Curta-metragem lançado pelo movimento indígena é uma fábula distópica que alerta para os descaminhos do autoritarismo na Amazônia.
Um filme-porrada. Tipo soco no estômago. Tenso do começo ao fim. Desconfortável.
Assim me pareceu “Vitória Régia”, um curta-metragem recém-lançado e que pode ser visto gratuitamente nas redes.
Estive, em 14 de abril, no Cine Belas Artes, em São Paulo, para a estreia do filme. Um pré-lançamento havia ocorrido uma semana antes, no Acampamento Terra Livre — a grande mobilização anual dos povos indígenas em Brasília.
Ficção distópica, “Vitória Régia” é um filme-campanha. Foi criado em aliança entre coletivos-ativistas e organizações do movimento indígena, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a G9, aliança de organizações indígenas de nove países (incluindo Brasil, Peru e Colômbia).
Um filme-porrada. Tipo soco no estômago. Tenso do começo ao fim. Desconfortável.
Gustavo Faleiros
A obra foi idealizada para fazer parte da campanha #arespostasomosnós, que levanta a bandeira da importância do movimento indígena para o combate às mudanças do clima. A direção é de Denis Kamioka, cineasta brasileiro mais conhecido como Cisma e apoiador de várias causas socioambientais; o roteiro, da jornalista Carol Pires, que também esteve em “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2020.
O curta-metragem fala de um futuro em que a Amazônia é colonizada pelo mal e destruída sem dó nem piedade. A premissa não é impossível: estamos num Brasil em que o golpe de 8 de janeiro foi bem-sucedido e os militares tomaram o poder. Em um acordo à revelia dos indígenas, a Amazônia é entregue aos americanos, que fundam a Amazon of America, um território onde ninguém entra ou sai sem um passaporte especial.
Ao longo dos 20 minutos, a narrativa do filme acompanha a jornalista Carolina, interpretada por Alice Braga, que consegue furar o bloqueio e revelar a devastação total. A personagem estabelece contato com um movimento de resistência, liderado pelos indígenas e povos tradicionais.

Não há dúvidas de que o filme se trata de uma campanha, com um chamamento para a mobilização. Já nas primeiras cenas, surge o convite à ação em letras garrafais: “Essa é uma obra de ficção. Cabe a todos nós mantê-la apenas ficção”.
Conversei com Pedro Inoue e Tica Minami, do Coletivo Zero, que realizou a produção executiva, a articulação institucional e a direção artística de “Vitória Régia”. Perguntei por que escolheram a ficção, pois fiquei intrigado com a linguagem-guerrilha do filme. Eles ponderaram que não faltam documentários revelando os problemas da Amazônia e, por isso, optaram por uma narrativa ficcional para despertar as emoções do público.
“A gente tem trabalhado com movimento indígena e sabemos que eles estão sob tiro. Eles estão vivendo uma realidade muito brutal. O filme é um pouco do que a gente pode oferecer como artistas, como criadores. Será que é possível a gente usar da ficção para criar uma emoção de pertencimento, uma emoção que pode ajudar o movimento de certa maneira?”, refletiu Pedro.
O filme dialoga muito bem com referências pop, que estão no design, na cenografia, nos figurinos. E é mesmo para ser pop: uma estética de videoclipe, para quem vive no feed, me explicam seus criadores. Além do filme integral no YouTube, há uma equipe trabalhando em cortes para distribuir a obra nas redes sociais, tudo pensado como uma estratégia de distribuição.
Ficção com dois pés na realidade
O protagonismo indígena, retratado no filme, não é ficção. Como vimos em eventos recentes, seja nas manifestações contra o marco temporal, ou nos protestos durante a COP30, a liderança dos movimentos indígenas é uma realidade na luta pela Amazônia e por direitos em todo o país .
Por outro lado, eu me pergunto se esperar que a resistência seja liderada por eles não é jogar uma enorme responsabilidade a uma parcela da sociedade que, há séculos, é atacada. Não estaria “Vitória Régia” promovendo um zapatismo romanceado, quando, na prática, os indígenas poderiam ser massacrados, presos ou desaparecer sem que nós pudéssemos fazer muito por eles?
“A gente não queria colocar só os indígenas apanhando, como vítimas de um processo histórico. Eles surgem como sujeitos de direito e formuladores [de ação e resistência]. No debate público, há uma certa resistência em mostrá-los como pessoas capazes de formular, propor, defender, seus direitos,” argumenta Tica.
Aos produtores, confessei que o filme me deixou um pouco encucado. Isso porque há a incorporação da maldade em personagens caricatos: o militar sem escrúpulos e os capitalistas americanos prontos a moer a carne dos povos da floresta.
A minha dúvida é se apontar o imperialismo yankee como o culpado pela destruição da floresta não é uma saída fácil demais. Afinal, sabemos que quem está vendendo a Amazônia são aqueles que se chamam de patriotas.
As escolhas são estratégicas, representam a estrutura de poder econômico, me contam os produtores. Essas caricaturas não se mostram tão distantes da realidade. Trump invadiu a Venezuela justamente quando a equipe do filme estava pensando sobre a Amazon of America: “A gente disputa com a realidade!”, brinca Pedro.
“Vitória Régia” é um filme para repetir e assistir mais de uma única vez. “Todo mundo fala de várias crises [no planeta], mas a gente enxerga como uma só crise, uma grande crise interconectada”, diz Tica. Concordo com ela: a fraqueza da democracia, a emergência climática e a defesa dos territórios são diferentes partes de um mesmo problema.