Nas províncias amazônicas de Sucumbíos e Orellana, no Equador, 92,2% dos 523 casos de câncer entre homens ocorreram em áreas expostas à queima de gás natural associada à atividade petrolífera; já entre as mulheres, foram 91,8% dos 960 registros, no período de 2010 a 2019.

A exposição à queima de gás natural associada à atividade petrolífera (gas flaring) está relacionada ao aumento da incidência de câncer nas províncias amazônicas de Sucumbíos e Orellana, no Equador, segundo um relatório feito pelo Instituto de Epidemiologia e Saúde Comunitária “Manuel Amunárri”. Com base em dados de 2010 a 2019, a pesquisa identificou que houve maior incidência de câncer em áreas próximas aos pontos de queima de gás.

Intitulado “Kushni”, termo da língua kichwa, dos povos andinos, que significa “fumaça”, o relatório é baseado em uma pesquisa anterior, intitulada “Câncer nas províncias de Sucumbíos e Orellana, Equador: 1990-2019“. Ambos foram publicados em 2025, mas o diferencial é que o informe Kushni traz o enfoque do gas flaring, onde foi considerado um período menor (entre 2010 e 2019).

Miguel San Sebastián, médico, pesquisador responsável pela pesquisa e integrante do Departamento de Epidemiologia e Saúde Global da Universidade de Umeå, na Suécia, alerta que a atividade libera uma combinação de poluentes nocivos à saúde humana. “A poluição atmosférica proveniente da queima de gás emite material particulado fino (PM2,5): Conjunto de poluentes atmosféricos com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, que pode ser transportado pelo vento por milhares de quilômetros., monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, ozônio e compostos orgânicos voláteis (COV), como benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno — todos associados ao câncer em diferentes estudos”, explicou à InfoAmazonia.

Nas províncias de Sucumbíos e Orellana, a pesquisa mapeou 290 pontos de queima de gás natural associados à atividade petrolífera. Para definir a população exposta ao gas flaring, os autores consideraram os moradores de paróquias, nome dado às subdivisões dos municípios no Equador, onde havia pelo menos um desses pontos ativos. Com esse critério, 34 das 65 paróquias analisadas (52,3% do total) foram classificadas como expostas.

Entre os homens, foram registrados 523 casos de câncer entre 2010 e 2019, sendo que 482 (92,2%) deles ocorreram em áreas expostas ao gás e 41 (7,8%) em áreas não expostas. Já entre as mulheres, foram 960 casos no total, sendo 881 (91,8%) em locais expostos e 79 (8,2%) em não expostas. 

Nas duas províncias equatorianas, moram cerca de 381.180 pessoas, segundo o censo de 2022. A região é afetada por atividade petrolífera sem controle desde 1970. Na análise, os pesquisadores se basearam nos dados do Registro Nacional de Tumores de Quito, onde os pacientes de Sucumbíos e Orellana buscam atendimento médico e diagnóstico. 

Protesto realizado em 2022 na frente do Ministério de Minas e Energia exigia fim do gas flaring. Foto: Cáritas Equador/Divulgação

“É importante considerar que as paróquias expostas à poluição do gas flaring também são afetadas por contaminantes provenientes de constantes derramamentos de petróleo e de águas de formação, decorrentes da própria atividade petrolífera na região. Isso cria um cenário de múltipla exposição, o que dificulta a atribuição causal a uma fonte específica”, alertam os autores.

A pesquisa não considerou outros fatores de risco de câncer (como tabagismo, dieta ou histórico familiar), pois não existem dados individuais disponíveis. No entanto, os autores destacam que “é pouco provável que esses se distribuam de maneira diferente em função da proximidade aos ”.

A análise também considerou a intensidade da exposição, a partir do número de focos de gas flaring em cada paróquia, classificadas em três grupos: sem gas flaring, com 1 a 5 e com mais de 5. Entre 2010 e 2014, a incidência de câncer foi 53% maior em áreas com 1 a 5 pontos de queima de gás e 135% maior naquelas com mais de 5, em comparação com locais não expostos. Já entre 2015 e 2019, o aumento foi de 139% nas regiões com 1 a 5 focos e de 228% nas que concentravam mais de 5.

Entre os homens, a incidência da doença é parecida independente da quantidade de gas flaring. Já entre as mulheres, o número de casos aumenta conforme cresce a quantidade de pontos de queima de gás na paróquia.

Apesar disso, Miguel argumenta que “o fato de haver mais casos de câncer em mulheres do que em homens não é claro, e levanta diferentes hipóteses que ainda precisam ser confirmadas”, mas que o relatório tem uma “importância epidemiológica porque confirma um dos critérios de causalidade usados na epidemiologia: o efeito dose-resposta, ou seja, quanto maior a exposição, maior o risco”.

O relatório tem uma “importância epidemiológica porque confirma um dos critérios de causalidade usados na epidemiologia: o efeito dose-resposta, ou seja, quanto maior a exposição, maior o risco”.

Miguel San Sebastián, médico, pesquisador e responsável pela pesquisa

A série “Até a Última Gota”, liderada pela InfoAmazonia, mostrou que, em toda a Amazônia, a atividade de gas flaring despejou 17,6 bilhões de metros cúbicos de gás entre 2012 e 2023. Nesse período, o Equador manteve a liderança disparada entre os países amazônicos, concentrando 75% desse total, o que representa 34 milhões de toneladas CO₂ equivalentes jogadas na atmosfera. 

O país tem 16% de sua área concedida a petroleiras públicas e privadas, segundo o Ministério de Minas e Energia do país. É ainda o país latino-americano com mais terras indígenas afetadas pela extração: quase metade, 207 dos 437 territórios com blocos petrolíferos concedidos, está no país, resultando em uma sobreposição de 21 mil km², de acordo com levantamento feito pela InfoAmazonia.

Aumento de 360% nos casos de câncer em três décadas

No relatório inicial que derivou o informe Kushni, os pesquisadores monitoraram os casos de câncer entre 1990 e 2019 nas mesmas províncias e apontam que os casos de câncer registraram um aumento de 360% no período. O estudo afirma que a incidência da doença pode estar diretamente ligada à exploração petrolífera no país.

Ao todo, foram analisados 2.773 casos de câncer de moradores das duas províncias ao longo das três décadas. A pesquisa dividiu os casos em um período de cinco anos. De 1990 a 1994 foram 181 casos diagnosticados, já de 2015 a 2019 o número saltou para 833. O relatório foi publicado em 2025.

Os resultados indicam que o crescimento foi maior do que o registrado na capital, Quito, no mesmo período. Nas províncias próximas da área de exploração de petróleo, o aumento de casos nos anos analisados chegou a 162,5% entre homens e 179% entre mulheres. Já em Quito, capital do Equador, a alta foi de 51,7% para homens e 69,2% para mulheres.

Além do número de casos, o levantamento mapeou os tipos de câncer por gênero. Entre homens, os cânceres de estômago, próstata, de pele, leucemia linfoide e linfoma foram os mais frequentes. O câncer de estômago diminuiu ao longo dos anos, enquanto o de próstata aumentou. Já nas mulheres, os cânceres mais frequentes são de colo do útero, mama, pele e tireoide. Ao longo do tempo, o câncer de colo do útero diminuiu, enquanto os de mama e tireoide apresentaram aumento progressivo.

Os pesquisadores analisaram a incidência de câncer em regiões expostas ou não ao petróleo. Para isso, a população exposta foi definida como aquela que vivia em um cantão: Equivalente a município. onde a exploração petrolífera ocorreu por pelo menos 20 anos. Já a população não exposta foi definida como aquela residente em cantões sem exploração petrolífera ou onde a atividade era muito recente.

“Existe, há anos, uma ampla percepção e preocupação entre a população local sobre os impactos da exploração petrolífera na saúde. Em parte, isso se deve aos diferentes estudos que publicamos e ao trabalho de organizações ambientais locais e nacionais”, destacou Miguel San Sebastián, médico pesquisador e um dos responsáveis pelo relatório. 

Em 2004, o médico publicou um outro estudo, o “Yana Curi”, que mostrava que na paróquia San Carlos, em Orellana, o risco de câncer para homens era 2,3 vezes maior do que em Quito, a capital equatoriana, e que o risco de morte por câncer era 3,6 vezes maior. Anos depois, em 2011, o tribunal provincial de Sucumbíos condenou, em uma decisão histórica, que a Chevron pagasse R$ 9,5 bilhões de dólares por contaminação de rios e lagos na região. A ação foi movida pelos próprios moradores, entre indígenas e camponeses.

Recomendações

Os dois relatórios apontam recomendações para as autoridades equatorianas. Sobre o gas flaring, uma delas é o cumprimento de uma decisão judicial de 2021, quando nove meninas moradoras de Sucumbios e Orellana pediram o fim da queima de gás natural ligado ao petróleo na região em uma ação na Justiça. O pedido delas foi acatado, mas cinco anos depois ainda não foi cumprido.

“Segundo o governo, há um processo de fechamento dos pontos de queima de gás, o que de fato ocorre em alguns casos. No entanto, novos pontos também vêm sendo abertos. A falta de transparência e de mecanismos de verificação torna difícil confirmar a real dimensão dessas ações”, disse o médico pesquisador.

Área de queima de gás no Equador. Foto: José María León/GK

O relatório que monitorou os casos entre 1990 e 2019 destaca que o não cumprimento da decisão contradiz os próprios compromissos internacionais assumidos pelo Equador, como o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O informe destaca a criação de um sistema de vigilância epidemiológica na Amazônia, capaz de monitorar a incidência e a mortalidade por câncer, além da implementação de um centro oncológico na região. A ideia é que a estrutura desenvolva ações de prevenção, detecção precoce, diagnóstico e tratamento integral da doença, incluindo cirurgia e radioterapia. No Equador, os pacientes precisam se deslocar para a capital para isso. 

Para ações futuras, a recomendação é aprofundar as pesquisas, com a realização de estudos epidemiológicos que analisem o papel da proximidade aos pontos de gas flaring e seus impactos em diferentes indicadores de saúde, investigações em nível individual sobre a exposição a gases e a relação com o câncer. Além disso, estudos populacionais que explorem possíveis associações entre a exposição aos químicos liberados pela queima de gás ligado ao petróleo e outros problemas de saúde, como fatores reprodutivos, anemia e doenças respiratórias.

Por fim, os pesquisadores também recomendam uma formação contínua dos profissionais de saúde da região em temas como oncologia, saúde ambiental e manejo de fatores de risco, com enfoque intercultural.


Imagem de abertura: Uma das queimadas de gás em poços de petróleo na província de Orellana, Equador, em território waorani. Foto: Segundo Espín/OjoPúblico

About the writer
Avatar photo

Samantha Rufino

Jornalista roraimense formada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e editora-assistente na InfoAmazonia. Atua em jornalismo ambiental, com experiência em reportagem e comunicação comunitária.

There are no comments yet. Leave a comment!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gift this article