Enquanto a guerra com o Irã expõe os riscos dos combustíveis fósseis, a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis reúne, na cidade colombiana, uma ‘coalizão dos dispostos’ que busca um plano global para eliminar gradualmente petróleo, gás e carvão.

As negociações climáticas globais ganharam um impulso inesperado nesta sexta-feira (24), quando Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), afirmou que a guerra com o Irã expôs uma ruptura duradoura nos mercados de combustíveis fósseis.
“O dano está feito”, disse Birol, em entrevista ao The Guardian. Segundo ele, as interrupções no fornecimento de petróleo e gás provocadas pelo conflito, somadas à disparada nos preços da energia, dos fertilizantes e de outros bens essenciais, devem acelerar um afastamento permanente dos países em relação aos combustíveis fósseis, em direção a fontes renováveis e outras alternativas mais seguras e acessíveis.
“O vaso se quebrou, o dano está feito — será muito difícil juntar os pedaços novamente”, afirmou Birol, cuja agência foi descrita pelo New York Times como “enormemente influente” nos planos de longo prazo de empresas e investidores do setor energético em todo o mundo. “Esta crise terá consequências permanentes para os mercados globais de energia por muitos anos”.
“Fico muito feliz que Birol esteja dizendo isso”, afirmou Irene Vélez-Torres, ministra do Meio Ambiente da Colômbia, em entrevista em Santa Marta, cidade que sedia uma conferência onde algumas das maiores economias do mundo se reúnem ao longo desta semana para elaborar um “roteiro” global para eliminar gradualmente a queima de petróleo, gás e carvão — principal motor das mudanças climáticas cada vez mais perigosas.
“Isso me deixa mais otimista em relação ao que nossa conferência pode alcançar”, acrescentou Vélez. “Parece que muitos de nós estamos percebendo ao mesmo tempo que os combustíveis fósseis não garantem segurança energética, porque estão sujeitos à escassez, e a escassez pode ser manipulada. Nossa soberania energética, assim como nossa sobrevivência climática, exige a transição para outras fontes”.
Embora Birol já tenha afirmado que a queda acelerada dos custos das energias renováveis marca “o começo do fim da era dos combustíveis fósseis”, raramente — ou talvez nunca — ele havia descrito de forma tão direta a indústria fóssil como um setor em declínio inevitável. As declarações tendem a aumentar o atrito com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaçou retirar o país da IEA.
Chris Wright, secretário de Energia dos Estados Unidos, exigiu que a agência deixe de publicar um relatório anual que detalha como os países poderiam zerar suas emissões até 2050 — algo que cientistas consideram essencial para evitar os impactos mais devastadores da crise climática. Os EUA respondem por cerca de 14% do orçamento anual da IEA.
O encontro em Santa Marta, oficialmente chamado 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis e coorganizado pelos Países Baixos, reúne governos que representam algumas das maiores economias do planeta, além de centenas de acadêmicos, ativistas climáticos e sindicais, lideranças empresariais e representantes de povos indígenas.
A conferência ganhou urgência renovada após a última cúpula climática das Nações Unidas, em novembro, quando um pequeno grupo de petrostados usou as regras de consenso da ONU para bloquear um pedido de 85 países pela elaboração de um roteiro para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.
Entre os governos presentes em Santa Marta estão Alemanha, Reino Unido, Califórnia, França, Itália, Brasil, Canadá, Espanha, México e Austrália — dez das treze maiores economias do mundo. Juntas, formam uma superpotência econômica cujo peso coletivo supera o dos Estados Unidos e é o dobro do da China.
Se essa “coalizão dos dispostos” retirar seu enorme poder de compra dos combustíveis fósseis nos próximos anos, como prevê Birol, isso poderá reduzir drasticamente a demanda, tornar economicamente inviáveis muitos projetos do setor e desencadear um recuo global dos combustíveis fósseis.
Algo semelhante ocorreu após o Acordo de Paris, em 2015, quando os países se comprometeram a limitar o aquecimento global a “bem abaixo” de 2°C e perseguir 1,5°C. Em resposta, governos e indústrias reduziram planos de expansão do petróleo, gás e carvão, enquanto ampliaram investimentos em energia solar, eólica, baterias e outras fontes livres de carbono.
Cinco anos depois, a queda resultante nas emissões reduziu a projeção de aquecimento do planeta de 4°C para 2,7°C — ainda acima do seguro, mas um avanço importante na direção certa.
Em outra diferença em relação às cúpulas climáticas da ONU, a conferência de Santa Marta está “ouvindo a ciência”, e não “a desinformação e o lobby”, disse Vélez. O superaquecimento do planeta já está “ultrapassando pontos de inflexão que podem minar a sociedade humana ainda em nossas vidas”, afirmou Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos, na Alemanha.
Rockström e Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), reuniram um painel de cientistas para assessorar governos sobre quais políticas funcionam melhor para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. “Uma massa crítica de 30 países já está descarbonizando suas economias, mostrando que isso pode ser feito”, disse Rockström. “Não estamos aqui para estabelecer uma nova ciência climática, mas para permitir políticas melhores e mais rápidas por parte de governos, empresas e demais atores.”
A conferência de Santa Marta, que termina em 29 de abril, é apenas um primeiro passo, disse Vélez. Uma conferência de acompanhamento para detalhar como países, regiões e setores econômicos podem abandonar os combustíveis fósseis — sem prejudicar trabalhadores, empresas e governos que hoje dependem deles para empregos, lucros e arrecadação — está prevista para o fim do ano.
Os resultados também devem alimentar as negociações da próxima cúpula climática da ONU, que ocorrerá na Turquia, em novembro. Mas, após anos de “pressão e vetos” de petrostados “contra sequer falarmos em eliminar os combustíveis fósseis”, disse Vélez, “aqui temos um alinhamento que está pronto para agir”.
Este artigo é publicado como parte da colaboração jornalística global Covering Climate Now.