegida, como uma UC, Terra Indígena ou outra categoria de proteção. 

Com essa fragilidade, o habitat de espécies raras como o gavião-real, mas, também, o Araçari-de-pescoço-vermelho e o Jacamim, está sendo desmatado. A InfoAmazonia analisou os dados do PRODES, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que calcula as taxas anuais de , e observou uma perda de 1.821 km² de floresta entre agosto de 2023 e julho de 2025 (período que compreende os ciclos de monitoramento de 2024 e 2025). A área desmatada é quase o dobro da cidade de Belém.

“A Amazônia é o último reduto do gavião-real. Hoje, a gente tem que literalmente parar de desmatar, tem que restaurar a floresta. Os dias estão contados do jeito que está [o desmatamento]. Então, precisa reflorestar. Isso não significa plantar eucalipto e pinho, significa restaurar floresta nativa”, afirma Mario Cohen Haft, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) especializado em aves amazônicas. 

Haft explica que, diante da perda de habitat, as aves não levantam voo em busca de outros espaços. Elas permanecem onde estão, mesmo sem condições adequadas de sobrevivência Para ele, a criação de mais unidades de conservação pode ser uma solução para garantir a proteção integral das IBAs.

“Desmatar ou degradar a floresta significa matar os bichos que vivem lá dentro, diretamente ou indiretamente. Uma mata toda aberta ou fragmentada em pedaços pequenos, cercada de pasto, é muito ruim do ponto de vista da sobrevivência desses bichos. É como uma morte anunciada. Você enxerga o desmatamento e prevê perfeitamente quais vão ser as próximas espécies a se tornarem ameaçadas”, diz. 

Além da fragmentação do habitat, o desmatamento compromete a construção de ninhos e intensifica a competição por alimento entre as aves. Espécies com baixa densidade populacional e alta dependência de florestas contínuas podem ter ciclos reprodutivos inteiros comprometidos, acelerando o risco de extinção mesmo diante de pequenas perdas territoriais.

O gavião-real, por exemplo, tem reprodução lenta: põe apenas um ovo por vez, e os filhotes podem permanecer dependentes dos pais por mais de um ano. Com isso, a recuperação populacional é mais demorada quando indivíduos são mortos ou perdem habitat.

A Amazônia é o último reduto do gavião-real. Hoje, a gente tem que literalmente parar de desmatar, tem que restaurar a floresta. Os dias estão contados do jeito que está [o desmatamento]. Então, precisa reflorestar. Isso não significa plantar eucalipto e pinho, significa restaurar floresta nativa.

Mario Cohen Haft, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)
Gavião-real é um predador do topo da cadeia alimentar e vive nos topos das maiores árvores da Amazônia. Foto: Ideflor/PA

Outras espécies e o impacto além das aves

O jacamim-de-costas-escuras (Psophia sp.) é uma das espécies que existem apenas na Amazônia e é encontrada na IBA Gurupi, que teve 114 km² de desmatamento. A ave vive em bandos e é admirada por comunidades locais. É considerada forte e valente, capaz até de predar jabutis. Também é conhecida pela facilidade com que interage com seres humanos. 

Haft, que tem o jacamim como um dos focos de pesquisa, explica que a espécie pode adotar filhotes de outras aves. “É um bicho social, que precisa de uma mata grande para rodar o suficiente e achar o que comer. Ele depende de uma mata fechada para, inclusive, se esconder de predadores. Imagina um fragmento pequeno de mata, onde não há para onde correr. Se entra um gato jaguatirica, pega todos esses jacamins, faz uma festa e depois cai fora”, explica Mario Haft.

Jacamin-de-costas-escuras é um animal sociável, que anda em grupos e precisa de extensas áreas de floresta contínua. Foto: SEMA/MA

O jacamim reúne várias espécies. Entre elas, o jacamim-de-costas-escuras é a que corre maior risco, classificada como Criticamente em Perigo (CR) desde 2014 — categoria da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) que indica risco extremamente alto de extinção na natureza. Essa classificação considera fatores como quedas acentuadas da população, número reduzido de indivíduos e habitats cada vez menores e fragmentados.   

Mas os impactos do desmatamento vão além da redução do número de aves. Muitas espécies amazônicas atuam como dispersoras de sementes. Outras ajudam a controlar populações de insetos e pequenos animais. As aves que se alimentam de frutas, por exemplo, ajudam sementes a alcançar áreas distantes da planta de origem, contribuindo para a diversidade vegetal e para a recuperação de áreas degradadas. Sem elas, parte desse ciclo natural é interrompido.

