A nova edição do relatório Conflitos no Campo, da Comissão Pastoral da Terra, foi lançada nesta segunda-feira (27) e registrou 26 assassinatos em todo o Brasil. Desse total, 61% (16) ocorreram nos estados de Rondônia, Pará e Amazonas. Neste sábado (25), às vésperas da divulgação do documento, um novo massacre com três mortos em Lábrea reforçou a escalada da violência na região.
Mais da metade dos assassinatos no campo registrados no Brasil em 2025 se concentrou na Amazônia Legal. Dos 26 casos contabilizados no país, 16 ocorreram na região — o equivalente a 61% do total. A nova edição do relatório Conflitos no Campo, da Comissão Pastoral da Terra, lançada nesta segunda-feira (27), aponta a intensificação de conflitos por terra, exploração ilegal de recursos naturais e disputas envolvendo terras indígenas, territórios quilombolas e áreas de expansão agropecuária.
Na Amazônia Legal, os assassinatos foram registrados em três estados: Rondônia e Pará, com sete casos cada, e Amazonas, com dois registros. Em relação a 2024, quando foram contabilizados oito assassinatos, o número dobrou na região, um aumento de 100%. O dado é acompanhado por 39 tentativas de assassinato registradas no mesmo período, o que reforça um cenário de agravamento dos conflitos. Segundo a análise do relatório, essa escalada costuma começar com ameaças, avançar para agressões físicas e, depois, resultar em mortes.
Na avaliação da coordenadora da CPT, Maria Petronila, o aumento dos assassinatos está ligado às pressões econômicas em expansão sobre a Amazônia. “Não é só o desmatamento. É um ciclo. Vem o desmatamento, depois a pecuária, a soja, a mineração. Tirar os povos desses territórios faz parte desse processo”.
Nos estados amazônicos que lideram as ocorrências, os dados indicam que fazendeiros são apontados como responsáveis por 14 assassinatos. A Polícia Militar de Rondônia aparece vinculada a uma morte, e o outro caso ocorreu em conflito com um madeireiro.
Petronila também chama atenção para o papel de outros atores na dinâmica da violência. “Você vê que é uma violência muito generalizada, muito planejada na região da Amazônia. Tudo isso com uma falta de atuação do Estado. É uma violência que já conta com a impunidade. Não há investigação nem punição, então ela se repete”, afirma.
Você vê que é uma violência muito generalizada, muito planejada na região da Amazônia. Tudo isso com uma falta de atuação do Estado. É uma violência que já conta com a impunidade. Não há investigação nem punição, então ela se repete
Maria Petronila, coordenadora da CPT

Entre as vítimas estão trabalhadores sem terra, posseiros, pescadores, servidores públicos e integrantes de organizações não governamentais. É o caso do agricultor Ronilson de Jesus Santos, de 52 anos, liderança do Assentamento Vale do Pacuru, no município de Anapu, no Pará. Ele foi morto a tiros em abril do ano passado, e o principal suspeito é um fazendeiro dono de terras próximas às comunidades de assentados.
Outro caso envolveu uma disputa por terra entre camponeses do acampamento Marielle Franco, que reivindicam a posse do território, e fazendeiros da Fazenda Palotina. O conflito resultou na morte de José Jacó Cosotle, de 55 anos, em Lábrea, em janeiro de 2025.
No mesmo município, às vésperas do lançamento do relatório, um novo episódio de violência reforçou a gravidade do cenário no campo. Na noite deste último sábado (25), três pessoas foram mortas em uma emboscada na Gleba Recreio do Santo Antônio, no sul de Lábrea, na divisa entre Amazonas e Acre. Antônio Renato, Josias Albuquerque de Oliveira e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said estavam em uma caminhonete quando foram atacados por homens armados. O caso ocorreu em uma área marcada por conflitos fundiários e crimes ligados à disputa por terra.
