Postado emOpinião / Indígenas

Independência indígena ou morte!

A forma como a História é contada muda de formato, mas continua a mesma: indígenas do Tapajós protestam contra uma obra que afeta suas vidas e sua subsistência, mas são chamados de baderneiros por quem deveria registrar os fatos de forma honesta.

Uma releitura do quadro “Independência ou morte!” com indígenas à frente da luta. Crédito: InfoAmazonia / Criado por IA

Eu fiquei estarrecida com o editorial de alguns jornais após a revogação do decreto que privatizava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Os indígenas que protestaram por 33 dias pelo fim do projeto em Santarém, ocupando a sede da Cargill, foram chamados de baderneiros. Nos textos, nenhuma análise do que os indígenas teriam a perder com a obra, nem sobre os impactos ambientais. A única reclamação é o impedimento do desenvolvimento da região por causa dos “baderneiros”.

Cá entre nós: nada de novo no front. Desde sempre os indígenas são retratados como uma minoria insignificante, um impedimento para o crescimento. Hoje, a internet permite que lideranças como Alessandra Munduruku façam suas declarações saírem da bolha, mas antigamente a comunicação era expressamente e historicamente direcionada a diminuir a força indígena.

Uma experiência interessante neste sentido é a visita ao Museu do Ipiranga, em São Paulo. Logo no salão de entrada (belíssimo, por sinal), há uma seleção de quadros que mostram bandeirantes e indígenas retratados de forma bastante diferente. Os colonizadores aparecem fortes, altivos. Os indígenas mais submissos e em segundo plano.

O próprio quadro famoso da “Independência ou Morte!” pode ser utilizado de forma didática para explicar isso.

Quadro “Independência ou morte!” está no acervo do Museu do Ipiranga, em São Paulo. Imagem: Reprodução de obra de Pedro Américo de Figueiredo e Melo, 1888/Domínio público

Observando a imagem, no centro e no ponto mais alto está um homem a cavalo erguendo uma espada: o príncipe regente Dom Pedro.

O pintor do quadro escolheu uma posição que destaca o protagonismo do príncipe português. A tela representa o episódio de 7 de setembro de 1822: o momento em que Dom Pedro teria erguido a espada e proclamado a independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo.

Não sei quem escreveu os textos do museu, mas achei brilhante a forma como apresentam os dois lados da história: “Esta pintura foi terminada por Pedro Américo 66 anos depois da passagem de Dom Pedro pelo Ipiranga. Seria possível representar o evento exatamente como aconteceu? Quais foram as escolhas de Pedro Américo para compor sua pintura?”, questiona o documento do Museu do Ipiranga que apresenta as obras disponíveis no acervo sobre a História do Brasil.  

Quem Pedro Américo ouviu para fazer esse quadro? Ele buscou informações por meio de relatos da comitiva de… adivinha?! Dom Pedro. O pintor deu uma passada ali no Ipiranga, esboçou o local, mas, segundo o museu, “essas pesquisas eram complementadas por sua compreensão daquilo que seria ‘digno de ser oferecido à contemplação pública’”. 

Voltando ao caso do Tapajós. Como leitora dos jornais que escreveram os editoriais, eu fico pensando no que eles de fato querem comunicar. Quem eles ouviram? Qual é a visão de mundo que os diretores e editores querem passar? Eles entrevistaram os indígenas? Eles costumam visitar essa região da Amazônia?

As perguntas continuam: para eles, a expansão do agronegócio e a distribuição de grãos são mais importantes do que a preservação dos rios? Será que os indígenas depredaram o prédio da Cargill, uma empresa internacional que negocia soja no Pará?

No final, esse recorte de Pedro Américo é feito todos os dias, mas agora com uma capacidade de reprodução imensa, por jornalistas, políticos, economistas e internautas. É por isso que comunicar com precisão é uma tarefa cada vez mais difícil: a análise justa precisa pensar em todos os impactos, não apenas econômicos, mas tentando desviar de toda e qualquer visão recortada do problema. Isso tudo em um mundo que vive uma emergência climática e tenta uma transição energética. 

A única certeza que eu tenho é: nós, da InfoAmazonia, prometemos ser cada dia mais claros em relação à nossa posição. Ela será sempre a de defender o meio ambiente e, consequentemente, os povos indígenas que mantêm a floresta em pé.  

Sobre o autor
Avatar photo

Carolina Dantas

Carolina Dantas é editora da InfoAmazonia e jornalista ambiental desde 2015. Anteriormente, trabalhou na Folha de S.Paulo, Globo e Grupo RBS. Em 2022, recebeu o título de alumni do Departamento de Estado...

Ainda não há comentários. Deixe um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article