“Se você tira a floresta, elimina toda a função do ecossistema. Se retira, por exemplo, o mutum, provavelmente está afetando não apenas a dispersão de sementes realizada pela espécie, mas também a oferta de presas. O mutum serve de alimento para outros animais”, explica o pesquisador Thiago Orsi, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). E completa: “Com menos presas disponíveis, os predadores também tendem a diminuir. Ao mesmo tempo, a perda de predadores pode provocar crescimento descontrolado de populações de outros animais, alterando a dinâmica ecológica da floresta”. 

Se você tira a floresta, elimina toda a função do ecossistema. Se retira, por exemplo, o mutum, provavelmente está afetando não apenas a dispersão de sementes realizada pela espécie, mas também a oferta de presas. Com menos presas disponíveis, os predadores também tendem a diminuir. Ao mesmo tempo, a perda de predadores pode provocar crescimento descontrolado de populações de outros animais, alterando a dinâmica ecológica da floresta.

Thiago Orsi, pesquisador do ICMBio
Mutum é uma ave rara conhecida por transportar sementes na floresta amazônica Foto: Emanuel Barreto/ICMBio

Áreas mais afetadas

O estado com o maior número de IBAs na Amazônia brasileira é o Amazonas (11). Em segundo lugar, está o Pará (10); em terceiro, Roraima e Amapá empatados, cada um com 5 áreas. 

Entre o Acre e o Amazonas, está a maior IBA do mundo: Tabocais, com 73 mil km² — área equivalente a quase 50 cidades de São Paulo. O território abriga a maracanã-de-cabeça-azul, espécie ameaçada de extinção. 

Apesar da dimensão, Tabocais não é a área mais desmatada entre as 58 IBAs amazônicas. Foi a IBA Rio Capim, no sudeste do Pará, que registrou a maior perda florestal, com aproximadamente 324 km² desmatados entre 2023 e 2025. Em seguida, aparecem a Caxiuanã/Portel, habitat do gavião-real no Pará, com 320 km², e Alto Sucunduri, no Amazonas, com cerca de 275 km² devastados.

“O mais urgente é preservar essas áreas, principalmente na bacia do Rio Capim e nas regiões que ainda podem ser transformadas em unidades de conservação”, disse o   ornitólogo e doutor em biologia Pablo Cerqueira, formado pela Universidade Federal do Pará. Pesquisador com atuação em unidades de conservação no Pará, ele avalia que a criação de novas áreas protegidas e o fortalecimento do monitoramento das aves são medidas essenciais para conservar espécies já ameaçadas.

Edson Ribeiro, coordenador da Save Brasil, organização que lidera a classificação de novas IBAs no país, avalia que “possuímos um arcabouço jurídico, uma legislação ambiental relativamente consistente e um sistema de unidades de conservação bem elaborado”. Por outro lado, ele afirma que cabe uma “forma mais efetiva de destinar as verbas e os recursos diversos para a proteção desses territórios”. 

“É preciso considerar também que a sociedade como um todo deve tratar a conservação dos ambientes naturais como prioridade. Há várias camadas sociais, econômicas e ambientais envolvidas em tudo isso, mas vivemos uma grave crise ambiental global. Não podemos mais, como indivíduos e como sociedade, negligenciar nossa responsabilidade em relação às outras formas de vida que compartilham conosco a ‘casa’ planetária”, argumenta. 

Desmatamento na Amazônia compromete a vida de aves e do ecossistema biológico do território. Foto: Polícia Federal/Divulgação

Ribeiro reflete que “a natureza não reconhece os limites e fronteiras geográficas dos países estabelecidos pelo homem”. Independentemente da existência das IBAs, as políticas em curso ainda não são suficientes para deter o avanço sobre os habitats das aves amazônicas. 

“Toda ação danosa nos ambientes naturais, mesmo numa escala local ou regional, reverbera em todo mundo. A Amazônia é conhecida por seu papel na regulação do clima, no regime de chuvas e em tantos outros serviços ecossistêmicos que a floresta de pé entrega generosamente ao ser humano. A perda de espécies de plantas e animais é apenas uma ponta do iceberg dos impactos das ações humanas nos ambientes”, complementa o coordenador. 


Imagem de abertura: Gavião-real é espécie rara, vive na Amazônia e sofre com desmatamento e caça. Foto: Carlos Tuyama/Projeto Harpia

About the writer
Avatar photo

Jullie Pereira

Repórter na InfoAmazonia, Jullie nasceu e vive em Manaus, no Amazonas, Brasil, onde seu trabalho se concentra na cobertura socioambiental e de direitos humanos. Anteriormente, trabalhou para a agência...

There are no comments yet. Leave a comment!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article