Violência contra pessoa na Amazônia
Os dados detalhados sobre casos de violência: Atos diretos, físicos ou psicológicos, empregados contra indivíduos ou grupos, com o objetivo de ameaçar, intimidar ou eliminar aqueles que lutam pela terra, água e seus modos de vida tradicional., que podem atingir um único indivíduo ou comunidades inteiras, reforçam a gravidade do cenário no campo. Foram registradas 256 ocorrências, que atingiram 776 pessoas. Entre os tipos mais recorrentes, chama atenção o alto número de humilhações, com 142 casos, seguido de cárcere privado, com 104, e prisões, com 73. Os dados indicam que a violência não se limita a ataques físicos, mas inclui práticas de coerção e controle.
Somadas, as ameaças de morte, com 85 casos, e as ameaças de prisão, com um registro, expõem um ambiente permanente de risco. A ocorrência de 133 casos de intimidação reforça essa dinâmica, em que o medo é usado como ferramenta para afastar comunidades de seus territórios ou silenciar lideranças.
“Os povos indígenas e as comunidades tradicionais são vistos como empecilhos que devem ser expulsos. É um incentivo ao desmatamento, à pecuária, à soja e à mineração. São ciclos perversos de devastação do método do grande capital”, explica Maria Petronila.
Além disso, ela afirma que grandes empreendimentos, como hidrovias, barragens e rodovias, ampliam a pressão sobre territórios tradicionais. “Essas obras atravessam terras indígenas e comunidades. Há muitos registros de violência associados a esses projetos”, diz.
Outros tipos de violência também evidenciam a gravidade das violações às populações amazônicas. Houve registros de ferimentos (15), tortura (5) e até terrorismo (2), além de três casos de contaminação por agrotóxicos (3). Os dados indicam que os impactos dos conflitos vão além da violência física, atingindo também a saúde e o ambiente em que essas pessoas vivem.
Mais de 1 mil ocorrências na Amazônia
De acordo com os dados consolidados da CPT, a Amazônia Legal registrou, em geral, 1.080 ocorrências de violência no campo em 2025. A organização organiza os dados por temas, incluindo conflitos por terra, por água, trabalho escravo e violências contra a pessoa.
Os conflitos por terra são os mais frequentes. Foram 714 registros, e o Pará lidera as estatísticas, concentrando 15% do total, com 112 ocorrências. O município mais impactado é Santarém, com 18 ocorrências, das quais 13 foram registradas em comunidades quilombolas.
Em seguida, o estado do Maranhão aparece como o segundo principal foco de conflito, com 109 casos, seguido pelo Amazonas, com 74.
Os dados sobre trabalho escravo na Amazônia Legal também são expressivos: 780 trabalhadores foram resgatados em 38 operações contra situações degradantes e ilegais de trabalho. Na comparação com o ano anterior, o aumento foi de mais de 300% — em 2024, foram 185 resgates.
São pessoas obrigadas a trabalhar em atividades ligadas à floresta, como garimpo, derrubada de madeira, colheitas de cacau e produção de carvão. A maior parte dos resgates ocorreu em atividades como criação de gado, abertura e manutenção de pastagens, roçagem e construção de cercas — tarefas diretamente relacionadas à expansão da fronteira agropecuária. Foram 14 registros nessas atividades, nos estados do Pará, Tocantins e Mato Grosso.

Nos conflitos por água: Os conflitos por água são ações de resistência, geralmente coletivas, travadas por comunidades tradicionais e pequenos agricultores contra a apropriação privada, o uso excludente e a degradação dos recursos hídricos., foram registrados 72 casos, incluindo tentativas de assassinato e intimidação. O Pará também lidera, com 21 ocorrências, seguido de Rondônia, com 12, e Tocantins, com 11.
“A gente percebe que o grande foco planejado é o da expansão agrícola do grande capital para essa região. É onde temos muita matéria-prima, onde há muita terra, inclusive às vezes ainda não destinada. Também conta a própria natureza da violência histórica estrutural do nosso país, que não reconhece os povos tradicionais como sujeitos de sua história. Acho que isso está na raiz violenta do Brasil”, explica Petronila.
Foto de abertura: Túmulo da missionária Dorothy Stang, em Anapu, no norte do Pará. Defensora do uso sustentável da terra, Dorothy foi assassinada em 2005 em meio a conflitos fundiários que persistem na região — a mesma cidade onde, no ano passado, o agricultor Ronilson de Jesus Santos foi morto em mais um episódio de violência no campo. Foto: Agência Brasil/Tomaz Silva