Ação integra protesto contra dragagem do rio Tapajós e decreto que inclui trechos de rios amazônicos no programa de desestatização. Manifestação chegou ao 29º dia e reúne mais de 1,2 mil pessoas, segundo o movimento.
Após 29 dias de ocupação no terminal de cargas da multinacional Cargill, cerca de 400 indígenas realizaram uma barqueata no rio Tapajós, em Santarém (PA), em protesto contra a concessão de hidrovias à iniciativa privada na região. Nesta quinta-feira (19), o grupo ocupou uma balsa de grãos e estendeu faixas contra o decreto 12.600/2025, que abre caminho para privatização do uso do rio.
O movimento pede a derrubada do projeto e denuncia a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas potencialmente impactadas pela hidrovia do Tapajós, um direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo eles, o ato teve como objetivo chamar a atenção do governo federal e da sociedade para os impactos da transformação dos rios amazônicos em corredores de exportação.
O decreto nº 12.600/2025 inclui mais de 3 mil quilômetros de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização (PND), entre eles trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Para Auricélia Arapiuns, liderança indígena do Baixo Tapajós, a norma favorece apenas empresas estrangeiras que lucram “com as violações de direitos humanos e ambientais na Amazônia”.
“Esse rio é nossa rua. É nossa fonte de alimento, é morada de nossos peixes e essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja? E pior, sem ouvir os povos que vivem nele e dele. É por isso que estamos aqui, porque queremos que o Brasil respeite a Convenção 169 da OIT e nos ouça antes das tomadas de decisões”, disse.
Esse rio é nossa rua. É nossa fonte de alimento, é morada de nossos peixes e essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja? E pior, sem ouvir os povos que vivem nele e dele.
Auricélia Arapiuns, liderança indígena do Baixo Tapajós
Após a ocupação, uma lancha da Polícia Federal se aproximou da barqueata. Imagens divulgadas por Auricélia mostram a embarcação das forças de segurança nas proximidades da balsa da Cargill. A multinacional sediada nos Estados Unidos foi a primeira empresa a instalar um porto de cargas na região, em 2003, e hoje é uma das principais operadoras do escoamento de grãos pelo Tapajós. A InfoAmazonia questionou se a empresa gostaria de se pronunciar sobre o protesto e aguarda retorno.
As lideranças também pedem a anulação do processo de dragagem: Processo de remoção, limpeza ou escavação de sedimentos do fundo do rio. do rio, processo associado à concessão da hidrovia. O edital federal do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) prevê a contratação de empresa no valor de R$ 74,8 milhões, por três anos, para a abertura do canal de navegação da hidrovia do Tapajós (HN-206), no trecho entre Santarém e Itaituba. Embora o governo Lula (PT) tenha suspendido o processo em 6 de fevereiro, os indígenas exigem a anulação definitiva da medida.
“O rio tem seu tempo, sua cheia, sua vazante. Quando aprofundam, alargam e forçam a navegação o ano todo, rompem esse ciclo. Nosso povo sempre ensinou que é preciso respeitar o limite do rio. Quando não se respeita, vêm as secas extremas, os desequilíbrios. E nesse caso, não é só o Tapajós que sente, é toda a região”, destaca Maria Leusa, do povo indígena Munduruku.


A ocupação, liderada por povos do Tapajós, ganhou reforço nas últimas semanas. Na segunda-feira (16), cerca de 50 indígenas Kayapó e Panará, vindos do Mato Grosso e do Pará, chegaram ao acampamento. Na sexta-feira (13), os Munduruku do Alto Tapajós também passaram a integrar o movimento, que já reúne cerca de 1.200 pessoas, segundo a organização. A mobilização conta ainda com apoio de povos e movimentos de outras bacias que também serão afetadas – Madeira e Tocantins.
“Não estamos aqui só pelo Tapajós, mas contra a privatização dos rios da Amazônia. A soja que avança no entorno do Capoto-Jarina [Terra Indígena do Mato Grosso] é empurrada pela BR-163 e desce o Tapajós. Se o governo privatiza esses rios, acelera a mesma engrenagem que pressiona nossos territórios. Por isso, viemos somar forças com o Tapajós”, afirmou Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.
Não estamos aqui só pelo Tapajós, mas contra a privatização dos rios da Amazônia. A soja que avança no entorno do Capoto-Jarina [Terra Indígena do Mato Grosso] é empurrada pela BR-163 e desce o Tapajós. Se o governo privatiza esses rios, acelera a mesma engrenagem que pressiona nossos territórios. Por isso, viemos somar forças com o Tapajós.
Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.
Arco Norte
O movimento destaca ainda que os protestos ocorrem em meio ao avanço do corredor logístico do Arco Norte, rota estratégica para o escoamento de grãos do Centro-Oeste brasileiro através da Amazônia. O corredor logístico inclui o projeto da Ferrogrão (EF-170), que deve ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA). O leilão está previsto para setembro.



O transporte é feito hoje por caminhões que trafegam pela BR-163, rumo aos portos localizados nos municípios paraenses de Itaituba, Santarém e Barcarena. Com traçado paralelo à rodovia, a Ferrogrão tem como promessa reduzir os custos de transporte do agro. No entanto, um levantamento da InfoAmazonia e O Joio e o Trigo mostra que o projeto da ferrovia pode afetar 6 terras indígenas, 17 unidades de conservação e 3 povos isolados.
“É importante um olhar crítico e de impactos cumulativos sobre o projeto Arco Norte. A Ferrogrão, a expansão de portos graneleiros privados e a Hidrovia do Tapajós podem criar um corredor logístico com aumento de 5 a 7 vezes da quantidade de soja, que irá aumentar a pressão sobre territórios tradicionais”, analisa Renata Utsunomiya, analista de política de transporte da GT Infraestrutura, um grupo de organizações da sociedade civil.
“As consequências vão além dos impactos no rio Tapajós, com a expansão da soja e do desmatamento, ameaçando também as próprias metas climáticas do país de redução do desmatamento”, completou.
Imagem de abertura: Ocupação ocorreu nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, em balsa de grãos da Cargill. Foto: Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação