Maior mobilização indígena da América Latina, o Acampamento Terra Livre passou a incorporar a disputa eleitoral como estratégia de enfrentamento a pautas anti-indígenas nas esferas de poder. Ao menos 27 candidaturas devem disputar a Câmara dos Deputados em 2026.

A gente precisa estar do lado de lá também. É lá que se constrói nossos direitos”. A afirmação da liderança Auricélia Arapiuns, diante de milhares de indígenas reunidos no Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, e que marcou o anúncio de sua candidatura à deputada estadual no Pará, sintetiza uma mudança estratégica do movimento indígena para ocupar diretamente os espaços de poder.

Pela primeira vez, o ATL — a maior mobilização indígena da América Latina — abriu espaço para o debate eleitoral, com orientações, lançamento de pré-candidaturas e uma articulação nacional em torno da “Campanha Indígena para Aldear a Política”. 

A iniciativa consolida um movimento que vinha ganhando força nos últimos anos, mas que agora se assume como prioridade diante do avanço de pautas consideradas anti-indígenas no Congresso Nacional. A plenária em que as candidaturas foram apresentadas ocorreu nesta quinta-feira (9).

“Por algum tempo, o próprio movimento indígena resistia a trazer esse debate para o palco do Acampamento Terra Livre. Hoje, está mais do que comprovado que é fundamental termos nossa voz nesses espaços de decisão”, afirmou a ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, que deve disputar a reeleição à Câmara por São Paulo.

Por algum tempo, o próprio movimento indígena resistia a trazer esse debate para o palco do Acampamento Terra Livre. Hoje, está mais do que comprovado que é fundamental termos nossa voz nesses espaços de decisão

Sonia Guajajara, ex-ministra dos Povos Indígenas e pré-candidata a deputada federal.

Sem presença, não há direitos

Durante a plenária que marcou o lançamento das candidaturas, as lideranças reforçaram que a sub-representação indígena nas instituições é um dos principais entraves à garantia de direitos.

A InfoAmazonia apurou que ao menos 27 candidatos indígenas devem disputar vagas na Câmara dos Deputados em 2026, com presença em todas as regiões, exceto a Sul. Entre elas, está a de Kléber Karipuna, do Amapá, que também atua na articulação nacional do movimento indígena.

Segundo ele, é preciso “deixar de tratar a política como tabu” e fortalecer candidaturas próprias em todas as esferas de poder.

A liderança Vanda Witoto, pré-candidata à Câmara pelo Amazonas no MDB, destacou que a ausência de parlamentares indígenas impacta diretamente na implementação de políticas públicas básicas.

“Continuamos elegendo deputados e senadores que não têm compromisso com nosso povo. A efetivação das políticas públicas só será possível quando elegermos nossos parentes para ocupar esse espaço”, afirmou, citando que demandas históricas como demarcação de terras, acesso à educação e à água potável são temas recorrentes do movimento indígena.

Continuamos elegendo deputados e senadores que não têm compromisso com nosso povo. A efetivação das políticas públicas só será possível quando elegermos nossos parentes para ocupar esse espaço.

Vanda Witoto, pré-candidata à Câmara pelo Amazonas

No ATL, a Apib lançou a carta política que orienta a estratégia eleitoral de 2026, reafirmando a disputa institucional como parte central da luta indígena. 

O documento resgata o histórico de exclusão na política brasileira e denuncia o avanço de interesses econômicos sobre os territórios, como mineração, agronegócio e grandes obras, e aponta a eleição de representantes indígenas como caminho para enfrentar esse cenário.

Após a grande marcha do ATL até o Congresso nesta quinta-feira, a deputada federal Célia Xakriabá (Psol), que vai disputar a reeleição por Minas Gerais, afirmou que o cenário atual é amplamente desfavorável aos povos originários: “São 312 parlamentares no congresso nacional, 300 deles votam contra os direitos dos povos indígenas”. 

‘Nossos parentes precisam entender o que está em jogo’

Uma das principais lideranças indígenas da Amazônia, Alessandra Munduruku confirmou filiação ao PT e deve disputar uma vaga como deputada federal pelo Pará. Atual presidente da Associação Indígena Pariri, que atua junto a comunidades Munduruku na bacia do Tapajós, em 2023, Alessandra recebeu o Prêmio Goldman, considerado o “Nobel do meio ambiente”, concedido a ativistas de destaque global.

Com seu envolvimento, projetos de mineração, hidrelétricas e grandes obras de infraestrutura na Amazônia foram barradas. As mineradoras Vale e Anglo, por exemplo, desistiram de explorar minério no território Munduruku após um movimento das aldeias que seriam impactadas, em 2021.

“Os nossos parentes precisam entender o que está em jogo. Precisamos levar informação para dentro dos territórios. A educação tem que acontecer ali, não adianta formar uma ou duas pessoas fora, tem que alcançar todo mundo”, afirmou à reportagem.

Os nossos parentes precisam entender o que está em jogo. Precisamos levar informação para dentro dos territórios. A educação tem que acontecer ali, não adianta formar uma ou duas pessoas fora, tem que alcançar todo mundo

Alessandra Munduruku, presidente da Associação Indígena Pariri.
Alessandra Munduruku é uma das principais lideranças indígenas na Amazônia. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

Ela também teve papel central na resistência a grandes hidrelétricas planejadas para a bacia do Tapajós, um dos principais focos de conflito socioambiental na Amazônia na última década e, mais recentemente, na mobilização que ocupou a sede da Cargill, em Santarém. O protesto foi decisivo para pressionar o governo federal a recuar do projeto para concessão de rios amazônicos à iniciativa privada.

Demarcação, clima e grandes obras no centro da disputa

A demarcação de terras indígenas aparece como eixo central das candidaturas, associada diretamente ao enfrentamento da crise climática e à proteção dos territórios. A pauta ambiental também atravessa debates sobre grandes obras de infraestrutura. 

À InfoAmazonia, Vanda Witoto afirmou que sua campanha deve priorizar a escuta das comunidades e o enfrentamento de temas como a reconstrução da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes (AM). “Não podemos aceitar que decisões sobre nossos territórios sejam tomadas sem a participação dos povos indígenas”, disse.

O movimento de ocupação da política institucional ganhou força a partir de 2017, quando a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou a campanha por uma maior presença indígena no parlamento.

O avanço mais significativo ocorreu em 2022, com a eleição de três deputadas federais indígenas: Célia Xakriabá, Sonia Guajajara e Juliana Cardoso, um marco histórico para a representação indígena no país. Antes disso, em 2018, Joenia Wapichana tornou-se a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Durante o governo Lula, ela presidiu a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e, agora, concorre à reeleição como deputada federal.

Para 2026, a meta do movimento é ampliar presença indígena em todos os poderes. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

Entraves estruturais

Para 2026, a meta é ampliar essa presença em todos os poderes, especialmente nas assembleias legislativas estaduais, onde a representação ainda é reduzida. Apesar do crescimento das candidaturas, as lideranças apontam entraves estruturais dentro do sistema político.

Um dos principais é o acesso ao Fundo Eleitoral. Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que os recursos devem ser distribuídos proporcionalmente ao número de candidatos indígenas apresentados pelos partidos — regra que passa a valer pela primeira vez em 2026.

Ainda assim, o movimento indígena critica a forma como os partidos, inclusive de esquerda, distribuem esses recursos, frequentemente priorizando candidaturas tradicionais. Outro ponto de preocupação é a disputa política sobre as próprias pautas indígenas. Segundo lideranças, setores conservadores têm buscado cooptar candidaturas indígenas alinhadas a agendas contrárias aos direitos territoriais.


Imagem de abertura: ‘Campanha Indígena para Aldear a Política’ foi lançada durante o ATL. Deputada federal Célia Xakriabá deve disputar reeleição. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

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Fábio Bispo

Repórter investigativo da InfoAmazonia, com foco em cobertura política, transparência pública, jornalismo de dados e questões socioambientais. Com mais de uma década de experiência, já colaborou...

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